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Poluição ao meio ambiente diminui após medidas de isolamento social

Artigo de professores da área ambiental mostra melhoria na qualidade do ar em SP; RMC, que lidera número de veículos por pessoa no Estado, deve seguir tendência

As medidas de isolamento social decretadas por autoridades estaduais e municipais para conter o avanço do novo coronavírus (covid-19), além de impedir o aumento acelerado de novos casos da doença, também têm se mostrado benéficas ao meio ambiente. Segundo artigo publicado na revista científica internacional Science of the Total Environment, a poluição atmosférica na RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) diminuiu com as restrições de deslocamento da população, devido principalmente à redução no tráfego de veículos. Só a emissão de dióxido de nitrogênio (NO2) sofreu queda de 45% em relação ao mesmo período de 2019.

O estudo, elaborado pelo Prof. Dr. Rodrigo Custódio Urban, diretor da Faculdade de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas, e pela Profa. Dra. Liane Yuri Kondo Nakada, atuante nas áreas de Saneamento e Ambiente pela UNICAMP, mostra que a RMSP exibiu, ainda, variações negativas na emissão de óxido nítrico (NO) e monóxido de carbono (CO), comportamento manifestado em países como a China e a Espanha, que também adotaram regras de distanciamento social.

Com as ordens do Governo do Estado, que culminaram no fechamento de shoppings, academias, restaurantes, escolas e universidades, cerca de 54% da população aderiu ao isolamento parcial. Até o dia 24 de março, quando as medidas foram adotadas, os dados registravam o aumento de 12% nos índices de poluição na comparação com o ano passado, indicando tendência crescente para 2020. Deste modo, conclui-se que o distanciamento foi crucial para os resultados positivos na Região Metropolitana de São Paulo.

O decréscimo na produção de agentes poluentes, embora também associado à menor atividade industrial no período, se justifica principalmente, segundo o artigo, pela redução significativa no movimento de veículos na região. Em São Paulo, o tráfego é responsável por aproximadamente 68% das emissões de NO2 e 98% de CO. Além disso, os caminhões pesados a diesel representam a principal fonte de NO, de acordo com pesquisa citada no estudo.

“As regiões industriais têm peso importante no quesito poluição ambiental. No entanto, quando os níveis ultrapassam os limites, há uma interferência imediata dos órgãos ambientais, de modo a regular essas questões.  O controle, desta forma, é mais facilitado. Já os automóveis, que são fontes móveis, causam impactos maiores pela dificuldade em conter o alto fluxo”, diz o docente ao reforçar o potencial de poluição dos veículos.

Diante do cenário de redução da poluição com o isolamento social, que indica a possibilidade de ações eficazes contra a contaminação do meio ambiente, o professor sugere reflexão social para manter parte dos benefícios ao término da pandemia. “Algumas mudanças realizadas em função do coronavírus podem ser mantidas, como o trabalho remoto em atividades que não necessitam da presença do funcionário no local de trabalho; utilização de videoconferências para reuniões etc. Essas medidas ajudariam a diminuir o fluxo de carros nas ruas e a poluição atmosférica”, acrescenta.

Região Metropolitana de Campinas (RMC)

A região de Campinas tem o maior número de veículos por pessoa entre as áreas metropolitanas do Estado de São Paulo, aponta um levantamento do Observatório PUC-Campinas. A RMC possui 0,71 veículo por habitante, superando a taxa de 0,62 registrada na RMSP. Segundo o economista Izaías de Carvalho Borges, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, cerca de 600 mil novos veículos entraram em circulação na região nos últimos 13 anos, sobretudo em razão das dificuldades enfrentadas no transporte público.

Uma das consequências desse crescimento é justamente o fator da poluição dos grandes centros urbanos. Dadas as medidas de isolamento social também adotadas nos municípios que integram a Região Metropolitana de Campinas, reduzindo a movimentação de veículos, a qualidade do ar deve sofrer impactos igualmente positivos no período de quarentena.

“Com certeza os níveis de poluição, devido ao menor fluxo de automóveis nas vias e estradas da RMC, tiveram diminuição durante as medidas restritivas ocasionadas pela pandemia. No próprio estudo da RMSP, é possível ver que as manchas de poluição se estendem até Campinas”, afirma Urban.

Impactos negativos

Apesar dos resultados satisfatórios, o professor Rodrigo Urban alerta aos impactos negativos da crise para o desenvolvimento sustentável. Para ele, é impossível dissociar a parte ambiental das questões econômicas e sociais, haja vista os reflexos desfavoráveis na saúde da população e no mercado de trabalho.

“Alguns estudos deixam a impressão de que o lockdown é uma bênção escondida dos benefícios ambientais, mas não é assim. É preciso equilíbrio para minimizar os prejuízos sociais, de maneira geral. O importante é aprender lições que nos levem a melhorar nossa atuação em prol do meio ambiente daqui para a frente”, finaliza.



Avelino Souza
30 de abril de 2020