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A aluna do quarto ano do curso de licenciatura em História da PUC-Campinas, Ana Paula de Souza Freitas, foi aprovada em segundo lugar na seleção para o mestrado em Arqueologia no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. O projeto apresentado ao Museu é derivado de sua pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso da licenciatura em História, intitulado “As estatuetas de terracota e a grande estatuária no mundo grego na época helenística: interações e significados”.

 

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Fotografia: Armando (DCOM)

 

Conhecida especialmente pela grande estatuária, a escultura da Grécia Antiga é extremamente variada no tempo e no espaço: das monumentais e estáticas figuras de “jovens” (kouroi) em mármore para servirem como monumentos funerários, às rústicas imagens de deuses e deusas feitas em madeira (xoanon), sem forma humana, cultuadas dentro dos principais templos das cidades, a estatuária grega apresenta uma enorme diversidade de materiais, estilos, técnicas e temáticas. Dentro desta diversidade, um tipo de estátuas, conhecido como tanagras (em função da principal cidade produtora, Tanagra, localizada na Beócia, ao norte de Atenas), se destaca por sua grande quantidade, acabamento e mistérios: encontrada às centenas em diversas cidades gregas durante o período helenístico (séculos IV-I a.C.), são pequenas estatuetas (entre 15 e 30cm de altura) feitas em terracota, representando mulheres jovens ou idosas nas mais diferentes situações. A produção em massa é indicada pela grande quantidade de peças e pela regularidade nas formas: os coroplastas produziam as estatuetas a partir de moldes e davam acabamento mais refinado manualmente antes da queima. Uma das peças mais conhecidas é a “Dama sofocleana”, encontrada em Tanagra e abrigada atualmente no Museu do Louvre, em Paris; seu nome deriva de sua pose, que remete à celebre estátua em tamanho real do poeta Sófocles.

 

Imagem La Sophocleene – Louvre: http://www.louvre.fr/sites/default/files/imagecache/940x768/medias/medias_images/images/louvre-ltigtla-sophocleenneltigt.jpg

Imagem La Sophocleene – Louvre:
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As pequenas tanagras, no entanto, estão envoltas em mistérios. Qual o significado destas estatuetas, como elas eram usadas, quais eram as referências dos coroplastas? Muitas delas foram encontradas nas escavações de espaços domésticos, mas uma quantidade considerável também é encontrada em cemitérios e santuários. Seriam elas objetos de culto, objetos de decoração, miniaturas de grandes estátuas? Além disso, elas representariam mulheres reais em situações rituais e/ou cotidianas, ou seriam representações de mulheres ideais, reforçando estereótipos femininos – entre deusas e sacerdotisas? Como explicar a diversidade das peças e dos contextos de achado? Há realmente um tipo “tanagra” que era copiado nas oficinas locais, ou cada cidade produzia seus próprios tipos? Além disso: por que a produção em larga escala tem início apenas no século IV a.C.? Seria um indício de um maior individualismo da época – marcada pela formação dos grandes reinos governados pelos generais de Alexandre, o Grande, e pela suposta “crise da vida pública” – ou, pelo contrário, está ligada a outros fatores, como transformações na religiosidade grega ou mesmo nos hábitos domésticos, independentes da história política?

 

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Coleção MAE-USP – Fotografia: Ana Paula de Souza Freitas

Coleção MAE-USP – Fotografia: Ana Paula de Souza Freitas

 

Estas e outras questões estão no centro da pesquisa que Ana Paula Freitas iniciará no segundo semestre de 2017. O Museu de Arqueologia da USP, cujo acervo foi organizado nos anos 1960 e é hoje um dos principais centros de pesquisa arqueológica do Brasil, tem dois exemplares de estatuetas do tipo tanagra, além de três exemplares de figuras femininas nuas (tradicionalmente identificadas como figuras de Afrodite). Para compreender os significados das estatuetas, a aluna comparará as estatuetas do acervo do Museu com os exemplares catalogados em diversos museus do mundo (em particular o Musée du Louvre e o British Museum), além de consultar uma ampla bibliografia produzida majoritariamente em inglês e francês. Deste modo, continuará a pesquisa sobre estatuetas gregas iniciadas pela Profa. Dra. Elaine Farias Veloso Hirata (cuja tese sobre estatuetas foi defendida na USP em 1978), que será sua orientadora no mestrado.

Ana Paula Freitas será a primeira aluna egressa do curso de História da PUC-Campinas a realizar o mestrado na área de Arqueologia Clássica.



Leonardo Lamari
26 de maio de 2017