
PUC-Campinas aproxima estudantes de Ciências Econômicas de empreendedores populares
Iniciativa de curricularização da extensão, em parceria com a Fundação FEAC, permitiu que estudantes analisassem a viabilidade de negócios e assessorassem empreendedores para acesso ao crédito
A PUC-Campinas realizou, na quarta-feira (13), uma celebração para marcar a assinatura dos contratos de microcrédito para empreendedores populares assessorados por estudantes da Faculdade de Ciências Econômicas em parceria com o Empreende Campinas e a Fundação FEAC. A iniciativa integra a curricularização da extensão e colocou os alunos em contato direto com empreendedores durante o semestre letivo.
A partir desse acompanhamento, os estudantes analisaram a situação financeira dos negócios, avaliaram sua viabilidade e produziram recomendações técnicas que contribuíram para a decisão sobre a concessão do microcrédito. A ação envolveu também estudantes e professores de Administração e Publicidade e Propaganda, em um trabalho multidisciplinar de apoio aos empreendedores.
- Grupos confraternizaram após a assinatura
Jornada do projeto
Essa atividade da curricularização teve início em 2024, com a Faculdade de Administração, que passou a trabalhar a gestão dos negócios acompanhados pelo programa.
Em 2025, a iniciativa ganhou uma nova frente, com uma atividade pontual envolvendo estudantes de Publicidade e Propaganda. Já em 2026, no primeiro semestre, houve a continuidade do trabalho com a Administração e a incorporação da Faculdade de Ciências Econômicas, cuja participação resultou na assinatura dos contratos de microcrédito.
Assim, o processo fez com que uma iniciativa inicialmente pontual fosse ganhando novas frentes e maior estrutura dentro da Universidade. A partir do segundo semestre de 2026, a parceria entre a PUC-Campinas e a Fundação FEAC deverá avançar para um projeto de extensão estruturado, com a participação de dois professores extensionistas: a Profa. Dra. Eliane Navarro Rosandiski (da Escola de Economia e Negócios) e o Prof. Me. Sérgio de Godoy Peres (da Faculdade de Publicidade e Propaganda).
- Coffee foi produzido por empreendedora do projeto
Importância para a Universidade
O Prof. Me. Eduardo Frare, decano da Escola de Economia e Negócios (EcoN) da PUC-Campinas, ressaltou a construção coletiva da iniciativa e a importância da presença dos estudantes e professores junto aos empreendedores.
“É um projeto construído a muitas mãos, muitas mentes e muitos corações. O testemunho de vocês é o mais valioso nesse momento. A presença dos alunos, do corpo docente, é uma demonstração da potência que é quando a gente tem um verdadeiro propósito comum”, afirmou.
Frare também destacou o desafio de construir uma extensão universitária com maior profundidade e continuidade. “É chegar a uma extensão qualificada, com densidade, que não é só uma entrada e saída. É uma coisa que tem continuidade”, disse.
- Professor Eduardo Frare, decano da EcoN
- Professor Paulo Ricardo da Silva Oliveira, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas
Para o Prof. Dr. Paulo Ricardo da Silva Oliveira, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, a iniciativa representa um avanço na maneira como o curso se relaciona com a comunidade e coloca em prática uma concepção de extensão baseada na troca de conhecimentos.
“Finalmente conseguimos avançar numa extensão que faça sentido para o economista. Foi um processo de aprendizagem, não foi do dia para a noite que entendemos como a Faculdade de Economia poderia atuar de forma mais direta com a comunidade e com os empreendedores populares”, afirmou.
“Isso é uma via de mão dupla de aprendizagem, que está muito alinhada com a visão da extensão da Universidade. Não só os nossos alunos levam conhecimentos técnicos que eventualmente aprenderam na sala de aula, mas eles também aprendem muito com essas empreendedoras”, destacou o docente.
A atividade também foi realizada no Dia do Economista, celebrado em 13 de agosto, o que, para o diretor, conferiu um significado especial à iniciativa.
- Empreendedoras assinam contrato
Conhecimento e crédito caminham juntos
O trabalho faz parte de uma jornada de inclusão produtiva desenvolvida pelo Empreende Campinas. A diretora da Fundação FEAC, Lina Pimentel, destacou que o programa busca apoiar empreendedores periféricos em diferentes etapas, desde a identificação das oportunidades até o acesso ao capital.
