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Se o furo jornalístico já não é tão frequente como foi na etapa anterior à internet, o grande desafio do jornalismo de hoje é ir além das aparências

* Prof. Dr. Carlos A. Zanotti

Na era da informação jorrando livre e grátis pela internet, é cada vez menos verossímil a história que Ron Howard levou para o cinema em 1994 com Michael Keaton à frente do elenco. Não porque a comédia romântica “O jornal” (The paper) procura comparar a produção de cada edição a um trabalho de parto, já que a analogia continua sendo bem verdadeira. Mas muito em função das dificuldades que o jornalista enfrenta hoje para dar um furo noticioso neste período marcado pelas redes sociais digitais. Com elas, quem estiver plugado fica sabendo das novidades antes mesmo de o jornal chegar às bancas ou à casa dos assinantes. Mas esta não é necessariamente uma notícia ruim para os jornais ou para os jornalistas.

Quando falou aos seus jovens alunos – todos praticamente já nascidos com um smartphone acomodado nas fraldas – sobre as transformações que a internet impôs ao modo clássico de fazer jornalismo, um veterano pesquisador da imprensa brasileira lembrou que a rede fez desaparecer o intervalo de tempo que separava o acontecimento da notícia. Com a tecnologia atual, qualquer pessoa consegue relatar, fotografar, filmar e colocar na rede de computadores qualquer fato noticioso antes mesmo de um repórter chegar ao local do acontecimento para cumprir sua obrigação. A estes novos atores sociais, os estudiosos da área deram nomes como “jornalista amador”, “jornalista colaborativo”, “jornalista cidadão” e uma série de outras equivalências.

Há algo, no entanto, que diferencia drasticamente o jornalista profissional do jornalista colaborador – aquele cidadão bem intencionado que, ao passar por um acidente de carro, fotografa o veículo destroçado e faz a postagem da tragédia em seu blog ou nas redes sociais. Trata-se da etapa de produção conhecida por apuração. Se permanecêssemos no filme de Howard, o jornalista amador seria aquele que gravaria e colocaria no ar imagens do veículo com pichações racistas na lataria e os dois empresários brancos assassinados em seu interior. Vale lembrar que a cena do filme sugeria tratar-se de um crime de ódio, para o qual até já existiam dois suspeitos, jovens e negros, que passavam pelo local.

Como não tem habilidade para tanto ou compromisso com a apuração, mesmo porque este não é seu ofício, o jornalista amador se daria por satisfeito em divulgar uma imagem que correspondesse ao retrato fiel da realidade encontrada. Afinal, a existência de um carro com a lataria pichada e dois cadáveres em seus assentos é, antes de tudo, uma informação incontestável. Já que a cena existia, seria ela tão verdadeira quanto supõe o mundo de nossas percepções. Para a sorte dos acusados, no entanto, o personagem de Michael Keaton tinha sangue de repórter nas veias e Mark Zuckerberg ainda não havia concluído o ciclo básico.

Muito embora o longa-metragem exagere nas simplificações e abuse nos estereótipos, a comédia serve como pano de fundo para pensarmos qual papel caberá aos jornais em um futuro próximo, no qual a rede e seus repórteres de ocasião vão dominar nossas relações com o mundo e com as notícias acerca dele. É claro que a liberdade de inocentes nunca dependerá exclusivamente de uma imprensa zelosa em suas obrigações. Uma polícia competente e um sistema judiciário confiável teriam poupado aqueles jovens de uma condenação sem fundamento. Mas em primeiro lugar teríamos que contar com uma polícia comprometida com a justiça e, em segundo, com um judiciário acima de qualquer suspeita. Para além destas utopias, ainda restariam duas outras questões: a reputação dos jovens e as desastrosas consequências que costumam decorrer de conflitos étnicos.

Se o furo jornalístico já não é tão frequente como foi na etapa anterior à internet, o grande desafio do jornalismo de hoje é ir além das aparências. Só assim a atividade conseguirá atribuir um indispensável atestado de veracidade aos relatos que entrega aos leitores. E estes só continuarão fiéis aos jornais que leem – o que implica manter assinaturas ou comprá-los em banca – se estiverem convencidos da importância da imprensa e avaliarem como relevantes e confiáveis às informações que recebem.

Não podemos esquecer que, entre todas as mídias, o jornal impresso é o único meio que desempenha ao mesmo tempo os papéis de continente e conteúdo. No rádio, na televisão e na própria internet, jornalismo é apenas uma parcela opcional do que é levado ao público. No jornal impresso, jornalismo é a própria razão da existência do meio. E essa é a boa notícia: repórteres e editores terão que procurar, cada vez mais, ir além das aparências e dos relatos fáceis. E os jornais terão que se assegurar, cada vez mais, de que cumprem um papel indispensável para seus leitores. Neste processo, os grandes ganhadores serão o jornalismo, a democracia e o interesse público – o que não será pouca coisa.

* Carlos A. Zanotti é Professor da Faculdade de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Linguagens, Mídia e Artes (LIMIAR), da PUC-Campinas, onde é membro do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. É Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

 



Eduardo Vella
3 de agosto de 2016