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Vencedora do “Mulher Economista 2020” realiza palestra sobre “O Dilema do Desenvolvimento Nacional e a Financeirização do Capitalismo”

A palestra da Profa. Dra. Denise Lobato Gentil, da UFRJ, fez parte da terceira edição do “Econimismo”

A Profa. Dra. Denise Lobato Gentil, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vencedora do prêmio “Mulher Economista 2020”, foi a convidada deste ano da terceira edição do evento “Econimismo”, promovido, todo mês de março, pela Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, próximo ao Dia Internacional da Mulher, com o propósito de dar visibilidade a economistas mulheres de destaque nacional e oferecer a todos os estudantes, especialmente às alunas, referências inspiradoras e modelos de trajetória profissional.

Ambas as palestras realizadas por ela ontem, dia 9 de fevereiro, nos períodos matutino e noturno, no Auditório Cardeal Agnelo Rossi, localizado no Campus I, tiveram como tema “O Dilema do Desenvolvimento Nacional e a Financeirização do Capitalismo”.

Ao longo de suas explanações, a Profa. Dra. Denise Lobato Gentil defendeu que o Brasil passa por um processo acelerado de financeirização em virtude de diversos fatores externos que determinam esse processo, dentre os quais a sua dependência e subordinação ao sistema financeiro internacional, principalmente em relação aos Estados Unidos, o que implica na adoção de políticas macroeconômicas que sejam favoráveis à elite financeira que investe no país.

Ao longo de suas explanações, a palestrante tratou, dentre outras questões, da ascensão do capital financeiro sobre o capital industrial, da desindustrialização do Brasil e de sua consolidação como exportador de commodities, do baixo crescimento médio da economia nacional nas últimas quatro décadas, da atual situação geopolítica mundial, do dólar como moeda universal, da subordinação dos países periféricos às potências político-econômicas, das violações do direito internacional ocorridas nos atuais conflitos bélicos ao redor do mundo e da transição hegemônica global em andamento.

Processo acelerado de financeirização
De acordo com a professora Denise, a sua ideia foi explicar os motivos pelos quais a economia brasileira cresce a taxas tão baixas e instáveis. “A hipótese que eu defendo é de que a gente passa por um processo acelerado de financeirização (processo de aumento da influência dos mercados, instituições e atores financeiros sobre a economia, política e sociedade, priorizando a valorização especulativa de ativos sobre o investimento produtivo), porque nós temos fatores externos que determinam esse processo, como, por exemplo, a nossa dependência e subordinação ao sistema financeiro internacional, principalmente em relação aos Estados Unidos, o que implica que nós temos que adotar políticas macroeconômicas que sejam favoráveis à elite financeira que investe em nosso país”, explica.

Ela continua dizendo que “o fluxo de capitais que entra no Brasil obtém aqui uma taxa de juros extremamente alta ou gera ganhos de capital muito elevados também e é por isso que o Brasil precisa fazer um arcabouço fiscal e um regime de metas de inflação que são favoráveis aos ganhos especulativos e completamente desfavoráveis ao desenvolvimento industrial, porque as taxas de juros altas fazem com que os investimentos em ativos financeiros sejam mais rentáveis e de menor risco do que os ativos investidos em máquinas e equipamentos e na contratação de trabalhadores para produzir serviços e produtos para a sociedade brasileira, ou seja, esse estímulo exacerbado à especulação financeira inibe o desenvolvimento da economia brasileira no setor industrial e até mesmo no setor de serviços, o que repercute em baixas taxas de investimento e, portanto, baixa incorporação de tecnologias avançadas e do progresso técnico, bem como uma reduzida diversificação das forças produtivas no Brasil. Por isso é que nós temos taxas de crescimento menores”.

Baixa qualificação e produtividade
Ainda segundo a professora, tudo isso é que faz com que “a força de trabalho no Brasil seja menos qualificada, pois a economia entra em retrocesso, não precisando de força de trabalho de alta qualificação e produtividade, porque a baixa qualificação e a baixa produtividade dessa força de trabalho são coisas atreladas à nossa estrutura produtiva que, por sua vez, é determinada por um arcabouço macroeconômico de políticas que inibem o crescimento, o investimento e a geração de empregos e renda em alto nível”.

