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Os laços entre machismo e violência contra a mulher

Grupo de pesquisa ligado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Campinas investiga relação entre memes, cultura machista e violência doméstica no contexto de pandemia

*Por Patricia Mariuzzo

Um dos principais fenômenos da internet, os memes acabaram por se configurar como uma importante expressão cultural do nosso tempo, ocupando um espaço significativo nas redes sociais. O formato combina diferentes tipos de imagens – fotos de celebridades, desenhos, paisagens, caricaturas – com textos que versam sobre os mais diferentes aspectos do cotidiano, incluindo, claro, a pandemia. Uma parte significativa destes memes trata da relação entre o isolamento social e a vida conjugal. Foi esse material que compôs um corpo de estudos de um grupo de psicólogas e pesquisadoras da PUC-Campinas, cujo resultado foi publicado recentemente no artigo “Dormindo com a inimiga: imaginário machista em tempos de Covid-19”.

A professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Campinas, Tânia Maria José Aiello-Vaisberg, as doutorandas Débora Ortolan Fernandes de Oliveira e Tomíris Forner Barcelos, e Cristiane Helena Dias Simões, doutora em Psicologia pela PUC, autoras do trabalho, estão ligadas ao grupo de pesquisa “Atenção Psicológica Clínica em Instituições: Prevenção e Intervenção”, que tem financiamento do CNPq e Capes. “Em nosso grupo de pesquisa, temos estudado materiais culturais como filmes e documentários, reconhecendo-os como produções humanas que, à medida que são produzidos sem intenção de ser material de pesquisa, tendem a mostrar espontaneamente imaginários coletivos sobre diversos temas”, contaram as pesquisadoras. “Considerando que também temos investigado os sofrimentos femininos, em concordância com as ideias do feminismo materialista, os memes referentes as relações heterossexuais apresentaram-se como rico material de pesquisa”, complementaram.

A proposta do estudo foi abordar psicanaliticamente manifestações de humor sobre mulheres em relacionamentos conjugais heterossexuais em tempo de Covid-19 que vêm circulando nas redes sociais. As pesquisadoras analisaram um conjunto de 17 memes que circularam em grupos mistos de WhatsApp entre março e abril de 2020. Para elas, uma produção volumosa do material analisado expressa uma perspectiva machista, com um tipo de humor depreciativo, que acontece em um contexto ordenado por crenças segundo as quais existem sempre um grupo dotado de valor e respeito e outro inferior. “Eles expressam violência contra grupos sociais oprimidos, contribuindo para a constelação de ambientes violentos”, afirmaram as pesquisadoras no artigo. Algumas piadas, um tipo sofisticado de ofensa, concretizam e assumem preconceito para, no mesmo movimento, operarem sua negação, já que não se estariam falando sério, estratégia pela qual se pretende desqualificar eventuais reações daqueles que são insultados.

Fim de jogo – Ao longo da análise elas identificaram dois campos de sentido afetivo-emocional no conjunto de memes analisados. O primeiro, nomeado como “Game over”, surge a partir da crença de que o casamento concretiza um desejo exclusivamente feminino que traz prejuízo à qualidade de vida do homem que, ao casar-se perderia os prazeres sexuais e a liberdade da vida de solteiro. “O mundo do solteiro é fantasiado como uma espécie de paraíso onde o homem teria à sua disposição mulheres concebidas como objetos sexuais despersonalizados. Ao se casar o homem perderia acesso a este paraíso”. Ainda de acordo com as pesquisadoras, o conteúdo dos memes reforça uma ideia de casamento como uma mentira, na medida em que se extingue a disponibilidade erótica que a mulher havia acenado durante o namoro. “Assim, as esposas seriam seres que, sem motivo aparente, se furtariam a manter relações sexuais com seus maridos”, pontuaram.

O segundo campo de sentido afetivo-emocional que emergiu a partir da pesquisa foi intitulado “Dormindo com a inimiga”, que é marcado pela ideia de que a mulher casada é um ser imotivadamente autoritário e violento. Aqui, segundo as pesquisadoras, a mulher deixa de ser representada como objeto para se tornar um personagem semelhante a uma bruxa, cujo objetivo é atormentar e fazer sofrer sua vítima, o homem. Assim, a mensagem que os memes veiculam é que, por conta deste comportamento, a mulher se torna merecedora de punições.

Violência – É importante destacar que, por serem colocadas como brincadeiras, tanto as piadas, como os memes, dificultam a defesa da vítima, que poderá ser facilmente tachada como conservadora, mal-humorada, destituída de senso de humor e até mesmo pouco compreensiva. “Os conteúdos de humor, exatamente por serem piadas, e supostamente brincadeiras, dificultam que as pessoas as identifiquem como formas sofisticadas de incentivo a atitudes violentas. As piadas podem funcionar como naturalização de preconceitos, sendo que situações de humilhação, opressão e violência, ao serem colocadas como humor, ficam ainda mais difíceis de serem percebidas e, consequentemente, pensadas criticamente”, afirmam as pesquisadoras da PUC. “Em nossas pesquisas temos procurado refletir como o uso do humor contribui para a manutenção dos imaginários coletivos. Em nosso estudo com os memes sobre relacionamentos conjugais, pudemos perceber que estes conteúdos reforçam a objetificação da mulher vigente na lógica patriarcal, de forma que contribuem para a manutenção da violência contra a mulher”, alertam.

Uma das facetas sombrias da pandemia de covid- 19 é o aumento da violência doméstica. Estudos da ONU Mulheres têm relacionado o aumento de casos de violência ao maior tempo de convivência familiar devido ao isolamento social adotado no contexto da pandemia. Uma pesquisa do Instituto Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que uma em cada quatro brasileiras acima de 16 anos sofreu algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Isso representa 17 milhões de mulheres ou mulheres agredidas por minuto! De sete em cada 10 casos, o autor da violência era uma pessoa conhecida, o companheiro ou namorado, ex-companheiro ou ex-namorado. Sem desconsiderar que a violência conjugal é um fenômeno multideterminado, as pesquisadoras apontam que os imaginários coletivos que esses memes alimentam contribuem para a negação e banalização da violência. “Reconhecemos que esse imaginário machista, em que a mulher figura de modo duplo, como objeto sexual despersonalizado e como um ser maléfico que impede o homem de ter uma vida de qualidade, parece incentivar ainda mais a violência doméstica neste contexto de pandemia”, concluíram.

O artigo foi publicado na revista Pesquisas e Práticas Psicossociais (São João del-Rei, edição abril-junho 2021). O acesso é aberto é está disponível neste link.



Vinícius Purgato
2 de agosto de 2021