
Evento debate o papel da Psicologia no tratamento do câncer
Jornada de Psico-Oncologia reuniu estudantes, docentes e profissionais da saúde para discutir os desafios e as possibilidades de atuação da Psicologia na área oncológica
A Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas realizou, nos dias 19 e 20 de agosto, a I Jornada de Psico-Oncologia, com o tema “Cuidado Integral, Humanização e Interdisciplinaridade”. O evento, realizado no Auditório Monsenhor Salim, no Campus II, reuniu estudantes, docentes e profissionais de diferentes áreas da saúde para refletir e trocar experiências sobre a atuação psicológica diante do câncer.
A programação abordou a Psico-Oncologia em diferentes momentos do processo de adoecimento, desde o diagnóstico e o tratamento, os cuidados paliativos e o luto. Também foram discutidas as particularidades do atendimento a pacientes e familiares e a importância da integração entre Psicologia, Medicina, Enfermagem e outras áreas no cuidado em saúde.
De acordo com a Diretora da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas, Profa. Dra. Luciana Gurgel Siqueira, a Jornada surgiu da necessidade de aprofundar esse tema dentro da formação acadêmica. Para ela, a presença de profissionais de diferentes áreas e a discussão de casos reais ajudam a aproximar os estudantes da realidade.
“A proposta é favorecer esse aprofundamento e dar uma dimensão prática do trabalho. A discussão de casos e de equipes multiprofissionais mostra como a Psicologia pode trabalhar junto com outros profissionais para oferecer serviços de qualidade a pessoas que estão enfrentando uma doença como o câncer”, explicou.
Cuidado psicossocial
Para a Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO), Fabiana Marthes Caron, a discussão dessa temática dentro da Universidade é importante para ampliar a compreensão dos futuros profissionais sobre os impactos da doença para além dos aspectos físicos.
“O câncer não é algo físico, ele é multifatorial. Por isso, existe a necessidade desse cuidado psicossocial, que hoje está incluído no processo de tratamento do câncer. A Psico-Oncologia não pode ser algo acessório; ela tem que fazer parte do cuidado em oncologia”, afirmou.
Segundo Fabiana, o diagnóstico de uma doença grave repercute também sobre familiares, cuidadores e profissionais envolvidos no tratamento. Ela destaca ainda que o acompanhamento psicológico precoce pode contribuir para reduzir os impactos emocionais do adoecimento.
“Quando você oferece esse cuidado desde o início da jornada oncológica, os índices de ansiedade e depressão baixam muito. Além disso, você atua na prevenção e consegue minimizar o impacto do adoecimento não só para o paciente, mas também para todo o entorno dele”, complementou.
Formação para uma atuação interdisciplinar
A Jornada também buscou aproximar os estudantes de profissionais que atuam diretamente na área. A proposta foi apresentar aos alunos diferentes possibilidades de atuação profissional e mostrar que o cuidado oncológico ultrapassa o atendimento individual ao paciente.
Segundo a Profa. Dra. Ana Paula Bonilha, docente do Curso de Psicologia da PUC-Campinas, o envelhecimento da população e o aumento da sobrevida de pacientes com câncer tornam a área cada vez mais relevante para a formação em Psicologia.
“A Psicologia está cada vez mais se inserindo na oncologia clínica e cirúrgica. É preciso entender a doença e o tratamento a partir de uma dimensão biopsicossocial, ambiental e espiritual, atuando em conjunto com outras áreas em prol do paciente, da família e também das equipes de saúde”, explicou.
“Nossa preocupação foi olhar para todas as etapas do cuidado: diagnóstico, tratamento, pós-tratamento e cuidados paliativos. O paciente não tem só um câncer; ele tem sua história, sua individualidade, sua família, seu trabalho, sua cultura e sua subjetividade. Por isso, precisamos abranger tudo isso”, complementou a docente do Curso de Psicologia Profa. Dra. Amanda Muglia.
- Profa. Dra. Ana Paula Bonilha
- Psicologia Profa. Dra. Amanda Muglia
Luto e adoecimento
O adoecimento por câncer pode representar uma série de perdas para o paciente, que vão além das mudanças provocadas diretamente pela doença e pelo tratamento. Alterações na rotina, nas relações sociais e na autonomia podem desencadear um processo de luto que precisa ser reconhecido e acolhido pela equipe de saúde.
Essa perspectiva reforça a importância de preparar os futuros profissionais para reconhecer as diferentes experiências de perda presentes no percurso do adoecimento. Mais do que aplicar técnicas, a atuação exige capacidade de escuta e sensibilidade para compreender como cada pessoa vivencia a doença a partir de sua própria história, relações e expectativas.
Para a Profa. Dra. Maria Julia Kovács, do Instituto de Psicologia da USP, compreender essas perdas é fundamental para a atuação do psicólogo. Segundo ela, o trabalho psicológico envolve, inicialmente, reconhecer a dimensão dessa perda e o sofrimento provocado por ela. A partir dessa compreensão, o profissional pode auxiliar o paciente na construção de formas de lidar com a nova realidade.
“O luto tem o processo de lidar com a perda, mas também de como você vai se readaptar à nova situação. A questão da escuta é fundamental”, explicou.
Homenagem às pioneiras
A Jornada de Psico-Oncologia também foi marcada por uma homenagem a três profissionais que tiveram papel pioneiro na construção e no fortalecimento da área no Brasil: Dra. Nelly Nucci, Dra. Elisa Perina e Dra. Maria Júlia Kovács.
A homenagem reconheceu a trajetória dessas mulheres que contribuíram para ampliar a compreensão sobre a experiência do câncer e suas repercussões emocionais, sociais e familiares, ajudando a consolidar a Psicologia como parte fundamental do cuidado em saúde.
Ao longo de suas trajetórias, as três profissionais ajudaram a transformar essa compreensão em conhecimento, prática e formação profissional, contribuindo para que pacientes, familiares e equipes de saúde fossem considerados em sua integralidade.
Experiência que amplia perspectivas
Para a estudante do último ano do Curso de Psicologia, Maria Luísa Buso de Campos, a Jornada contribuiu para preparar os alunos para experiências que poderão encontrar nos estágios e na prática profissional.
“A gente entra na Graduação pensando que só existe a clínica, mas tem muita coisa dentro da Psicologia. A Psico-Oncologia é um diferencial e é muito rico conversar com profissionais, conhecer a atuação deles e pensar: ‘será que é isso que eu quero também?’”, disse.
- Maria Luísa Buso de Campos
- Isabela Sauer Maineri
Para Isabela Sauer Maineri, estudante do oitavo período, o evento dialogou diretamente com seu interesse pela área hospitalar. Desde o início da Graduação, ela buscou experiências extracurriculares relacionadas ao contexto hospitalar e vê nessa área uma possibilidade de atuação profissional.
“Para quem está seguindo essa área, é essencial participar dessas palestras e conhecer os profissionais. Quando você tem contato com quem atua fora da Universidade e traz essa experiência, isso acrescenta muito para a formação. Ainda não quero determinar exatamente o caminho que vou seguir, mas é uma área que tenho pensado. Ver esses profissionais falando durante a Jornada é um incentivo muito grande”, afirmou.
Galeria de fotos

