“É um projeto maravilhoso, que tem o objetivo de apoiar mais de 3 mil empreendedores periféricos, com jornadas completas, desde o momento da seleção até chegar ao microcrédito, ao capital semente e até a gente ver o empreendimento idealizado saindo de pé”, afirmou.
A proposta parte do princípio de que o acesso ao recurso financeiro precisa estar acompanhado de conhecimento para a gestão do negócio.
- Professora Rosane Maria Soligo de Mello Ayres, diretora da Faculdade de Administração
- Eliane Navarro Rosandiski, que está à frente da iniciativa
“Quando pensamos na vulnerabilidade, tem dois pontos: a ausência do recurso financeiro e a ausência do conhecimento. As duas coisas têm que caminhar juntas”, explicou a Profa. Dra. Eliane Navarro Rosandiski, que está à frente da iniciativa pela Universidade.
O Empreende Campinas oferece capital semente, na forma de doação, e também microcrédito, que precisa ser devolvido. Por isso, antes da liberação do recurso, é necessário avaliar a capacidade de o empreendimento gerar receita suficiente para honrar o compromisso.
Foi justamente nessa etapa que os estudantes de Economia atuaram de maneira mais direta. Eles acompanharam os empreendedores, analisaram contas, verificaram a viabilidade dos negócios e produziram relatórios técnicos que subsidiaram a avaliação para concessão do crédito.
“Devemos ter uma responsabilidade na hora de conceder o crédito. O empreendedor vai ter uma despesa durante um ano e meio e o negócio tem que ser viável para pagar”, explicou Eliane.
- FEAC esteve presente, assim como os demais parceiros do projeto
Três áreas, diferentes olhares
A parceria reúne estudantes de Administração, Economia e Publicidade e Propaganda. Cada área atua em uma dimensão do empreendimento.

Leonardo Baum, coordenador do Empreende Campinas
“A Publicidade e Propaganda olha para o marketing digital delas, a Administração olha para as ferramentas de gestão e o pessoal de Economia começa a olhar para viabilidade, produtividade e o uso dos recursos financeiros de forma assistida”, explicou Leonardo Baum, coordenador do Empreende Campinas.
O programa trabalha com três trilhas — semente, incubação e aceleração — e oferece capacitações relacionadas a empreendedorismo, gestão, custos e precificação. Na etapa de incubação, as empreendedoras elaboram plano de negócios e fluxo de caixa e apresentam seus empreendimentos para análise.
Segundo Leonardo, a metodologia procura colocar a empreendedora no centro do processo. “A nossa metodologia parte muito de olhar para essa empreendedora como centro. Todas as nossas capacitações são voltadas para responder às perguntas que elas costumam ter”, afirmou.
Entre essas perguntas estão a viabilidade do negócio, os custos envolvidos, a formação do preço dos produtos e as medidas necessárias para tornar o empreendimento mais sustentável.
A realidade dentro da sala de aula
Para os estudantes, o projeto representa uma oportunidade de transformar conceitos aprendidos na graduação em soluções para situações concretas.
Cauã Henrique Cadorim, aluno do último semestre de Ciências Econômicas, participou do acompanhamento de Tereza Neuma Borges de Souza, proprietária de uma empresa que produz roupas íntimas, empreendimento que funciona em sua residência, no Parque Cidade, em Campinas. “A experiência foi maravilhosa. Eu falo que a gente aprendeu mais com a Tereza do que a Tereza com a gente”, afirmou.
Segundo Cauã, o principal desafio foi compreender que os conceitos apresentados pela teoria precisam ser adaptados à realidade de cada empreendimento. “Tem seus desafios. Nada é tão simples como a teoria diz. Então, acho que isso foi muito legal, essa construção que a gente veio tendo ao longo desse período”, explicou.
- A empreendedora Tereza Neuma Borges de Souza e o aluno Cauã Henrique Cadorim
- Alunas Lara Leite Chaves, Sarah de Melo Pereira e Laísa Tola Mossato
A estudante Laísa Tola Mossato, também de Ciências Econômicas, ao lado de outros alunos, assessorou a proprietária de uma loja de perfumaria que também comercializa peças de moda feminina.