Posições de poder e supremacia do dólar
Durante as palestras, Denise comentou ainda sobre a situação internacional atual, particularmente em relação à guerra travada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã. “Eu entendo que essa não é uma guerra regional, mas sim, mundial, que coloca os Estados Unidos e a Europa de um lado e países como a China, a Rússia, a Coreia do Norte e o próprio Irã de outro, não sendo uma simples disputa por petróleo, mas sim por posições de poder e pela supremacia do dólar no mundo como moeda universal, porque a moeda norte-americana está sofrendo uma reação muito grande dos países da periferia mundial, principalmente os dos BRICS, liderados pela China e pela Rússia, com o mercado de petróleo passando por um processo de desdolarização e com os Estados Unidos querendo manter a sua supremacia energética e a sua dominância no sistema financeiro internacional. É por isso que eles precisam que o dólar se torne mais forte e estão agora fazendo todo um movimento que os leve nessa direção, nem que para isso, às vezes, eles achem necessário invadir países, promover genocídios, bombardeios e mudanças de regime, até eles conseguirem que novas lideranças sejam somente subalternas às suas estratégias”, explica.

Durante o evento, a professora Denise realizou duas palestras, uma no período matutino e outra no noturno. Ambas aconteceram no Auditório Cardeal Agnelo Rossi, localizado no Campus I e tiveram como tema “O Dilema do Desenvolvimento Nacional e a Financeirização do Capitalismo”.

A China como grande potência
Quanto a China, a professora esclareceu que a sua ideia de se estabelecer como uma grande potência mundial precisa incluir as nações da “periferia do mundo”, pois, o país do Extremo Oriente “não conseguirá fazer isso sozinho” e é por isso mesmo que a República Popular criou uma série de instituições que agregam, não só os países asiáticos, mas também a Rússia e inúmeros países da América Latina e da África, em especial dos BRICS, que, segundo ela, “são uma instituição embrionária, mas que está sendo altamente combatida pelos Estados Unidos”.

Projeto de um império global
“Não é à toa que houve uma invasão à Venezuela, que Cuba está sendo estrangulada economicamente, que o Irã está sendo bombardeado e que a Rússia está enfrentando a Ucrânia no Leste Europeu. É um movimento internacional. Uma guerra mundial. E isso é parte do projeto de um império global que está defendendo a sua supremacia, que está sendo questionada e está abalada, pois há resistência de outros agentes”, elucida a convidada.

“O medo”, segundo a palestrante, “é que essa política que foi feita para Gaza se transforme em uma norma em relação a todos os países que resistirem aos anseios dos Estados Unidos, podendo ser completamente destruídos, seja pela via da guerra ou da economia. Dentro desse contexto, o Brasil, como tantas outras, também é uma nação que corre esse risco”.

Reação das mulheres
Sobre a importância de sua presença no “Econimismo”, em especial para as alunas do curso de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, Denise esclarece que é “muito importante que as mulheres promovam uma reação ao que está acontecendo com elas no mercado de trabalho, onde elas têm um salário que é 21% mais baixo do que o salário dos homens, não conseguem cargos de gerência e chefia e menos de 30% desses cargos são preenchidos por mulheres. Hoje, elas são a principal força de trabalho na informalidade, trabalham com uma jornada mais longa do que os homens e têm uma dupla jornada de trabalho, que acontece, tanto no local de trabalho, quanto em casa, o que implica em um desgaste pessoal gigantesco, uma vez que elas têm suas vidas profissionais frequentemente interrompidas por uma ou mais gestações ou porque têm de cuidar dos filhos, de seus parentes mais idosos e por aí vai, e isso é uma desvantagem muito grande diante dos homens”.

Denise diz ainda que “além disso, a sociedade brasileira ainda tem de se deparar com atos de feminicídio que acontecem de modo epidêmico, porque nunca se matou tantas mulheres pelo simples fato de elas serem mulheres como no ano de 2025, com uma média de quatro mortes por dia. Como é que se pode admitir tal coisa? Por isso, é tão importante a questão da luta por melhores condições de trabalho e vida, uma vez que nós temos sido rebatidas, inclusive com a morte, em relação aos poucos direitos que conquistamos. Atualmente, lutamos por uma condição primitiva, que é o direito à vida, à liberdade e por condições dignas de trabalho”.

