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Evento internacional sediado pela PUC-Campinas sobre religião reuniu 122 trabalhos

Congresso mostrou a importância dos estudos da religião e suas formas de comunicar para compreender o Brasil contemporâneo

Realizado em formato virtual, o Religiocom reuniu pesquisadores de graduação e pós-graduação, cujas pesquisas científicas são realizadas a partir da interface entre os campos da comunicação e dos estudos das religiões. O evento, que fez parte das comemorações dos 80 anos da PUC-Campinas, recupera parte dos objetivos do Eclesiocom, realizado pela Cátedra Unesco de Comunicação, cuja última edição, em 2017, foi sediada pela PUC-Campinas.

O Congresso teve 339 participantes inscritos e 122 trabalhos submetidos e aprovados. As apresentações em formato remoto foram divididas em 24 sessões. As mesas contemplaram as mais variadas vertentes religiosas e temas de discussão, como, por exemplo, a transmissão de missas e rituais de umbanda no formato on-line, a ascensão das igrejas pentecostais, festas religiosas, ensino religioso, fundamentalismos, ativismo político digital e o movimento feminista evangélico.

Para Tarcísio Torres Silva, professor do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Linguagens, Mídia e Arte (Limiar), e um dos organizadores do Religiocom, o evento foi muito positivo. “Tivemos a participação significativa de pesquisadores de todo o país, pertencentes a áreas de conhecimento das mais diversas, o que mostra o potencial interdisciplinar da proposta do evento”, afirmou. Ele destacou ainda a relevância do evento diante da forte inserção das religiões em nossa cultura. “Daí a importância dos estudos de comunicação”, disse. “O evento mostrou também que existe uma tradição importante no país com relação a esse tipo de estudo e, pelo que notamos, com uma demanda crescente e diversificada”, finalizou. As apresentações de abertura e encerramento do Reliogiocom estão disponibilizadas no canal do YouTube da PUC-Campinas.

O 1º Congresso Internacional de Comunicação e Religiões – Religiocom – contou com a conferência “Caminhos da pesquisa em comunicação e religiões: percursos trilhados e trajetos emergentes”, de Magali do Nascimento Cunha, uma das maiores referências brasileiras em estudos de comunicação e religião. Pesquisadora autônoma, ela coordena o Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). “Na modernidade iluminista e humanista, as religiões deixaram de ser reguladoras da vida coletiva, passando ao domínio do privado, do indivíduo. Na contemporaneidade, elas se mostram completamente desprivatizadas. As religiões estão em forte evidência”, afirmou a pesquisadora. Não é possível ignorar o espaço das religiões nos mais diversos espaços: desde as práticas religiosas, passando pelas mídias, pelo mercado de consumo e pela política. Elas seguem constituindo identidades múltiplas e plurais que marcam a sociedade contemporânea.

Em sua fala, a pesquisadora elencou uma série de fenômenos que marcam uma forte articulação das religiões na sociedade brasileira. Em primeiro lugar, o fortalecimento do segmento evangélico, atestado pelo crescimento expressivo da população evangélica em termos numéricos e geográficos. “Isto tem transformado o cenário do cristianismo no Brasil, provocando uma queda no número dos católicos que, ainda sim, seguem como grupo hegemônico”, disse Magali. Há também uma ampliação da presença das igrejas nas mídias tradicionais, um crescimento de um mercado da religião e intensificação do marketing religioso. “Hoje, os cristãos são um segmento do mercado”, lembrou.

Outro elemento que denota como a religião é algo incontornável na sociedade brasileira é a ocupação de espaços da política por grupos religiosos, com participação nos três poderes. A bancada evangélica do Congresso Nacional é o melhor exemplo disso. “Aqui, por um lado, podemos ver isso como um tipo de avanço dos fundamentalismos político-religiosos, ao mesmo tempo que ganha espaço na mídia o debate sobre o tema da laicidade do Estado”, ponderou Magali. Ela também lembrou a questão delicada dos casos de intolerância religiosa, especialmente relacionados com as religiões de matriz afro-brasileira. “Diante desse cenário, eu acredito que entender o Brasil contemporâneo sem estudar as regiões é equivocado”, afirmou. “Aqui, a religião vai muito além dos lugares do religioso e da religião cristã institucionalizada, ao contrário, trata-se de um fenômeno amplo, que marca profundamente as expressões culturais do país”, afirmou a pesquisadora.

Por Patricia Mariuzzo



Marcelo Andriotti
25 de junho de 2021