
Crianças como sujeitos no jornalismo: professora da PUC-Campinas contribui para podcast premiado no Festival comKids
Experiência da professora integrou o desenvolvimento do Radinho BdF, vencedor por votação popular e reconhecido por episódio sobre a crise climática
Em coberturas jornalísticas sobre enchentes, incêndios e outros eventos relacionados à crise climática, crianças costumam aparecer nas imagens, mas nem sempre têm espaço para contar o que estão vivendo. Foi a partir desse olhar que o trabalho da Profa. Dra. Juliana Doretto, da Faculdade de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da PUC-Campinas, passou a contribuir com o Radinho BdF, podcast semanal de jornalismo infantojuvenil produzido pelo Brasil de Fato.
A atuação da professora, pesquisadora de jornalismo para crianças e cofundadora do Coletivo de Jornalismo Infantojuvenil (COLO), envolve o acompanhamento da equipe e a reflexão sobre formas de construir pautas a partir das experiências das próprias crianças. O objetivo é ampliar o espaço delas no jornalismo: não apenas como personagens das histórias, mas como fontes capazes de interpretar e falar sobre os assuntos que afetam suas vidas.
“Quando você escuta as crianças nas diferentes vivências, porque as consequências climáticas atingem as pessoas de diferentes formas, você vê outros sujeitos afetados. A sensibilidade das crianças e o modo como elas entendem o mundo são diferentes daqueles dos adultos. Então, elas contam uma outra história”, explica a professora.
O Radinho BdF foi vencedor por votação popular da categoria Podcast do Festival comKids 2026 e recebeu menção honrosa na premiação especial Direito das Infâncias – Alana. O reconhecimento veio pelo trabalho desenvolvido pelo programa e, especialmente, pelo episódio que aborda a crise climática a partir das perspectivas de crianças de diferentes territórios.
Mais do que personagens
A aproximação da professora com o Radinho BdF começou de maneira espontânea. Pesquisadora de jornalismo para crianças desde o mestrado, a Profa. Juliana conheceu o projeto por meio de uma mensagem compartilhada em uma lista da Associação de Jornalistas de Educação. Ao perceber que o programa se propunha a dialogar com o público infantil, mas ainda apresentava uma abordagem muito direcionada aos adultos responsáveis pelas crianças, entrou em contato com a equipe e se colocou à disposição para contribuir.
A partir daí, teve início um processo de acompanhamento que permanece até hoje. A atuação da pesquisadora envolve trocas com a equipe diante de dúvidas sobre abordagens, especialmente na cobertura de temas complexos, além da reflexão sobre maneiras de estruturar as pautas a partir das experiências das próprias crianças.
Uma das mudanças incorporadas ao trabalho foi a valorização das crianças como fontes jornalísticas, considerando diferentes vivências e perspectivas. Em vez de apenas aparecerem como personagens, elas passam a ser ouvidas sobre os assuntos que afetam suas vidas. “Eu tenho orientado desde o início a sempre entrevistar crianças, a trazer a visão delas sobre os temas tratados, crianças com diferentes vivências”, explica.
Para a docente, essa escuta também aproxima assuntos complexos da realidade do público infantojuvenil e reconhece as crianças como interlocutoras do jornalismo. As pautas passam a buscar conexões com seu cotidiano, tornando os temas mais compreensíveis e atraentes e reconhecendo sua capacidade de interpretar o mundo.
Um outro olhar sobre a crise climática
Essa perspectiva ganha força no episódio reconhecido pelo Festival comKids 2026. Ao tratar da crise climática, o podcast desloca o foco das imagens tradicionalmente associadas às tragédias ambientais para as pessoas que convivem com suas consequências.
Segundo a professora, a cobertura jornalística frequentemente recorre à imagem de crianças em situações de sofrimento como forma de sensibilizar o público. O problema é que, muitas vezes, essas crianças não são efetivamente ouvidas. “Poucas vezes a gente escuta aquela criança, entende a dor que ela está sentindo, entende também como ela está processando aquilo tudo e o que tem sido importante para ela nesses momentos”, observa.
Dar espaço para essas vozes permite revelar consequências que vão além do momento da tragédia. As mudanças climáticas também interferem na vida cotidiana, nas perspectivas de futuro e na maneira como crianças de diferentes regiões compreendem o mundo que estão recebendo dos adultos.
“Nas falas das crianças, muitas vezes elas não conseguem compreender por que os adultos deixaram esse mundo desse jeito para elas ao nascerem. Por que os adultos estão administrando o mundo assim?”, relata a pesquisadora.
A escuta, nesse sentido, transforma a própria narrativa jornalística. As crianças deixam de ser apenas representações da vulnerabilidade provocada pela crise climática e passam a apresentar interpretações, questionamentos e possibilidades de futuro.
Quando a prática jornalística também vira pesquisa
A experiência com o Radinho BdF também evidencia como o conhecimento produzido na Universidade pode dialogar diretamente com práticas profissionais e, a partir delas, gerar novos conhecimentos.
O acompanhamento do podcast foi objeto de pesquisa da Profa. Dra. Juliana Doretto, que analisou o processo de construção e transformação do programa e as possibilidades de uma atuação colaborativa entre pesquisa acadêmica e produção jornalística. O trabalho também discutiu mudanças nas abordagens e nas rotinas de produção do conteúdo destinado às crianças.
Esse movimento estabelece uma relação de mão dupla entre Universidade e sociedade. Ao mesmo tempo em que conhecimentos produzidos na pesquisa contribuem para qualificar uma prática profissional, a experiência concreta de uma redação e de seu público gera novos questionamentos para a universidade.
No caso do Radinho BdF, a troca também revela os desafios de produzir jornalismo para crianças em um mercado no qual esse tipo de conteúdo ainda ocupa pouco espaço. Para Juliana, o reconhecimento recebido pelo programa reforça a importância de ampliar esse campo.
“Os prêmios só mostram como a comunicação jornalística feita para as crianças é algo pouco presente no mercado jornalístico e, ao mesmo tempo, como é uma produção que consegue se diferenciar do que é feito”, afirma.
Mais do que reconhecer uma produção específica, a premiação evidencia a relevância de uma perspectiva jornalística que considera crianças e adolescentes sujeitos capazes de interpretar questões sociais, ambientais e políticas e de contribuir para o debate público.
Para a professora, ao serem ouvidas, as crianças não apenas ganham espaço no jornalismo. Elas também ajudam os adultos a enxergar questões conhecidas por outros ângulos. “Quando elas são ouvidas, elas trazem esse modo diferente de olhar o mundo, que é muito rico e nos ajuda a entender melhor o mundo que a gente”, conclui Juliana.
O Radinho BdF é um programa semanal de 30 minutos voltado às crianças e às famílias. A atração reúne brincadeiras, contação de histórias, receitas da vovó e informação para pais, responsáveis e demais cuidadores. O programa vai ao ar às quartas-feiras, às 9h, pela Rádio Brasil Atual (98,9 FM, na Grande São Paulo), e também é transmitido pela Rádio Brasil de Fato, no mesmo horário, além de estar disponível on-line. Clique neste link para ouvir os episódios.