“Foi um processo muito enriquecedor para o nosso conhecimento, ver a Economia e o que a gente aprende do mercado de trabalho, do mercado do empreendedorismo, na vida real, numa realidade muito diferente do que a gente está acostumado na Universidade”, contou.
Para Laísa, a experiência permitiu trabalhar com informações concretas e acompanhar o resultado da assessoria. “A gente conseguiu aprender muito com ela, colocar na prática, ver números reais e conseguir ajudá-la, trazer melhorias para ela. Foi muito legal ver ela conseguindo esse microcrédito”, afirmou.
Empreendedoras relatam mudanças na gestão
Entre as participantes está Tereza Neuma Borges de Souza, proprietária de empresa que trabalha com roupas íntimas e pijamas. Para ela, o acompanhamento dos estudantes trouxe mudanças significativas para a administração do negócio. “Foi maravilhoso. Só gratidão. Melhorou bastante o meu empreendimento em todos os sentidos”, afirmou.
Um dos principais aprendizados foi passar a registrar de forma sistemática todas as movimentações financeiras. “Anotar tudo o que sai, tudo o que entra, a nível de gasto, entrada e saída, para ter um controle total. Isso fez ganhar mais, perder menos, lucrar mais”, relatou.
Outra empreendedora, Márcia Maria Campos Braga, trabalha com a produção de buffet de cafés, bolos, doces finos e eventos de casamento. Ela destaca o aprendizado em áreas como precificação, compra de insumos, depreciação de equipamentos e fluxo de caixa.
- A empreendedora, Márcia Maria Campos Braga
- Francisca Bernardo Gomes, proprietária do negócio especializado em salgados e pastéis
“Foi de grande aprendizado. Eu já trabalho com confeitaria há algum tempo, mas a gente sempre aprende algo novo, que se agrega ao conhecimento que a gente já tem”, contou.
Para Márcia, a experiência também mudou a forma como enxerga o próprio negócio. “Eu acho que abre a mente da gente. Você também aprende a valorizar o seu próprio negócio, seja ele pequeno, médio ou grande”, afirmou.
Francisca Bernardo Gomes, proprietária do negócio especializado em salgados e pastéis, também passou por mudanças na gestão. Com a orientação dos estudantes, reduziu o cardápio de 12 para cinco tipos de recheio para otimizar a produção e os lucros. “Eu vi que eu não precisava de tudo isso. Então eu diminuí. Hoje eu trabalho só com cinco tipos de recheio de pastel”, explicou.
Ela também passou a utilizar o Canvas para organizar o negócio e adotou uma estratégia para administrar o aluguel do estabelecimento. “Eu dividi o aluguel em 30 dias. Todo dia eu guardo um pouquinho. Quando chega no final do mês, eu não sinto, porque eu guardei todo dia um pouquinho”, relatou.
Extensão com continuidade
O projeto não termina com a assinatura dos contratos. Como está inserido na curricularização da extensão, o acompanhamento poderá ser continuado por novas turmas, utilizando o histórico e as recomendações construídas pelos estudantes.
De acordo com a professora Eliane, a intensidade da mentoria varia de acordo com as necessidades de cada empreendedor. Alguns precisam de acompanhamento mais frequente para organizar as contas e incorporar novos padrões de gestão; outros conseguem aplicar as orientações com maior rapidez. “Eu começo o acompanhamento, mas tenho todo o histórico dela. A outra turma pega de onde parou e faz uma continuidade. Então, a empreendedora não vai ficar desassistida”, explicou.
A continuidade transforma a atividade em um processo de acompanhamento e desenvolvimento dos negócios, e não apenas em uma ação pontual de capacitação.
- Alunos também participaram
Um ciclo de aprendizagem
Para o diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, o resultado da iniciativa demonstra a importância da curricularização da extensão na formação dos estudantes e na relação da Universidade com a sociedade.
“É fantástico, da perspectiva da educação e da necessidade e importância da curricularização da extensão. O que eu vi aqui hoje, o que a gente conseguiu fazer com os alunos, me deixou bastante feliz”, afirmou.























