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Docente de Sociologia e escritor ministra palestra a estudantes de Pedagogia sobre os sentidos de trabalho e educação na atualidade

O doutorando pela Unicamp, Prof. Me. Gustavo Reis de Araujo, falou ainda sobre as nuances e formas de se tratar do tema sob uma perspectiva literária

Durante a sua palestra, cujo tema foi “Sentidos de Trabalho e Educação na Atualidade”, o Prof. Me. Gustavo Reis de Araujo, além de falar sobre as nuances e formas de se tratar do trabalho sob uma perspectiva literária, também discutiu com os estudantes sobre as chamadas “relações de trabalho alienado”.

O sociólogo, historiador e professor da rede municipal, Prof. Me. Gustavo Reis de Araujo, um dos autores do livro “Becos e Bicos – Contos sobre as Relações de Trabalho na Era Digital”, e doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ministrou, nos últimos dias 5 e 8 de maio, para os estudantes de Pedagogia dos períodos matutino e noturno, respectivamente, uma palestra cujo tema foi “Sentidos de Trabalho e Educação na Atualidade”.

Durante o evento, realizado no Lab de Biblioteconomia, localizado na Escola de Ciências Humanas, Jurídicas e Sociais (HJS), o professor falou sobre as nuances e formas de se tratar do trabalho sob uma perspectiva literária. Gustavo explica que, “recentemente, eu lancei um livro, em parceria com outros colegas que também discutem a temática do trabalho na perspectiva da literatura, e a obra apresenta inúmeros contos que tratam de diferentes formas de resistência dos trabalhadores e trabalhadoras dentro dos ‘becos e bicos’, que é o nome do livro. Além disso, fala também da pesquisa que eu estou desenvolvendo no meu doutorado, que é sobre apostas e apostadores e, entendendo isso, no contexto social atual, como um trabalho também”.

“O livro é ficção, mas é lógico que sempre tem um fundo de verdade, porque, ao longo do nosso processo criativo, nós pesquisamos muito sobre o tema para criarmos os personagens. A ideia não foi realizarmos uma reflexão explícita ou uma denúncia da precarização do trabalho, mas entender o trabalho no Brasil sob as suas diversas perspectivas, positivas e negativas”, explica o professor.

O sociólogo, historiador, professor da rede municipal e doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Prof. Me. Gustavo Reis de Araujo, é um dos oito autores (sete escritores e um ilustrador) do livro “Becos e Bicos – Contos sobre as Relações de Trabalho na Era Digital”.

Relações de trabalho alienado e aplicativos
Sobre a discussão com os estudantes a respeito das chamadas “relações de trabalho alienado” (segundo o filósofo e economista alemão Karl Marx, é quando o trabalhador perde o controle sobre a sua produção e não se reconhece no produto final, tratando a sua força de trabalho como mercadoria), Gustavo explica que “com o aparato tecnológico atual, a gente consegue, cada vez mais, produzir mais coisas em um curto espaço de tempo, sendo remunerados, porém, nós também produzimos sem o sermos, pois, por exemplo, nós fornecemos dados para as empresas sem sabermos, elaboramos conteúdo gratuitamente para as redes sociais e isso também é trabalho alienado. É um trabalho não remunerado, que, muitas vezes, a gente nem entende enquanto trabalho, porque a categoria ‘trabalho’ é muito extensa. Isso é algo que nós buscamos discutir aqui”.

“Nós estamos trabalhando de graça em alguns contextos e isso é propiciado por conta do avanço da tecnologia. É isso que nós, sete escritores e um ilustrador, pretendemos inserir no livro e eu visei trazer aqui hoje, pois são retratos e fotografias do Brasil. São trabalhadores mediados por aplicativos: motoboys, trabalhadores domésticos, do setor de serviços, dentro de um contexto de precarização, desconstituição das relações de trabalho e, no fundo, esses trabalhadores são pessoas. Poderia ser um primo, um irmão, ou uma mãe que já foi doméstica, ou é doméstica, e tudo isso se relaciona com a pedagogia, porque os estudantes de agora serão jovens professores e professoras amanhã, então é importantíssimo que todos entendam que o professor é o profissional que forma todas as outras profissões e, enquanto missão pedagógica, didática, política e social, ele tem esse caráter de apresentar para as pessoas o mundo como ele é. Mas é o mundo como ele poderia ser também”, ressalta o doutorando.

