
Pesquisa do PPG em Ciências da Saúde revela que composição corporal é determinante no acúmulo de compostos ligados a doenças crônicas em idosos
Pesquisa desenvolvida em parceria com Vitalità desmistifica crenças nutricionais e reforça a importância do controle de peso na terceira idade
Um recente estudo do Programa de Pós-Graduação (PPG) em Ciências da Saúde da PUC-Campinas redimensionou a crença de que o consumo frequente de alimentos fritos e grelhados é o principal responsável pelo acúmulo de compostos orgânicos associados a problemas cardiovasculares e outras doenças crônicas. A pesquisa de mestrado avaliou 72 participantes do Vitalità, Centro de Envelhecimento e Longevidade da Universidade, e demonstrou que, na população idosa, a composição corporal, em especial o Índice de Massa Corporal (IMC) e a quantidade de gordura, está mais relacionada à retenção dos chamados Produtos Finais de Glicação Avançada (AGEs) do que a própria dieta. O trabalho foi recentemente publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia.
Os AGEs são compostos que podem ser adquiridos pela alimentação, sobretudo em refeições preparadas em altas temperaturas, ou produzidos pelo próprio organismo. Se acumulados cronicamente, eles podem aumentar o risco de doenças. Os dados obtidos na pesquisa contrariaram o senso comum, pois não foi encontrada associação estatística relevante entre o consumo desses compostos e o consequente acúmulo no corpo. Em contrapartida, os níveis elevados de AGEs na pele mostraram forte relação com um maior IMC, excesso de gordura e risco elevado de obesidade sarcopênica, que é a coexistência de alto percentual de gordura corporal com baixa massa e função muscular, causando fraqueza, limitações físicas e aumento do risco de doenças metabólicas.

O rigor metodológico cruzou informações de questionários nutricionais específicos com medições do acúmulo de AGEs na pele, utilizando uma tecnologia não invasiva chamada autofluorescência cutânea. Simultaneamente, foram realizados testes de força e mobilidade, bem como avaliações da composição corporal e do risco de sarcopenia. “Existem muitos mitos nutricionais. A ideia era a de que o preparo de frituras e grelhados, que aumentam a quantidade de AGEs nos alimentos, pudesse estar diretamente relacionado ao acúmulo no organismo e ao desenvolvimento de doenças do envelhecimento”, elucidou a Profa. Dra. Alessandra Gambero, orientadora do trabalho. “O nosso estudo mostra que, independentemente daquilo que se consome na dieta, a composição corporal que o indivíduo apresenta é mais importante. Isso chama a atenção para a necessidade de manutenção de uma massa corporal adequada, por meio da prática de exercícios físicos e do controle da ingestão calórica”.
Parceria: Programa de Pós-Graduação e Vitalità
A robustez dos dados obtidos é resultado direto da sinergia entre o Stricto Sensu e a Extensão Universitária. O público-alvo da pesquisa foi formado pelos idosos que integram o Vitalità. Para os pesquisadores, essa troca garante não apenas a excelência da coleta de dados, mas o cumprimento do papel social da Universidade frente ao rápido envelhecimento demográfico brasileiro.
“Qualquer informação gerada a partir dessa interação com o Vitalità tem uma importância muito grande. Essa aproximação permite que os nossos alunos tenham um campo prático e que a gente tenha a oportunidade de popularizar os nossos resultados acadêmicos, para não os deixar trancados em gavetas ou num paper a que poucas pessoas têm acesso”, destacou a docente, reforçando que o grupo já organiza a devolutiva dos dados de forma didática aos participantes.
Para a mestranda Maria Cecilia Ferreira, autora do estudo, a imersão com o público do Vitalità transformou sua percepção sobre o fazer científico. Ela se deparou com pessoas idosas ativas, ávidas por qualidade de vida e extremamente curiosas sobre os impactos da ciência em suas rotinas. “No decorrer da pesquisa, eu me descobri pesquisadora. A cada momento da coleta, os participantes me intrigavam com perguntas. Eu dizia: ‘o que eu não sei, vou estudar e te responder’. A publicação tem que ser isso, mostrar que a ciência está sendo feita para que todos possam usufruir de uma informação geral”, relatou. A conexão de Maria Cecilia com o ambiente acadêmico vai além da pesquisa atual. Também colaboradora da PUC-Campinas, ela se autodenomina “filha da PUC” e enxerga na estrutura da Instituição o alicerce para seus próximos passos, que já incluem o planejamento de um doutorado.
Enquanto isso, a linha de pesquisa em Ciências da Vida continua em expansão. Com o equipamento de leitura de autofluorescência cutânea à disposição, a equipe liderada pela Profa. Dra. Alessandra Gambero e a equipe liderada pela Dra. Gabriela Alves Macedo, da Unicamp, planejam novas abordagens. O próximo passo é investigar como o acúmulo cronológico desses compostos se correlaciona com outras condições clínicas, abrindo o leque de estudos para novos perfis de pacientes e reforçando a vocação da Universidade para a pesquisa de impacto, indo além das bancadas dos laboratórios e contribuindo diretamente para a melhoria da saúde pública.
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