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Microscópio de baixo custo desenvolvido no espaço Manacás é apresentado em Portugal

Equipamento desenvolvido pelo Dr. André Maia Chagas foi apresentado no Hack Your Microscope como exemplo de tecnologia voltada à democratização da ciência; inovação já é utilizada no combate à malária na Nigéria

Um microscópio portátil de baixo custo voltado à detecção da malária, desenvolvido na PUC-Campinas pelo Especialista de Projetos Estratégicos do Manacás e professor visitante nas universidades de Sussex, no Reino Unido e de Yobe, na Nigéria, Dr. André Maia Chagas, foi apresentado no curso internacional Hack Your Microscope, promovido pela European Molecular Biology Organization (EMBO), entre os dias 20 e 25 de abril, em Oieras, Portugal.

O encontro reuniu pesquisadores, doutorandos, pós-doutorandos e especialistas de diferentes países para discutir o conceito de science without borders (em tradução livre, “ciência sem fronteiras”) e as possibilidades do hardware aberto na democratização da ciência.

O desenvolvimento

O equipamento foi desenvolvido no espaço Manacás, programa da PUC-Campinas que visa criar experiências educativas por meio do desenvolvimento de tecnologias para realização de projetos e de objetos digitais de aprendizagem.  O microscópio foi desenvolvido a partir de conceitos de hardware aberto, metodologia que disponibiliza gratuitamente projetos, instruções de montagem e listas de componentes para que qualquer pessoa ou instituição possa reproduzir, adaptar e aperfeiçoar a tecnologia. Todo o processo de desenvolvimento levou cerca de seis meses.

André explica que, enquanto microscópios automatizados com funções semelhantes podem custar cerca de US$ 100 mil, modelos abertos mais sofisticados chegam a US$ 500 em peças. Já essa versão simplificada custa menos de US$ 100. “A ideia foi manter apenas o essencial para o diagnóstico. Em vez de um equipamento caro e complexo, criamos uma solução eficiente, portátil e viável para regiões com poucos recursos”, afirmou.

Estrutura simples e montagem acessível

O microscópio utiliza peças de fácil aquisição e de baixo custo, muitas delas disponíveis em plataformas internacionais de comércio eletrônico. Entre os componentes estão: peças estruturais produzidas em impressora 3D; objetiva de microscópio; lente auxiliar; câmera USB de 12 megapixels; sistema manual de foco; parafusos e porcas; conexão com celular via cabo USB para visualização da imagem.

Com o uso de uma lâmina de vidro contendo a amostra sanguínea, o sistema permite observar a presença do parasita causador da malária diretamente na tela do telefone celular. “É importante mostrar que também produzimos ciência de ponta fora dos grandes eixos tradicionais. O Brasil tem criatividade, competência e capacidade de gerar soluções com impacto global”, afirmou.

Projeto já beneficia população da Nigéria

Durante o evento em Portugal, além de explicar como desenvolveu o microscópio de baixo custo, André  compartilhou também o caso de sucesso do equipamento que já está em uso em uma região vulnerável, com uma população estimada em 4 milhões de habitantes, no estado de Yobe, no nordeste da Nigéria.

Em janeiro deste ano, ele esteve no país para coordenar treinamentos voltados a profissionais da saúde e equipes técnicas locais. O objetivo foi ensinar desde a montagem do equipamento até sua utilização no diagnóstico clínico. Ao todo, 30 microscópios foram construídos localmente e distribuídos entre hospitais e unidades de atenção primária.

“Eu não levei aparelhos prontos. As equipes locais compraram os componentes, imprimiram as peças e fizeram a montagem. Isso gera independência tecnológica e capacidade de expansão do projeto. Nesses locais falta luz o tempo todo e agora estamos levando ciência de ponta para um lugar que ainda falta, por exemplo, água encanada na maior parte das casas”, afirmou.

Tecnologia também pode ser aplicada no Brasil

O microscópio de baixo custo pode ser replicado em diferentes regiões do mundo, inclusive no Brasil, especialmente em áreas remotas com dificuldades logísticas, como comunidades da Amazônia Legal.

Por ser digital, o equipamento também permite a criação de bancos de imagens clínicas e pode futuramente contribuir para sistemas automatizados de triagem e monitoramento epidemiológico. “O conhecimento aberto permite que uma solução criada para a Nigéria seja adaptada amanhã para a Amazônia, para comunidades rurais ou para qualquer local que precise de respostas rápidas e acessíveis”, explicou.

Sobre André Maia Chagas

André Maia Chagas é biólogo de formação com doutorado em neurociência. Atualmente, atua como Especialista de Projetos Estratégicos do Manacás da PUC-Campinas. Além disso, é professor visitante na universidade de Sussex, no Reino Unido, e na universidade Estadual de Yobe, na Nigéria.

Há cerca de 12 anos, dedica-se à criação de equipamentos “open source” de baixo custo, como microscópios e dispositivos para neurociência. Por meio de parcerias internacionais e trabalho voluntário em ONGs, como a TReND in Africa, atua na capacitação de profissionais, promovendo a autonomia tecnológica e científica em diversos países na África e Europa.



Jean Spaduzano
7 de maio de 2026