
Em palestra promovida pela PUC-Campinas e FEAC, Nina Silva destaca diversidade como força para inovação no Campinas Innovation Week
Executiva de tecnologia e CEO do movimento Black Money defendeu a inclusão como elemento essencial para a criação de novos mercados e modelos de desenvolvimento
A relação entre inovação, diversidade e desenvolvimento econômico esteve no centro da palestra de Nina Silva, realizada nesta sexta-feira (18), durante o Campinas Innovation Week, em evento promovido pela PUC-Campinas e a FEAC. Com o tema “Tecnologia, Impacto Social e Negócios do Futuro: A Força da Diversidade na Economia”, a executiva de tecnologia, CEO do movimento Black Money e investidora-anjo abordou a necessidade de ampliar a participação de diferentes grupos sociais na construção de soluções e negócios inovadores.
Em palestra realizada no Green Stage, Nina afirmou que a presença de diferentes perspectivas é fundamental para ampliar discussões, estimular novas ideias e permitir a exploração de mercados que ainda não são plenamente atendidos.
A diversidade é fundamental para que as cabeças se abram e, principalmente, novos mercados sejam explorados
Participaram também da mesa a Profa. Dra. Camila Brasil Gonçalves Campos, coordenadora do Departamento de Relações Externas (DRE) da PUC-Campinas e Lina Pimentel, diretora socioeducativa da FEAC, que colaboraram com a discussão colocando o ponto de vista universitário e da atuação da FEAC em Campinas.
Iniciativa de longa data
Nina lembrou que a busca por inclusão é resultado de movimentos sociais construídos ao longo de décadas e séculos e envolve diferentes grupos historicamente excluídos. Na avaliação dela, o desafio atual está em transformar o debate em políticas e ações capazes de modificar estruturas sociais e econômicas.
“Quando essa pauta é apenas uma pauta de discurso, a gente discute na academia, no âmbito privado e no âmbito público, mas não temos os poderes organizados e oxigenando, não conseguimos construir estratos sociais que realmente façam sentido para que essas políticas sejam incorporadas”, disse.
A executiva também chamou a atenção para mudanças recentes no cenário corporativo internacional e para o que classificou como uma regressão no diálogo sobre diversidade. Segundo Nina, empresas multinacionais que anteriormente lideravam iniciativas nessa área passaram, em alguns casos, a rever suas posições diante de mudanças políticas e de prioridades relacionadas ao capital.
“As desigualdades são estruturantes, estão nas estruturas, mas as soluções não estão sendo criadas de maneira estrutural”, afirmou.
Dados, inteligência artificial e diversidade
Ao abordar os avanços tecnológicos, Nina Silva também destacou a relação entre dados, comportamentos humanos e inteligência artificial. Segundo ela, os dados utilizados pelas tecnologias são, em grande medida, registros de comportamentos, relações e experiências humanas. Por isso, a diversidade de pessoas envolvidas na coleta, análise e desenvolvimento dessas tecnologias é fundamental para evitar que determinados contextos sociais e culturais fiquem de fora.
“Nossos dados simplesmente são comportamentos humanos. O que a gente lê? A gente lê nossos comportamentos. Armazenamos comportamentos e relações. E esses são os dados”, afirmou.
Inovação e soberania digital
Ao relacionar o debate sobre diversidade ao ambiente de inovação, Nina Silva destacou ainda a necessidade de discutir a soberania tecnológica e financeira do Brasil. Segundo ela, ferramentas como a inteligência artificial representam avanços importantes na forma como tecnologias são disponibilizadas, mas parte significativa dessas estruturas ainda precisa evoluir no país e com pessoas à frente. “Não existe inovação sem pessoas”, afirmou.
Ela também alertou para o risco de uma nova dependência tecnológica caso o país apenas utilize ferramentas desenvolvidas por outras sociedades, sem ampliar sua capacidade de produzir conhecimento e tecnologia. “Para que a gente construa modelos nossos de inovação, precisamos que a sociedade brasileira esteja na pauta dessa criação. E só estão na pauta da criação os que estão realmente incluídos, economicamente, financeiramente e socialmente falando”, destacou.
A executiva encerrou sua reflexão defendendo que a inclusão também precisa abrir espaço para que novas gerações possam ampliar as possibilidades de futuro, especialmente para grupos historicamente sub-representados.
“Eu quero ser a última geração de primeiros da minha família”, afirmou Nina, ao defender a construção de futuros desejáveis em lugar de limitar as possibilidades àquilo que é considerado apenas possível.
