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II Seminário de Sustentabilidade discute cidade sustentável e seus múltiplos adjetivos

Organizado pela PUC-Campinas em parceria com outras entidades, II Sustentare explora o tema cidade sustentável, que vai além da conservação e manutenção de recursos naturais

*Por Patricia Mariuzzo

Salvador, Rio de Janeiro, Porto Alegre. O que essas cidades têm em comum? Além de serem capitais e cidades grandes e populosas, todas estão elaborando estratégias de resiliência, conceito que tem permeado as principais discussões de planejamento urbano na última década. Resiliência é a capacidade de um sistema, comunidade ou sociedade exposta a riscos de resistir, absorver, adaptar, transformar e recuperar dos efeitos de um perigo, de forma antecipada e eficiente, incluindo a preservação e restauração de suas estruturas básicas essenciais e funções através de gestão de riscos, segundo a definição do Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNISDR). As cidades são as maiores emissoras de gases do efeito estufa e são também onde os efeitos das mudanças climáticas geram os maiores impactos. Assim, além de ser sustentável, ou seja, considerar os impactos socioambientais em sua dinâmica de desenvolvimento, uma cidade tem que ter a capacidade de suportar uma ampla gama de choques ou tensões e de retornar rapidamente à sua função normal, reduzindo as suas vulnerabilidades socioambientais e econômicas.

São diversas as ameaças e tensões que podem enfraquecer o tecido de uma cidade no dia a dia ou de uma forma cíclica. Há as ameaças naturais, como terremotos, inundações, incêndios e existem ameaças de ordem social e política, como alto desemprego, violência endêmica, escassez de alimentos ou de água. As epidemias também são uma ameaça que, segundo, os especialistas, devem ser mais frequentes nos próximos anos. “O planejamento urbano é uma importante ferramenta para o desenvolvimento de cidades mais resilientes, o que inclui criar planos de adaptação e mitigação climática”, explica o professor do Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade da PUC-Campinas, Diego Conti.

É o caso das cidades de Salvador, Porto Alegre e Rio de Janeiro que, segundo o professor Diego, têm implementado iniciativas que vão desde a readequação de áreas suscetíveis e catástrofes, até mesmo a adoção de sistemas tecnológicos para prevenção e mitigação de efeitos climáticos. “Eu acredito que, devido à pandemia de covid-19, a resiliência urbana ganhará ainda mais importância no planejamento das cidades”, disse. O planejamento urbano é o processo de gestão e de programação para um modelo de desenvolvimento das áreas urbanas, um tipo de ordenação do espaço público feito pelo poder público. O grande desafio de um processo de planejamento urbano é conciliar três tipos de interesses, em geral conflitantes: o crescimento econômico, a justiça social e a proteção do meio ambiente

Inteligentes e humanas – Superar esse desafio vai contribuir para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial o Objetivo 11 de tornar as cidades e assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. A tecnologia tem se tornado uma grande aliada para construir cidades sustentáveis e resilientes. “Estamos vendo o de uma era de cidades inteligentes ou smart cities que adotam amplamente as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) ”, explica Conti. As TICs podem ser definidas como recursos tecnológicos, que quando integrados, podem resultar no aprimoramento de processos, difusão de conhecimentos e melhoria na tomada de decisões. As cidades inteligentes são caracterizadas pelo uso generalizado de TICs e a sua aplicação em diferentes setores e áreas. “Entre os exemplos estão o controle inteligente dos semáforos nos sistemas de mobilidade urbana ou até mesmo na implantação de sensores em postes de iluminação pública para medir em tempo real a qualidade do ar, as condições atmosféricas, o nível de ruído e assim por diante. Neste contexto, devido os avanços da internet e a chegada do 5G, acredita-se que em um futuro próximo teremos bilhões de dispositivos conectados nas áreas urbanas por meio das aplicações de Internet das Coisas (IoT). Isso tudo irá revolucionar os modelos de governança e gestão das cidades, permitindo uma maior eficiência e facilitando o desenvolvimento sustentável”, descreve o professor da PUC-Campinas.

Ainda segundo ele, que uma cidade sustentável vai além da conservação e manutenção de recursos naturais, mas diz respeito à eficácia de um planejamento territorial compatível com as particularidades de cada município. “Por isso é fundamental que esse planejamento seja construído de maneira participativa e que a governança das cidades seja articulada entre diferentes atores, com a participação da sociedade civil, do governo ou de empresas”, pontuou ele em artigo publicado na Revista de Gestão Ambiental e Sustentabilidade. “As cidades são fruto da representação das manifestações humanas. Assim, a cultura, vista pela perspectiva do indivíduo e de suas atitudes e essencial para a existência de uma cidade sustentável”, escreveu.

Para ele, os indivíduos são a chave para o desenvolvimento de qualquer cidade sustentável. “Uma cidade só será sustentável se os seus cidadãos pensarem e agirem de maneira sustentável. Exemplos em todo o mundo têm mostrado que a participação local é um elemento fundamental para o desenvolvimento de cidades sustentáveis, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em países da Europa. Isso porque as cidades são reflexo da cultura e do modo como as pessoas pensam e agem. Diante disso, mais uma vez, ressalto a importância e a necessidade de implantarmos um currículo educacional voltado para a sustentabilidade e, além disso, que estimule o engajamento local para que haja uma maior colaboração para a transformação das cidades”, finaliza.

O professor Diego Conti será um dos palestrantes do Seminário de Sustentabilidade – II Sustentare PUC-Campinas – evento promovido pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Sustentabilidade (PPGS) do Centro de Economia e Administração (CEA) da PUC-Campinas. Seu objetivo é promover o encontro de pesquisadores, docentes e alunos de pós-graduação e graduação, além de profissionais e demais interessados em discutir a sustentabilidade no contexto econômico, ambiental e social. Pesquisadores das áreas de Gestão de Recursos Hídricos, Indicadores de Sustentabilidade, Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável, e Sustentabilidade em suas múltiplas dimensões, têm até 31 de outubro para submeter seus trabalhos no site do evento.



Vinícius Purgato
19 de outubro de 2020