Vários docentes da Faculdade de Ciências Econômicas prestigiaram o evento, dentre os quais (da esq. para a dir.), o Prof. Me. Roberto Brito de Carvalho; o Prof. Me. Antonio Carlos de Azevedo Lobão; o Prof. Me. Eduardo Frare, decano da Escola de Economia e Negócios (EcoN); e o Prof. Dr. Paulo Ricardo da Silva Oliveira, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas.

Necessidade de participação feminina na política
A convidada ressalta ainda que “foi importante eu ter vindo aqui (na PUC-Campinas) falar sobre economia e ver que as mulheres estão discutindo-a, que elas entendem o que está se passando e que há propostas de superação para tudo isso que está acontecendo hoje no mundo. Eu sou muito grata à PUC-Campinas por ter me chamado para poder falar com estudantes que ainda estão nascendo para o mercado de trabalho. É por isso que eu sempre busco estimular as meninas a ingressarem na vida política, nos sindicatos, porque sem essa presença política de pressão na sociedade, as leis não mudam. Nunca haverá proteção às mulheres e às vidas delas. Isso só vai acontecer com a nossa intensa participação política”.

Atraindo as mulheres para as Ciências Econômicas
Ela finaliza dizendo que para atrair as mulheres para o curso de Ciências Econômicas é precisando conversar com elas a fim de mostrar que esta “é uma profissão muito valiosa, que nos proporciona um posto de observação muito vasto sobre a sociedade. É preciso pensar em superar as dificuldades e não se deixar levar por pensamentos dados como ‘em Economia se estuda muita matemática e quem sabe de matemática são somente os homens’ e que ‘o mercado financeiro, que a Economia estuda muito, é o mercado masculino e que, portanto, as mulheres não têm acesso a isso’. A gente tem de estimulá-las mostrando que todo conhecimento é possível para ambos os gêneros e que basta que existam fatores que tornem essa ciência atraente para o público feminino, então, é preciso que conversemos mais para abrirmos novos espaços para as mulheres e abrir esse espaço de debate com as mulheres, como foi aberto aqui na PUC-Campinas, é algo decisivo como fator de atração”.

Importância do evento
Sobre a importância da realização do “Econimismo”, o diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, Prof. Dr. Paulo Ricardo da Silva Oliveira, explica que “é muito importante trazer para os estudantes do nosso curso discussões que estão muito conectadas com o atual momento que a gente tem vivido no mundo. Não há como pensar a economia sem pensar a globalização em suas três esferas: a produtiva, a financeira e a comercial, com uma discussão bastante cuidadosa sobre a globalização financeira e sobre como os fluxos financeiros entre diferentes países acaba por determinar qual é o espaço da política monetária e da política fiscal que as diferentes economias possuem, ou seja, a gente pode analisar quais são os diferentes graus de espaço para a atuação dos estados nacionais no desenvolvimento de suas próprias economias e a tese que a professora Denise nos apresentou é bastante rica, sendo também defendida por outros autores, pois coloca em evidência a necessidade de se discutir o espaço da financeirização na política econômica nacional e os impactos que ela acarreta na esfera produtiva”.

Durante as suas palestras, a vencedora do prêmio “Mulher Economista 2020” pôde contar com o Auditório Cardeal Agnelo Rossi repleto de estudantes de Ciências Econômicas, tanto do período matutino, quanto do noturno.

O diretor continua dizendo que as palestras foram necessárias no sentido de os alunos e alunas poderem entender “o impacto que a gente vai ter na geração de empregos, nos tipos de bens que a gente produz e a necessidade de se reverter a pauta de desindustrialização que nós vemos em várias economias em desenvolvimento, incluindo o Brasil, para que possamos discutir os rumos do desenvolvimento para a economia nacional. Isso foi riquíssimo e foi perceptível o interesse dos estudantes pela discussão. Foi uma aula, não só de economia, mas do que é ser economista também. Isso mexeu com os estudantes, em especial com as alunas, porque é importante dar visibilidade e gerar modelos para que elas também se inspirem na carreira que escolheram seguir. A intenção da direção da Faculdade de Ciências Econômicas é continuar trazendo palestrantes de alto nível, como a professora Denise Gentil, para discutir com os alunos e alunas e trabalhar a pluralidade do pensamento econômico, sempre em alinhamento com a qualidade do curso que a gente oferece em sala de aula também”.