Formando futuros profissionais
Ele encerra esclarecendo que o trabalho é uma categoria êmica (abordagem de pesquisa que analisa comportamentos e crenças a partir do ponto de vista interno de um grupo cultural) na sociedade e que possui vários significados, sendo importante que “estes futuros professores tenham esse tipo de formação como a de hoje e não só a informação que a gente pode obter com textos, reportagens ou estudando sozinho. O nosso objetivo é formar futuros profissionais, futuros professores, e o que esses professores vão passar para as próximas gerações no que se refere as relações de trabalho, um tema tão importante, é que este não deve ser tratado só no Dia Internacional do Trabalho, em 1º de maio, mas ao longo do ano todo”.

De acordo com a Profa. Dra. Daniela Gobbo Donadon, responsável pela atividade, as palestras fizeram parte do projeto dos componentes curriculares do sétimo período do curso de Pedagogia, em que, segundo ela, “há muitas discussões relacionadas ao mundo do trabalho e a educação em nossa sociedade”.

“Educação e Transformação”
De acordo com a Profa. Dra. Daniela Gobbo Donadon, responsável pela atividade e quem realizou o convite ao professor Gustavo, as palestras fizeram parte do projeto dos componentes curriculares do sétimo período do curso de Pedagogia, em que, segundo ela, “há muitas discussões relacionadas ao mundo do trabalho e a educação em nossa sociedade. No âmbito da disciplina ‘Educação e Transformação’, a gente realiza muitas discussões teóricas no sentido de se pensar o papel do professor na formação das pessoas, em especial da classe trabalhadora, que é quem irá construir a nossa sociedade no futuro e, dentro dessa discussão, nós procuramos trazer também o que é a identidade docente no mundo do trabalho, como é ser trabalhador da educação, e a presença do professor Gustavo oportuniza para os estudantes de Pedagogia, futuros professores e professoras, conhecer um pouco da atuação do profissional da área, que está lá na realidade cotidiana da escola, que tem clareza sobre a complexidade do mundo do trabalho em nossa sociedade, mas que, ao mesmo tempo, não perde a dimensão do que é ser um estudioso, um pesquisador da educação, de ser um produtor de conhecimento, um autor de livros, então, muito desse trabalho visa também inspirar as nossas futuras professoras e professores, para que eles possam observar o leque de possibilidades dentro da nossa área e a qual eles podem ter acesso”.

Ela continua dizendo que o palestrante veio até a PUC-Campinas a fim de “mostrar um bom exemplo, de ser uma inspiração, e também de aprofundar as discussões da disciplina, trazendo a experiência dele de pesquisa, de estudos teóricos e de vivências práticas no campo da educação e, aqui, nós recebemos alunos e alunas de outros semestres também, mas que já estão estagiando e, portanto, vivenciando o mundo do trabalho na área educacional, e essa discussão irá ampliar a visão deles sobre o assunto”.

Pensando caminhos para enfrentar a realidade
“Dentro de um trabalho interdisciplinar, a nossa ideia é construir a robustez analítica dos estudantes de Pedagogia para o projeto integrador do semestre, então, na atualidade, os nossos alunos e alunas estão se deparando com vários contextos de educação, dentre os quais a educação popular, dentro de movimentos sociais, pois dialoga com a disciplina e, quando o professor Gustavo traz essas reflexões sobre o mundo do trabalho, sobre a sociedade na qual nós estamos inseridos hoje, tratando da forma como o sistema está organizado a fim de explorar as pessoas, a gente acaba, necessariamente, pensando caminhos para o enfrentamento dessa realidade”, esclarece Daniela.

A professora lembra que “o resultado desse olhar é pensar nos movimentos sociais como saída, quando as pessoas se organizam em torno de causas comuns e, é por isso, que nós estamos levando os estudantes para visitar assentamentos sem-terra, por exemplo, a fim de que eles possam observar outras formas de trabalho possíveis, outras formas de organização do trabalho, dentre as quais, a agricultura familiar promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que acontece em contraposição ao agronegócio, afinal, a primeira é uma agricultura que pensa na saúde de quem vai consumir aquilo que é produzido, usando o mínimo de elementos químicos e agrotóxicos, diferentemente da indústria agrícola, então, é analisarmos outros modelos possíveis de trabalho e de pensarmos a sociedade de uma forma plural, ou seja, é se propor sonhar um outro mundo, que é possível”.

Os alunos e alunas do curso de Pedagogia assistiram a palestra “Sentidos de Trabalho e Educação na Atualidade”, do Prof. Me. Gustavo Reis de Araujo, no âmbito da disciplina ‘Educação e Transformação’, do sétimo semestre.

