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Trump e lições à imprensa

Por Carlos A. Zanotti

Por diversas razões, o que ocorre na imprensa dos EUA serve como referência ou parâmetro para a imprensa brasileira. Afinal, copiamos da imprensa norte-americana algumas consagradas técnicas de redação, de estruturação e de edição de notícias nos mais diversos campos do jornalismo. Importamos também a recomendação (nem sempre acolhida) de que o bom jornalismo deve manter distância prudente em relação aos interesses dos poderes político e econômico, realizando coberturas cuja intenção é relatar uma versão o mais fiel possível dos fatos que procura narrar a ouvintes, leitores e espectadores.

Não bastasse a adoção das técnicas acima descritas, também importamos dos americanos o modelo de negócios que sustenta a imprensa tradicional brasileira, incluindo a forma de financiamento das emissoras privadas e abertas de rádio e televisão. Nada tão surpreendente, uma vez que ambas as sociedades vivem sob a lógica da economia de mercado – um modelo de organização social que se tornou praticamente hegemônico no mundo contemporâneo. No caso dos jornais impressos, o modelo de negócio é sustentado por uma receita cujo financiamento da atividade decorre de faturamento obtido com a venda de assinaturas, venda em banca e publicidade. Em linhas gerais, o valor da publicidade sempre esteve associado a uma fórmula que combina volume de pessoas atingidas pelos meios e o grau de influência que estes meios exercem sobre o tecido social.

Este modelo funcionou de forma equilibrada até que a internet se transformou em uma pedra (e que pedra!) no caminho dos meios tradicionais. Para o bem e para o mal, os internautas agora recebem, a todo momento, notícias gratuitas em suas timelines. Por meio de redes sociais, que as compartilham, ou por envio direto dos próprios produtores, que as distribuem em troco de audiência, as notícias chegam praticamente sem custo algum para a imensa maioria dos internautas do mundo. E a publicidade, a rigor, já não depende tanto dos meios tradicionais para chegar aos consumidores dos produtos que anuncia. A pergunta que se coloca hoje é: como financiar a produção de notícia de qualidade dentro de um modelo de negócio em vias de extinção?

A queda de braço que o novo presidente dos EUA vem travando com a imprensa de seu país tem revelado indícios para os caminhos que a imprensa poderia seguir em uma necessária mudança de paradigma. Trump dispensa a mediação de jornalistas, preferindo dirigir-se diretamente à população por meio de sua conta no Twitter. Sobrou à imprensa americana a tarefa de repercutir seus pronunciamentos e suas pirotécnicas ações anunciadas em redes sociais. É muito pouco, ou quase nada. Afinal, quem estiver interessado em saber o que uma associação de imigrantes ou os cientistas sociais pensam a respeito dele, basta recorrer às páginas que a instituição e/ou o cientista de sua preferência costumam manter na própria rede de computadores. No mundo moderno, somos todos receptores-emissores.

Pode parecer uma contradição, mas em entrevista recente concedida a um jornal brasileiro, Alan Rusbridger, professor de Oxford e diretor do Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo, disse que a gestão Trump reacendeu o interesse das pessoas por jornalismo. Para este ex-editor-chefe do tradicional diário britânico “The Guardian”, a truculência do mandatário americano está indicando –para uma considerável parcela dos cidadãos daquele país e da comunidade internacional– que o jornalismo tem um importante papel a desempenhar enquanto ator social que mobiliza freios e contrapesos no ambiente democrático.

Pois parece que ele tem razão. Tão logo noticiou (a contragosto) a inesperada vitória de Trump, um dos mais prestigiados jornais dos EUA, o “The New York Times”, anunciou que estava reservando US$ 5 milhões de seu orçamento deste ano para cobrir a gestão do candidato que venceu Hillary Clinton, a preferida pelo jornal. Em nota publicada na primeira quinzena deste ano, os editores do NYT se justificavam: “Nossos leitores têm vindo até nós […] porque sabem que somos uma das poucas organizações de informação com poder e força moral para cobrir todos os aspectos dessa mudança histórica no poder americano”. No texto, mais à frente, eles foram mais claros ao avisar que fariam uma cobertura “de forma agressiva, justa e implacável” do novo governo.

Quinze dias depois de prometer a vigilância ferrenha da Era Trump, o jornal voltou a se manifestar publicamente para informar que o ritmo de venda de suas assinaturas digitais dobrou em relação ao mesmo período do ano anterior. Muito embora não tenha conseguido superar problemas com faturamento em publicidade e assinaturas para a edição em papel, o jornal passou a contar com 3 milhões de assinantes quando somadas as duas versões – número que vem aumentando a passos largos. Em outras palavras, o “Times” vive atualmente um período dourado em termos de força política não obstante seus problemas de caixa.

Uma das lições que podemos tirar do conflito entre Trump e a imprensa (leia-se, particularmente, o NYT) é que o cidadão, numa sociedade democrática, sabe que algumas tarefas não podem ficar exclusivamente confiadas aos poderes que compõem o tripé republicano – Legislativo, Executivo e Judiciário. E que a fase na qual a imprensa atuava enquanto um mero intercolutor a ligar os poderes constituídos e o conjunto da sociedade está com os dias contados. A evidência nos permite pensar que, depois de aprendermos muito com eles, é hora de os jornalistas americanos aprenderem uma lição que ficou no legado de um de nossos maiores escritores e jornalistas, Millôr Fernandes. Foi ele que, em um momento de radical lucidez, preconizou: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.

 

Carlos A. Zanotti é professor e pesquisador da Faculdade de Jornalismo e do programa de pós-graduação interdisciplinar em Linguagens, Mídia e Artes (Limiar), da PUC-Campinas.


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