
CEO da Azul Linhas Aéreas compartilha experiências e inspira estudantes na aula inaugural da EcoN
Em palestra, executivo compartilhou reflexões sobre gestão, cultura empresarial e os desafios de empreender no Brasil
Na aula inaugural da Escola de Economia e Negócios (EcoN) da PUC-Campinas, o CEO da Azul Linhas Aéreas, John Rodgerson, compartilhou reflexões sobre gestão, cultura empresarial e os desafios de empreender no Brasil. O evento aconteceu na quinta-feira, 19 de março, no Auditório do Campus I, reunindo estudantes, docentes e gestores acadêmicos. A mediação para o encontro foi realizada pela Profa. Dra. Ana Maria Vieira Fernandes, Diretora da Faculdade de Turismo e Coordenadora do Curso de Gastronomia da Universidade.
Em uma apresentação descontraída para estudantes e docentes dos Cursos de Turismo, Gastronomia, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Relações Internacionais e Administração, o executivo utilizou a trajetória da companhia como exemplo para discutir oportunidades, dificuldades estruturais do país e o papel das empresas no desenvolvimento econômico e social.
Logo no início, ele chamou a atenção para o fato de que muitos brasileiros conhecem destinos internacionais, mas pouco exploram o próprio país, o que, segundo ele, revela um potencial ainda não aproveitado para o turismo e para o crescimento econômico interno. “Todo mundo quer salvar a Amazônia, mas primeiro tem que ir lá e conhecer a Amazônia”, exemplificou.
O “Oceano Azul” de Campinas e a aposta na Embraer
Essa percepção foi um dos fatores que motivaram a criação da Azul, em 2008, quando o grupo decidiu investir na aviação regional ao perceber que o transporte aéreo brasileiro era excessivamente concentrado em poucos centros urbanos. Naquele momento, cerca de 90% dos voos passavam por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, enquanto diversas cidades de médio e grande porte permaneciam com pouca ou nenhuma conectividade aérea. “O Brasil é muito maior do que apenas três cidades”, afirmou.
Outro diferencial foi o apoio à indústria aeroespacial nacional: enquanto as grandes concorrentes ignoravam as aeronaves fabricadas em solo paulista, a Azul iniciou suas operações com jatos da Embraer, adaptando o tamanho das aeronaves à demanda de cada região.
Foi nesse contexto que a empresa escolheu instalar seu principal hub no Aeroporto Internacional de Viracopos, que à época possuía apenas alguns voos diários. “Quando fundamos a empresa, Viracopos tinha apenas seis voos por dia. Hoje, só a Azul tem 180 voos diários. Naquela época, só 50 milhões de pessoas viajavam por aeronave no país inteiro. Hoje já são 120 milhões”, explicou.
A decisão foi considerada arriscada, mas estratégica, pois permitiu desenvolver uma malha aérea voltada para o interior do país e para regiões pouco atendidas pelas companhias tradicionais. O executivo destacou que a aposta em Campinas simboliza a importância de identificar oportunidades onde outros enxergam limitações. Segundo ele, o crescimento da empresa ocorreu justamente por criar novos mercados, e não apenas por disputar passageiros com concorrentes. “Nós estamos em 243 mercados onde ninguém mais está. Quando você pousa em Recife, por exemplo, você pode ir para 43 destinos diferentes”, complementou.
Para a Secretária de Cultura e Turismo da Prefeitura de Campinas, Alexandra Caprioli, a instalação desse hub no Aeroporto de Viracopos transformou a realidade de Campinas.
“A cidade se tornou mais competitiva e muito mais conectada a partir do momento em que a companhia passou a operar aqui, ligando o município a inúmeros destinos no Brasil e no exterior. Quando a Azul escolhe Campinas como seu principal hub de negócios e de transporte, ela amplia significativamente as oportunidades, impulsiona o desenvolvimento econômico e cria um ambiente mais favorável para novos investimentos e para o surgimento de diferentes possibilidades de atuação profissional e empresarial”, afirmou.
Desafios
Ao abordar o ambiente de negócios, o executivo afirmou que empreender no país exige resiliência. Ele citou o alto custo do combustível, a carga tributária elevada e os investimentos necessários para manter a operação, lembrando que equipamentos essenciais na aviação custam milhões de dólares. Como exemplo, mencionou simuladores de voo e motores reservas de aeronaves de grande porte. Para ele, esses fatores explicam por que operar no Brasil é mais complexo do que em muitos outros países.
Cultura organizacional
O tema mais enfatizado ao longo da palestra foi a cultura organizacional. John Rodgerson afirmou que a empresa não se define apenas como uma companhia aérea, mas como uma empresa de pessoas.
Segundo ele, valores como segurança, integridade, consideração, paixão, inovação e excelência orientam as decisões do dia a dia e dão autonomia aos funcionários para resolver problemas sem depender exclusivamente de regras rígidas.
Para ilustrar, contou um episódio vivido antes da criação da companhia aérea, quando foi impedido de embarcar em um voo por ter chegado poucos minutos após o horário-limite, mesmo com a aeronave ainda no solo. Para ele, esse tipo de situação demonstra uma cultura baseada em normas, e não em valores, e foi justamente o que a nova empresa tentou evitar.
“Então, o que nós fizemos dentro da Azul? Criamos valores, sempre começando com segurança, consideração, integridade, paixão, inovação e excelência. Isso quer dizer que meu agente do aeroporto tem poder para ajudar o cliente. É isso que nós queremos na nossa empresa: pessoas que agem com base em valores, dar poder para a pessoa que está na ponta”, disse.
A importância dessa cultura ficou evidente durante a pandemia de covid-19, quando a aviação praticamente parou. O palestrante relatou que, naquele período, a prioridade foi cuidar das pessoas, mantendo contato direto com funcionários e reforçando o sentimento de pertencimento. Na avaliação dele, a empresa conseguiu atravessar a crise porque a confiança interna já havia sido construída antes, mostrando que cultura organizacional não se cria em momentos difíceis, mas sim ao longo do tempo. “A crise de 2020 e 2021 não foi onde nós criamos nossa cultura. Nossa cultura foi criada bem antes. A maneira como nós tratávamos uns aos outros antes da covid-19 fez a grande diferença na pandemia. A empresa se uniu e um cuidou do outro naquela época”, relembrou.
Ao final, ele reforçou que o Brasil ainda possui enorme espaço para crescimento no setor aéreo e em diversas outras áreas. Comparado à população de países como Chile e Colômbia, o brasileiro viaja menos e consome menos serviços de transporte, o que indica que o mercado está longe de atingir seu potencial. Para o palestrante, conectar melhor o território nacional significa gerar empregos, aumentar o turismo e estimular a economia.
“Imagina se o brasileiro viajasse tanto como o chileno: como seria o Nordeste deste país? Quantos mais empregos teríamos, quanto mais PIB nós teríamos? Esta é a oportunidade”, finalizou.
Integração entre teoria e prática
Para o Prof. Me. Eduardo Frare, Decano da Escola de Economia e Negócios (EcoN) da PUC-Campinas, a presença do CEO da Azul simboliza a conexão permanente com o mundo do trabalho.
“Esse contato direto com lideranças empresariais amplia o processo de ensino-aprendizagem, porque aproxima a teoria da prática e permite que o aluno visualize, de forma concreta, as possibilidades de carreira. Além disso, tem um papel inspirador, pois mostra a dimensão das oportunidades que existem em áreas como turismo, serviços e negócios. Promover esse diálogo com diferentes atores do mercado é fundamental para a formação integral dos estudantes e estratégico para o posicionamento da Escola no cenário profissional”, destacou.