Questionando as relações de exploração
“O professor Gustavo é meu parceiro na Escola Municipal de Educação de Jovens e Adultos (EMEJA) Nísia Floresta Brasileira Augusta, localizada no Conjunto Habitacional Vida Nova, no distrito do Campo Grande, em Campinas e, muito do que a gente discute no campo teórico, aqui na formação de professores, nós colocamos em prática lá. Uma educação que é socialmente referenciada, que se propõe a ser transformadora e que pensa a conscientização dos estudantes como um caminho para formar sujeitos transformadores. E os nossos alunos e alunas, conforme vão vivenciando essas práticas de educação socialmente fundamentadas, passam a questionar as próprias relações de exploração em que vivem, no trabalho, nas relações familiares e em outras situações também, então, esse é um trabalho que, com seus frutos e impactos, a gente observa na prática lá na Escola”, explica Daniela.

Pensando as relações de trabalho
Ela comenta que “para os professores, na atualidade, também existe essa ‘uberização’ das relações. Há professores dando aulas por aplicativo e quando eu vejo todas as coincidências existentes entre aquilo que o trabalho do professor Gustavo apresenta e aquilo que, de fato acontece, fica bastante óbvio a necessidade de trazê-lo aqui para conversar com os estudantes, porque o grande eixo central de discussão da disciplina é pensar essas relações de trabalho na nossa sociedade, pois o trabalho é uma dimensão fundante do ser humano. Inclusive, a famosa frase que sempre nos acompanha é: ‘o trabalho dignifica o homem’, mas, na história recente da nossa sociedade, a gente vai viver uma série de formas de distorção dessa relação do ser humano com a relação de trabalho, como, por exemplo, no período da escravidão, em que a gente contou com uma forma absolutamente brutal de desconstrução dessa relação, em que o trabalho deixa de dignificar o ser humano. Na sociedade atual, por sua vez, nós contamos com relações de trabalho que passam pelas diversas dimensões da exploração”.

A diretora da Faculdade de Pedagogia, Profa. Dra. Alessandra Rodrigues de Almeida, diz achar bastante importante “trazer professores, mestres, doutores, com diferentes perspectivas, tanto de trabalho, quanto de pesquisa, porque amplia o processo de compreensão dos alunos e alunas, em especial quando esses temas são muito vinculados ao componente curricular ao qual elas estão estudando”.

“Agora, na era digital, nós contamos com uma outra forma de pensarmos essa exploração do trabalho, que acontece a partir das chamadas big techs, que criam aplicativos que colocam as pessoas para trabalhar sob a perspectiva de um pseudoempreendedorismo que conta com uma série de armadilhas, então, tomarmos consciência dessas relações é um primeiro passo pra que a gente possa pensar no enfrentamento delas, afinal de contas, qual é a luta de todos nós? A de uma sociedade mais justa, na qual as pessoas possam possuir mais qualidade de vida e que o trabalho seja uma de suas dimensões, mas não a única, pois é preciso que tenhamos mais convivência com as nossas famílias, que tenhamos lazer e que os processos de humanização sejam um direito para todos nós, de forma igualitária”, completa a professora.

Problematizando o trabalho na atualidade
A diretora da Faculdade de Pedagogia, Profa. Dra. Alessandra Rodrigues de Almeida, diz achar bastante importante “trazer professores, mestres, doutores, com diferentes perspectivas, tanto de trabalho, quanto de pesquisa, porque amplia o processo de compreensão dos alunos e alunas, em especial quando esses temas são muito vinculados ao componente curricular ao qual elas estão estudando, como foi no caso da palestra de hoje. Além disso, há o processo de integração entre as turmas, pois aqui estiveram presentes estudantes do primeiro e do segundo período, junto ao pessoal do sétimo semestre, então, essa articulação entre eles também é algo bastante importante. Sem contar que o tema é altamente relevante, uma vez que problematiza a questão do trabalho na atualidade”.

Discutir o trabalho para bem formar os estudantes
“A Pedagogia forma para a docência. No nosso caso, para a educação infantil, para os anos iniciais do ensino fundamental e para a educação de jovens e adultos. Além disso, o pedagogo pode atuar em diferentes perspectivas, não só na escola, mas também em outras instituições, e desenvolver diferentes funções, como gestão, supervisão e direção, então, pensar sobre a questão do trabalho; a profissão; a perspectiva do clima escolar; e as relações, tanto de trabalho, como educacionais, são coisas importantes, e discutir isso tudo é papel do professor, além de ser essencial para se pensar a sua própria prática e também sobre quais alunos e alunas eles pretendem formar enquanto futuros professores”, encerra a diretora.



Daniel Bertagnoli
11 de maio de 2026