
Professor da PUC-Campinas organiza primeira antologia da poesia do Cardeal José Tolentino Mendonça publicada no Brasil
Marcio Cappelli, professor da Universidade, selecionou e organizou cerca de 200 poemas que percorrem quatro décadas da produção literária do escritor português
A poesia do Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação da Cúria Romana, o Cardeal José Tolentino de Mendonça, um dos nomes de destaque da literatura portuguesa contemporânea, ganha sua primeira grande mostra publicada no Brasil com o lançamento de Os Enigmas Singulares – Antologia poética de José Tolentino Mendonça. A obra foi organizada pelo poeta e pesquisador Marcio Cappelli, professor da Faculdade de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-Campinas.
O livro reúne quase 200 poemas, selecionados entre os 13 livros publicados por Tolentino ao longo de aproximadamente quatro décadas. Os textos aparecem em ordem cronológica e permitem acompanhar diferentes momentos da trajetória do escritor, cuja produção estabelece diálogos com a literatura, a espiritualidade, a filosofia, as artes visuais, o cinema e a cultura contemporânea.

Capelli e Tolentino durante evento
A relação de Cappelli com a obra de Tolentino começou em 2016, quando o professor esteve em Portugal para uma etapa de sua pesquisa de doutorado sobre os romances de José Saramago, realizada sob orientação de Tolentino. Naquele período, o atual prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé era professor da Faculdade de Teologia e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, além de pároco da Capela do Rato.

Marcio Cappelli, professor da Universidade e organizador do livro
Foi nesse contato que Cappelli conheceu mais profundamente a produção poética do escritor português. A partir da leitura de A noite abre meus olhos – poesia reunida, surgiu a ideia de que aquela obra deveria chegar aos leitores brasileiros. “Imaginei que, em algum momento, dada a importância de sua obra poética, ela seria publicada no Brasil, uma vez que também seus ensaios em torno à temática da espiritualidade já podiam ser encontrados por aqui”, conta o professor.
Os anos passaram, Tolentino publicou novos livros e recebeu reconhecimento por sua produção, mas a poesia do autor ainda não havia ganhado uma edição brasileira. Foi então que Cappelli encontrou a oportunidade de transformar uma ideia que guardava havia anos em projeto editorial.
A proposta surgiu em uma conversa com Tarso de Melo, editor do Círculo de Poemas, da editora Fósforo. A partir daí, teve início o trabalho de seleção dos poemas que fariam parte da antologia.
“O desejo de trazê-la ao público-leitor brasileiro passou a crescer. Foi, então, que surgiu a oportunidade de propor uma edição brasileira que reunisse numa antologia poemas significativos da trajetória poética que já conta, por sinal, com 13 livros”, explica Cappelli.
O processo formal de leitura, releitura e seleção durou cerca de um ano, seguido por revisões editoriais. O resultado foi Os Enigmas Singulares, que também esteve relacionado à participação de Tolentino na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), a convite da curadora Rita Palmeira. A obra chegou a figurar em listas de livros mais vendidos.

Cardeal Tolentino durante a FLIP, com o poeta Edimilson de Almeida Pereira e a editora Sofia Mariutti
Uma poesia entre fronteiras
Para Cappelli, compreender a poesia de Tolentino exige reconhecer justamente a multiplicidade de referências que atravessam sua produção. A religiosidade cristã está presente, mas não como uma simples tradução de doutrinas para a literatura. Seus poemas colocam em tensão o sagrado e o profano, a fé e a dúvida, o cotidiano e o extraordinário.
Um exemplo apontado pelo professor é o poema “Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos”, que aproxima uma referência da cultura pop de um dos textos centrais da tradição bíblica.
“Pode-se notar aí uma espécie de exercício de fronteira, que, aliás, é visível na trajetória de vida do autor”, afirma Cappelli.
Tolentino foi ordenado sacerdote no mesmo ano em que publicou seu primeiro livro de poesia, Os dias contados. Ao longo de sua obra, referências religiosas convivem com nomes como Fernando Pessoa, Herberto Helder, Adília Lopes, Simone Weil e Pier Paolo Pasolini, além de elementos do cinema, do jazz e das artes visuais.
Para o professor da PUC-Campinas, essa combinação ajuda a explicar a singularidade da produção do escritor português. “É uma poesia cheia de silêncios, vazios, suspensões. É também uma espécie de exercício espiritual para a contemporaneidade. Um exercício de atenção detida à realidade”, analisa.
A construção da antologia
Embora os poemas tenham sido organizados cronologicamente, o trabalho de Cappelli não se limitou a acompanhar a evolução temporal da produção do autor. O pesquisador também buscou nos próprios poemas pistas para compreender os princípios que atravessam a obra.
Entre essas referências estão textos como “Arte poética”, “Poética” e as três “Poéticas” que integram O centro da Terra. São poemas nos quais o próprio Tolentino reflete sobre o significado da criação literária.
O trabalho resultou em uma antologia que pretende apresentar ao público brasileiro diferentes momentos da produção do poeta português sem reduzir sua poesia a uma única interpretação.
A experiência também representa, para o professor, um momento particular de sua trajetória como pesquisador e escritor, justamente pela relação construída com Tolentino desde os anos em que esteve em Portugal.
“Pessoalmente, foi um prazer realizar esse trabalho de pensar sobre essa poesia que culminou nessa antologia do Tolentino, uma pessoa que tem grande importância na minha formação como pesquisador e escritor”, afirma.
Ficha técnica:
Os enigmas singulares: antologia poética
Autor: José Tolentino Mendonça
Páginas: 296
Formato: 13,5 x 20
Organizador e posfácio: Marcio Cappelli
