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Vestibular 2021

A cidade que queremos: urbanização e pandemia

Coronavírus pode mudar a forma como planejamos nossas cidades

Dentre tantos desafios e aprendizados que a pandemia da COVID-19, provocada pelo vírus SARS-CoV-2, tem colocado para a sociedade está a necessidade de repensar o modelo de urbanização, especialmente nos grandes centros urbanos. Não é coincidência que a disseminação do vírus tem sido maior em grandes cidades, como Wuhan, na China, com população de 11 milhões de pessoas; na região da Lombardia, a mais populosa da Itália, onde fica Milão, centro urbano e financeiro daquele país; Nova York, nos Estados Unidos; e, no caso do Brasil, na cidade de São Paulo, igualmente, um dos maiores conglomerados urbanos do planeta.
“O modelo de urbanização no qual o comércio e os serviços se concentram no centro da cidade, enquanto áreas estritamente residenciais e os condomínios fechados se situam na periferia, acaba acelerando a dispersão do vírus, pois pessoas de todas as partes da cidade precisam circular diariamente pelo mesmo local, onde trabalham, estudam, vão ao médico e fazem compras”, escreveu o professor Wilson Ribeiro dos Santos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, em artigo elaborado em parceria com Sidney Piocchi Bernardini e Gabriela Celani, ambos professores do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC), da Unicamp.
Epidemias, como a da Covid-19, mostram a forte intersecção entre urbanização e doenças infecciosas. “As epidemias, os problemas sanitários e de saúde pública marcaram o aparecimento e o rápido desenvolvimento das grandes cidades europeias, no final do século XVIII e especialmente nos séculos XIX e XX”, explica Santos. Isso porque, por conta da crescente industrialização capitalista, grandes contingentes populacionais passaram a viver nas cidades, mas em um contexto insalubre, sem água limpa, sem saneamento básico e sem higiene das habitações, com esgotos a céu aberto, sem comida suficiente para alimentar a população. Essas condições propiciaram a eclosão de várias epidemias em curtos espaços de tempo com elevadíssimos números de mortes.
“O urbanismo surge neste período como disciplina científica voltada para enfrentar o desafio colocado pelo contínuo crescimento das novas metrópoles visando superar as catástrofes naturais e as crises sanitárias e epidemias que se sucediam”, afirma o professor da PUC. “Para os urbanistas, as epidemias ocorridas nos séculos XIX e XX impulsionaram a busca de novas soluções urbanísticas adequadas para o enfrentamento dos novos problemas urbanos estruturais trazidos pelo avanço da produção capitalista e sua hegemonia econômica e política na sociedade. Foram implementados, a partir da 2ª metade do século XX, importantes planos de urbanização nas principais cidades europeias e também no Brasil”, complementa.
 
Cidade policêntrica 
Assim como, no passado, epidemias impulsionaram mudanças no desenho urbano, a pandemia de covid-19 pode impulsionar novos modelos de cidade. “Grandes cidades, em geral com densidades demográficas mais altas, terão que mudar em vários aspectos. Não na perspectiva de reduzirem suas populações e sim de mudar profundamente o planejamento urbano e territorial como o que vem se observando nesta pandemia entre nós”, acredita Santos.
Repensar esse modelo implica equilibrar a densidade populacional nas cidades, ao invés de concentrar usos em determinados locais, com bairros exclusivamente residenciais, áreas comerciais, distritos industriais. Isso demanda longos deslocamentos de grandes contingentes populacionais. Uma cidade policêntrica, com múltiplas centralidades, em que o uso misto e a densidade habitacional são estimulados em todo o território, é um modelo que pode tornar mais lenta a disseminação de doenças entre indivíduos. “Isso porque há uma redução das aglomerações, porque a maioria das pessoas não precisa se descolar ao mesmo tempo para os mesmos lugares”, escreve Santos, no artigo citado acima. Ainda segundo o autor, ao reduzir a necessidade de deslocamentos longos, não apenas reduzimos a circulação dos vírus, como também fortalecemos as comunidades e as economias locais. “São também reforçadas as relações de vizinhança, algo extremamente importante ao lidarmos com situações como a que estamos vivendo atualmente, na qual as pessoas mais vulneráveis, como os idosos, podem precisar de ajuda dos vizinhos, e as entregas de produtos vindos das redondezas são mais seguras e eficientes.”
 
A boa gestão pública
O coronavírus tem uma particularidade, em comparação com outros vírus, que é a grande facilidade de contágio, agravada em centros densamente povoados. Santos destaca, no entanto, que, no mundo e no Brasil, o número de casos não segue um padrão único. Megacidades chinesas não reportaram contaminação significativa, “ou os dados não foram divulgados”, disse. Ele lembra que, atualmente, no Brasil, um dos principais polos da pandemia é o Estado do Amazonas, um dos menos populosos e adensados, à exceção da capital Manaus. “Será importante ver como ocorre o desempenho do vírus no seu roteiro de interiorização do Estado de São Paulo, em que as cidades que estão previstas como polos principais de contaminação estão em importantes entroncamentos rodoviários. Neste sentido, parece que o vírus está bem à vontade nos fluxos de deslocamentos e transportes de pessoas que caracterizam também nossas grandes cidades.”
Para o professor da Faculdade de Arquitetura da PUC, a capacidade da gestão pública, do controle e do planejamento das ações, bem como a ausência de investimentos em infraestrutura de saúde nestas cidades (que se traduz, por exemplo, na falta de respiradores e equipamentos básicos, como máscaras para os profissionais de saúde) e a dimensão da desigualdade social em cada uma delas também têm sido fatores determinantes nesse momento. Existem muitos problemas nas grandes cidades atuais, inclusive nas brasileiras, porém se a grande facilidade de contágio é uma característica especial do vírus, a orientação da OMS está correta. “A instituição do isolamento social é uma das medidas de planejamento, gestão e controle territorial mais adequadas ao que vivemos no momento. No futuro pós-pandemia, precisaremos, como já precisávamos anteriormente, discutir democraticamente com todos os setores que produzem e convivem em nossas cidades os enormes problemas derivados em grande parte da desigualdade de distribuição de renda no país para equacionarmos e caminharmos em direção à cidade que queremos”, finaliza.
Por Patricia Mariuzzo



Avelino Souza
16 de abril de 2020