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Atividades podem contribuir para a saúde mental de idosos

Segundo pesquisas, os níveis de ansiedade na população idosa tiveram um aumento de 15,38% durante a pandemia

Camila de Paula

Um levantamento feito pelo Hospital do Servidor Público de São Paulo revelou um aumento de 15,38% nos níveis de ansiedade nos idosos durante a pandemia do novo coronavírus. O estudo foi com 180 pessoas acima de 60 anos, por telefone, que foram monitoradas de maio a outubro de 2020 por profissionais do PAI (Programa de Atenção ao Idoso). Para a psicóloga e doutora em Gerontologia pela Unicamp, Denise Stort, uma das melhores maneiras para elas combaterem a ansiedade e seus sintomas, mesmo com as limitações do distanciamento social, é a prática de atividades prazerosas.

De acordo com a psicóloga, os sintomas de ansiedade na terceira idade costumam se manifestar nas alterações do sono, mudanças de apetite, falta de ar e aperto no peito, podendo comprometer doenças pré-existentes e comuns nessa população, como a depressão. “O isolamento por si só, independente da pandemia, é um dos principais fatores de risco para a depressão e a ansiedade em idosos”, explica. Segundo ela, idosos que já tinham uma tendência a ser mais isolados, mesmo antes da pandemia, têm maior risco de ter ansiedade.

Denise Stort: “O isolamento por si só, independente da pandemia, é um dos principais fatores de risco para depressão e ansiedade em idosos” (Foto: Camila de Paula)

O levantamento feito pelo Hospital do Servidor Público Estadual apurou um aumento no número de idosos que se sentiram ansiosos durante a realização da pesquisa. Em maio, seis deles afirmaram sentir-se ansiosos, enquanto ao término do período de monitoramento, realizado em outubro, esse número cresceu para 33 casos. A comparação dos dados entre maio e outubro também apontou alta de 7,14% nas questões relacionadas ao ‘humor deprimido’, como tristeza ou perda de interesse por atividades. Já os relatos de insônia intermediária, que é quando se acorda no meio da noite, subiram 4,95%.

Fatores como a diminuição da rede de suporte familiar, da rede de contato, de atividades e cuidados médicos potencializaram o aumento dos picos de ansiedade nos idosos. Para a psicóloga, apesar da diversidade dessa faixa

etária, que muitas vezes apresenta sinais de analfabetismo educacional e digital, há várias questões que podem ser feitas para amenizar os níveis de ansiedade. “Precisamos pensar na grande heterogeneidade que essa faixa etária apresenta, ainda tem um grande número de idosos que são analfabetos, em termos de escolaridade e digital, principalmente em relação à questão educacional”, explica.

Stort afirma que o distanciamento não se iguala à ausência total de uma presença familiar na vida dos idosos. Mesmo que não fisicamente, é importante para o idoso manter as relações com familiares, como uma chamada de vídeo ou ligação. Outras maneiras de ajudar nos sintomas de ansiedade, segundo a psicóloga, é mantê-lo informado com notícias que não piorem os níveis de ansiedade e depressão, tais como eventos culturais, ações solidárias e notícias que não informem o agravamento da pandemia. Ela também recomenda a prática de atividades físicas, que é importante para a saúde física e emocional.

Além disso, atividades com fazer crochê, tricô, cozinhar, cuidar do jardim, ler, manter a espiritualidade e a religião são ocupações que podem preservar a integridade do idoso. “É importante reforçar diariamente o cuidado, a preocupação e a necessidade de práticas saudáveis, mas é também fundamental respeitar a autonomia e a independência dos idosos, principalmente daqueles que possuem lucidez”, explica.

Oficinas

Para a doutora em Gerontologia e professora da Faculdade de Fisioterapia da PUC-Campinas, Mariana Santimaria, é importante que os idosos se sintam incluídos socialmente. “Eles precisam participar e adquirir novas habilidades”, explica a docente, que é uma das responsáveis pelo projeto Vitalità – Centro de Longevidade da PUC-Campinas. Segundo ela, o sentimento de se sentir incluído e útil pode fazer com que a sensação de sofrimento causada pela ansiedade diminua entre eles.

Um dos trabalhos de inclusão realizados pelo Vitalità são as oficinas, que promovem a capacitação dos idosos em temas atuais, como também incentivam as trocas intergeracionais. “Nas oficinas, o idoso terá a oportunidade de conviver com pessoas de outras gerações e essa troca de conhecimento poderá contribuir para a diminuição do sofrimento e a diminuição dos sintomas dos transtornos mentais”, afirma.

Santimaria cita as oficinas de Longevidade Digital, Clube de Leitura e Hortas Sustentáveis, que o Vitalità oferece, como exemplos que podem ajudar no controle e diminuição da ansiedade em idosos. Segundo a professora, a oficina de Longevidade Digital aumenta a participação social e o engajamento do idoso, além de melhorar as formas de comunicação com a família. O aprendizado sobre as redes sociais para a venda de um produto ou divulgação de trabalho também é exemplo de habilidades que a oficina de longevidade digital pode oferecer.

A oficina de Hortas Sustentáveis tem como principal objetivo possibilitar ao idoso acesso a alimentos mais saudáveis, além da possibilidade de desenvolver uma atividade laboral, a partir do contato com a terra. “Isso pode ser um hobby, mas também pode atender uma necessidade de sobrevivência”, afirma a professora. “Ao plantar alimentos, pode fazer disso uma nova forma de renda com a venda do que plantou, um orçamento, além de poder se transformar em uma atividade de que possa gostar”.

A oficina do Clube de Leitura traz benefícios para a cognição. De acordo com a docente, a partir do momento em que se estimula a leitura, as habilidades cognitivas também são estimuladas. A oficina oferece encontros em que os idosos podem partilhar da experiência, sentimentos e reflexões que tiveram a partir da leitura proposta. A oficina, assim como as demais atividades do Vitalità são conduzidas por alunos voluntários de várias áreas do conhecimento da Universidade. “Eles são os responsáveis pela troca de experiências com os idosos”, explica.

Segundo a professora, o Vitalità planeja futuramente desenvolver oficinas e projetos que tratem especificamente da importância da saúde mental do idoso. “Entendemos que diante deste contexto que estamos vivendo, é fundamental que pensemos em oficinas que possam trazer benefícios para a saúde mental, principalmente para os idosos”, diz ela. “Negligenciar os sintomas de doenças mentais mais comuns na velhice é um fator que apenas irá agravar os transtornos mentais no idoso. Temos que alertar a sociedade em relação a isso e identificar os sintomas para a busca do diagnóstico precoce”. Ela acredita que dessa maneira será possível realizar tratamentos com medicamentos ou outras ações que não sejam medicamentosas.

As oficinas oferecidas pelo Vitalità são gratuitas e para participar é preciso ter mais de 60 anos e acesso a um celular próprio. As inscrições podem ser feitas clicando aqui.



Marcelo Andriotti
9 de maio de 2021