Dever de abrir espaço às discussões
“A economia é diferente de muitas áreas do conhecimento por ser uma ciência social aplicada e gerar uma ampla discussão de ideias em virtude da pluralidade do pensamento econômico. Se você fizer uma pergunta a dez economistas, você obterá dez respostas diferentes e todas estarão corretas. Na área econômica, não necessariamente, uma teoria supera a outra. Elas podem coexistir sem problema algum e isso é muito rico, pois o mundo social é bastante complexo e é característico da economia que a gente tenha diferentes visões, escolas, pensamentos e, em geral, as melhores respostas são as que sobrevivem às críticas, pois ao mesmo tempo que você gera um ambiente complexo, você gera também soluções complexas que não podem ser facilmente negadas por uma ou outra escola, então, esse debate é muito rico e é parte do nosso dever abrir espaço para todas essas discussões e vertentes teóricas que circulam no debate econômico atual”, comenta Paulo.

A palestrante, Profa. Dra. Denise Lobato Gentil (ao centro), posa ao lado das professoras Dra. Fabíola Cristina Ribeiro de Oliveira e Ma. Maria Vitória Fabbio Carrocini, com quem ela dividiu a mesa diretiva do evento.

Trazendo o olhar feminino para a economia
A área econômica, conhecida por possuir um número muito maior de estudantes, docentes e profissionais homens, precisa, segundo o professor, de mais “movimentos afirmativos” desta ordem, em especial, para que o olhar feminino seja trazido para o mundo da economia. “O problema do economista é que quando ele comete um erro, esse erro afeta a vida de muita gente, pois estes profissionais, nos órgãos estatais, por exemplo, pensam a política pública e tomam decisões sobre ela. É um espaço privilegiado e, ao mesmo tempo, perigoso, no sentido de que decisões erradas afetam a vida de muita gente em uma proporção bastante grande. Por isso mesmo, trazer as mulheres para essa discussão é importantíssimo. As políticas afirmativas são essenciais para reverter boa parte da discriminação de gênero que a gente tem na sociedade”.

Paulo esclarece ainda que o mesmo movimento de se levar mulheres para a política tem de acontecer para se levar mulheres para a economia, “para pensar a economia, para desenvolver teorias econômicas que não sejam misóginas. Foi o que a professora Denise trouxe pra gente nas suas explanações”.

“Durante a última reforma da Previdência, ela, que é uma grande pesquisadora e especialista da área de política fiscal e do Estado, esteve no Congresso Nacional durante as discussões do projeto para defender as suas ideias, alegando que esta reforma foi misógina em muitos aspectos, incluindo a questão da diminuição das pensões, uma vez que o maior número de pessoas viúvas era de mulheres, e ainda bem que nós tínhamos a professora Denise por lá pra travar essa discussão e apresentar pontos como esse, pois quando a gente não conta com essa representação feminina, as políticas podem vir a ser prejudiciais às mulheres é por isso que é importante a realização de políticas afirmativas dessa ordem para trazê-las cada vez mais para a discussão, para os cursos de Economia e para posições de poder e de decisão, seja nas empresas, no governo ou no terceiro setor”, finaliza o diretor.

Sobre o “Econimismo”
Realizado todo mês de março, próximo ao Dia Internacional da Mulher, o “Econimismo” (cuja ideia é unir a economia e o feminismo) deste ano celebrou a sua terceira edição, sempre com o propósito de dar visibilidade a economistas mulheres de destaque nacional através da promoção de debates e reflexões sobre a atuação feminina na área econômica em um contexto em que esta é, tradicionalmente, composta por homens, tanto na academia, quanto no mercado de trabalho, bem como com o intuito de oferecer a todos os estudantes, especialmente às alunas, referências inspiradoras e modelos de trajetória profissional, contribuindo para o direcionamento de suas carreiras e para o fortalecimento da presença feminina no mundo da economia.



Daniel Bertagnoli
10 de março de 2026