Confira a entrevista na íntegra, feita com Nina Silva:
Bom, primeiro gostaria de agradecer o convite do FEAC, também da PUC-Campinas, ainda tratando de dois temas que, para mim, são essenciais: inovação e diversidade. No momento em que diversidade está extremamente sensível nas pautas, tanto de política, quanto também nas pautas acadêmicas, nas pautas corporativas, a gente precisa manter uma resistência e precisa manter um trabalho para que diversidade saia desse lugar teórico do quase e realmente retome um lugar de protagonismo, de transformação social. E a inovação é uma grande porta para que isso aconteça. Então, a minha fala vai ser sobre isso: como processos realmente inovadores precisam de inovação, sustentabilidade e impacto. E diversidade entra nesse contexto, porque falas e comportamentos similares não trazem discussões, não trazem fomento, não trazem riqueza à mesa. Então, a diversidade é fundamental para que as cabeças se abram e, principalmente, novos mercados sejam explorados, até mesmo para grandes empresas e mercados já existentes.
Ganhamos, de 2015 a 2020, penetrando principalmente na parte da pandemia, uma visibilidade sobre o tema de diversidade e inclusão dentro das empresas. Só que o tema de diversidade e inclusão é uma pauta político-social de muitos e muitos anos, de décadas, de séculos de trabalho de movimentos sociais. E aí a gente está falando de vários grupos que são excluídos historicamente. A gente está falando de população preta, uma população majoritária no país que embasou o tratar capitalismo na sociedade brasileira. Foi a sociedade escravocrata que trouxe a possibilidade de fomento à riqueza para uma industrialização e o advento do capitalismo na sociedade brasileira. Então, nós estamos no cerne dessa desigualdade, no lugar da exclusão. E não no lugar do protagonismo do beneficiário e da beneficiada.
E aí a gente tem também outros grupos sociais, mulheres enquanto o lugar de propriedade que nos foi colocado historicamente. E a falta dessa inserção no mercado de trabalho proposital para a distinção de funções familiares e contextos sociais e grupos como a LGBTQIAPN+, que é uma sigla muito extensa para a gente botar dentro de uma única caixinha, mas que, da mesma forma, é colocado de maneira excludente.
Então, nós temos movimentos de resistência e de transgressão de anos e de séculos que começam a ganhar voz não no protagonismo de políticas estruturantes. E esse é o maior problema. Porque quando essa pauta é uma pauta apenas de discurso , a gente discute na academia, no âmbito privado, no âmbito público, mas a gente não tem os poderes organizados e oxigenando, Não conseguimos construir estratos sociais que realmente façam sentido para que essas políticas sejam incorporadas tanto no âmbito público quanto no âmbito privado.
Então, houve uma regressão, porque estava-se iniciando um diálogo no âmbito corporativo e aí mudanças políticas, mudanças de objetivos em relação ao capital mudou, políticas polarizadas foram ainda mais constituídas, e não só no Brasil, mas no mundo.
E essas multinacionais que antes estavam encabeçando esse diálogo, inserindo no Brasil, começaram a negar esse diálogo por conta de uma pauta política. E aí a gente vê que nós ficamos à mercê, porque as desigualdades são estruturantes, estão nas estruturas, mas as soluções não estão sendo criadas de maneira estrutural. Tem hora que vai ter regressão, tem hora que pode ser que tenha aparentemente um avanço.
A mensagem é que não existe inovação sem pessoas. Não existe inovação em robôs, isso não é nada novo. Se a gente for falar de inteligência artificial, a gente está falando de neurociência da década dos anos 1940, do século passado, não é nada novo. A novidade é que hoje a gente tem essas estruturas disponibilizadas online, mas que não são estruturas de propriedade intelectual brasileira. E aí a gente também corre um novo risco de criar uma dependência sobre ferramentas e sobre estruturas que não são da nossa soberania. Então, o recado é como que a gente constrói a partir de uma soberania digital, uma soberania financeira com inclusão. Porque sem inclusão a gente vai aumentar a desigualdades em relação a capital, em relação a propriedades e não estaremos inovando, no final do dia. Estaremos reproduzindo modelos que nem são nossos. Então, para que a gente construa modelos nossos de inovação, precisamos que a sociedade brasileira esteja na pauta dessa criação. E só está na pauta da criação quem está realmente incluído, economicamente, financeiramente e socialmente falando.






