Acessibilidade  
Central de Atendimento ao Aluno Contatos oficiais Área do aluno

Observatório PUC-Campinas lidera diagnóstico pioneiro sobre Políticas para Mulheres que pode orientar o futuro das ações em Campinas

Estudo exploratório, realizado em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, revela a percepção de mulheres da cidade sobre participação política, violência e sobrecarga

Em um movimento estratégico que conecta a excelência acadêmica à formulação de políticas públicas, o Observatório PUC-Campinas, em parceria com a Faculdade de Ciências Sociais da Universidade e o Conselho Municipal de Direitos da Mulher (CMDM) de Campinas, apresentou um diagnóstico detalhado e contundente sobre a percepção das mulheres da cidade em 2025. O estudo, intitulado “Diagnóstico sobre a IV CNPM e V CMPM (2016-2025): um estudo exploratório da percepção de mulheres de Campinas-SP”, foi apresentado oficialmente na Reunião Ordinária do CMDM às vésperas da Conferência Municipal, que elegeu delegadas para a etapa estadual. O diagnóstico realizado é um bom exemplo de como a Universidade pode contribuir com o fortalecimento dos mecanismos de controle social da política pública e incentivar a produção de política pública informada por evidências.

A pesquisa representa mais um exemplo da atuação do Observatório PUC-Campinas, que vai além dos muros da Universidade para gerar conhecimento aplicado, servindo como ferramenta para a sociedade civil e o poder público. O objetivo central do estudo foi audacioso: avaliar como a percepção das mulheres de Campinas hoje se conecta, ou se distancia, dos temas debatidos na IV Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em 2016. Essa análise comparativa foi vital para o planejamento da Conferência Municipal, garantindo que debates e novas deliberações partissem de uma compreensão atualizada dos desafios e demandas.

A condução do trabalho esteve sob a responsabilidade da Prof.ª Dr.ª Stela Cristina de Godoi, pesquisadora do Observatório PUC-Campinas, docente da Faculdade de Ciências Sociais e membro atuante do CMDM. Ela liderou uma equipe dedicada, composta pelas monitoras Ananda Beatriz da Silva, Thalia Grella Gerage e Yandra da Silva, com o apoio crucial de estudantes do componente curricular “Seminário de Pesquisa e Extensão em Ciências Sociais”. Conforme relembra a Prof.ª Stela: “A proposta de estudo que apresentamos ao Conselho da Mulher surgiu de uma demanda real das conselheiras de compreender melhor esse hiato temporal de dez anos desde a última conferência nacional. Mas, para além da pesquisa, a iniciativa acabou ajudando a sensibilizar as mulheres de Campinas para a importância da participação na V Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, além de curricularizar a extensão e promover a formação cidadã de discentes”, disse.

Grupos focais: vozes de trabalhadoras

Para captar a complexidade das experiências femininas, a equipe utilizou a metodologia de grupos focais, realizando encontros virtuais entre 5 e 29 de maio de 2025. Foram ouvidas 18 mulheres de setores estratégicos: trabalhadoras da educação, sindicalistas e trabalhadoras da rede socioassistencial. Quase 400 minutos de gravações geraram um rico material de análise, revelando uma realidade complexa, onde avanços são reconhecidos, mas barreiras estruturais persistem com força.

Um dos resultados mais contundentes da pesquisa revela a percepção de que, apesar da existência de estruturas institucionais, as políticas públicas para mulheres ainda são frágeis e insuficientes. Uma participante do grupo focal da Sociedade Civil desabafou que “muitas vezes a estrutura institucional está lá para fazer uma ‘cena’ de que tem política para mulheres no município, mas não é um enfrentamento à estrutura da violência, não é um investimento em políticas de empoderamento real das mulheres periféricas”. Essa fala ecoa um sentimento de que os recursos são limitados e falta uma articulação efetiva para oferecer um suporte integral.

Essa percepção de fragilidade institucional se conecta diretamente com outro ponto nevrálgico: a sub-representação feminina no sistema político de Campinas. As participantes reconhecem que a presença de vereadoras na Câmara Municipal é crucial para que suas pautas sejam ouvidas, mas o cenário ainda é de profunda desigualdade. “Pensar na presença das mulheres no sistema político de Campinas é, antes de tudo, reconhecer que nós temos um cenário desigual”, afirmou uma das entrevistadas. A pesquisa aponta que a ocupação desses espaços de poder é vista como a principal ferramenta para a mobilização de mudanças reais.

O estudo revelou ainda um paradoxo que permeia a mobilização feminina. Ao mesmo tempo em que os movimentos sociais são vistos como essenciais para a conquista de direitos, as mulheres enfrentam enormes dificuldades para participar, principalmente devido à sobrecarga com o trabalho doméstico, o cuidado com a família e as múltiplas jornadas de trabalho.

A pesquisa, contudo, não se limita a expor problemas. Sua maior contribuição reside na sistematização desses anseios em eixos claros e propositivos. As conclusões apontam para a necessidade urgente de melhorar as estruturas institucionais, o que em parte vem sendo conquistado com a criação de uma Secretaria Municipal da Mulher, uma demanda histórica dos movimentos sociais. O estudo também recomenda fortalecer a articulação entre os programas governamentais em todos os níveis, mapear e valorizar os coletivos que atuam nos territórios, aprimorar o enfrentamento à violência em todas as suas etapas, promover o acesso à informação sobre direitos, e, crucialmente, enfrentar o problema da sobrecarga do cuidado como uma pauta central e de responsabilidade social.

Este trabalho exemplifica a missão do Observatório PUC-Campinas: atuar como uma instituição que realiza pesquisa aplicada relevante para a gestão pública e a sociedade civil organizada, traduzindo a complexidade social em dados compreensíveis e acionáveis. Ao debater com o Conselho os resultados do diagnóstico e fornecer à gestão pública um relatório técnico-científico detalhado, a Universidade transcende seu papel educacional e se consolida como um ator indispensável no desenvolvimento social e na luta por direitos em Campinas, transformando a pesquisa não apenas em um retrato do presente, mas em um mapa para a construção de um futuro mais equitativo para todas as mulheres.

 



Gabriela Ferraz
5 de novembro de 2025