
Aula Magna da PUC-Campinas aproxima estudantes de Moda da trajetória da estilista Renata Buzzo
Encontro promovido em parceria com o Curso de Design de Moda e o movimento Sou de Algodão destacou a moda como linguagem artística e cultural e abordou temas como sustentabilidade, inovação e criação autoral
A PUC-Campinas promoveu, nesta terça-feira (11), a Aula Magna “Sou de Algodão apresenta: Renata Buzzo”, no Auditório Cardeal Agnelo Rossi. Promovido pelo movimento Sou de Algodão, iniciativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), em parceria com o Curso de Design de Moda da Universidade, o encontro reuniu estudantes, professores, egressos e integrantes da comunidade externa para uma conversa sobre criação autoral, sustentabilidade, pesquisa e os caminhos da moda contemporânea.
A atividade teve início com a abertura da coordenadora do Curso de Design de Moda, Profa. Roseana Sathler Portes Pereira, que destacou a importância da aproximação entre universidade e mercado para a formação dos estudantes.
“Essa vivência com os estilistas soma muito para a formação dos alunos. Muitas vezes eles têm perspectivas de que a sala de aula não dá conta de fato. Então, ter esse contato com esses grandes nomes da moda faz toda a diferença na formação dos alunos”, afirma.
Moda, cadeia produtiva e formação profissional
Representante do Sou de Algodão e da Abrapa, Manami Kawaguchi apresentou o movimento e ressaltou a importância de aproximar os estudantes dos diferentes agentes da cadeia da moda, que envolve desde a produção agrícola até a indústria têxtil, as marcas e a criação.
“A ideia nessas vivências é unir diferentes agentes da cadeia para falar com os estudantes e fazer essa troca de informações para que esses alunos saiam da faculdade mais preparados para o mercado de trabalho”, avalia.
A iniciativa também promove reflexões sobre sustentabilidade, rastreabilidade e consumo responsável. Para Manami, compartilhar trajetórias profissionais é uma forma de inspirar os estudantes e apresentar diferentes possibilidades de carreira.
“Trazer estilistas como a Renata Buzzo, falando um pouquinho sobre sua trajetória e como foi construída a carreira, pode inspirar esses estudantes a seguirem os mesmos passos ou até conseguirem pensar em atalhos para alcançar seus objetivos profissionais”.
Pesquisa, criação e trajetória profissional
Convidada para compartilhar sua experiência, Renata Buzzo apresentou aspectos de sua trajetória e de seu processo criativo, destacando a importância da pesquisa, da experimentação e também dos desafios que fazem parte da construção profissional.
Formada em Design de Moda pela Faculdade Santa Marcelina, com pós-graduação em Styling e Imagem de Moda, Renata apresentou coleções na Casa de Criadores entre 2016 e 2019. Em 2019, foi a única brasileira selecionada para o programa The Next Green Talent, da Vogue Itália. Entre 2020 e 2024, integrou o calendário da São Paulo Fashion Week e apresentou sua pesquisa internacionalmente no Brasil Fashion Forum Miami.
Ao falar sobre sua carreira, a estilista defendeu a importância de compartilhar não apenas as conquistas, mas também os obstáculos. “Geralmente as pessoas vêm com material de autopromoção e não dividem realmente a trajetória e o caminho. Dividem os louros, mas não dividem os tombos”, afirma.
Para Renata, erros e escolhas equivocadas também são parte da formação profissional. “O processo é feito também do que dá errado, do que te atravessa emocionalmente. Ele é feito de escolhas equivocadas. É assim que se constrói”.
A franqueza da estilista chamou a atenção de Maria Eduarda Moraes, aluna do segundo semestre de Moda. Para a estudante, conhecer também as dificuldades enfrentadas por Renata, especialmente como mulher em um setor ainda marcado por desigualdades, tornou sua trajetória ainda mais inspiradora.
“Eu gostei que ela foi muito sincera, muito verdadeira quanto às dificuldades, situações que ela passou sendo uma mulher num mundo muito machista. Ela deixou claros os perrengues, as coisas ruins, as coisas boas, e isso dá uma inspiração muito grande”, diz a estudante.
Para Maria Eduarda, ouvir sobre os diferentes momentos da carreira aproximou a realidade profissional da experiência de quem está iniciando a formação.
Uma trajetória que inspira novos caminhos
A experiência também teve impacto entre estudantes que vivem momentos de transformação profissional. Darleiane Rocha, de 39 anos, aluna do quarto semestre de Moda e fotógrafa há cerca de 17 anos, está em transição de carreira e se identificou com a trajetória da estilista, que tem a mesma idade.
“Agora, com 39 anos, eu tive de fato coragem de começar, de me ingressar nessa área. Ouvir uma mulher que tem a mesma idade que eu contando todas as dificuldades de estar nesse mundo e também o prazer de fazer o que se acredita me deu mais força e mais empoderamento”, revela.
Darleiane pretende integrar a experiência acumulada na fotografia à formação em Moda, unindo a criatividade das duas áreas. A fala da estilista sobre as transformações profissionais também dialogou diretamente com esse momento de sua trajetória.
“Às vezes a gente está num trabalho que gosta, depois isso muda. É uma coisa meio natural da vida. Eu estou nessa transição de carreira, mas acredito que não vou deixar 100% a fotografia. Acho que vou unir a criatividade que as duas áreas podem me dar”.
Reconhecimento internacional e novas linguagens
A trajetória de Renata também inclui reconhecimento internacional. Seu trabalho foi selecionado pelo curador Andrew Bolton para integrar a exposição “Costume Art”, do Metropolitan Museum of Art (MET), em Nova York. Uma de suas criações, Corset Anatomia, integra a mostra e foi adquirida pelo museu para seu acervo.
Atualmente, a estilista cursa pós-graduação em Gestão da Indústria Cinematográfica pela FAAP, aprofundando pesquisas sobre as relações entre moda, narrativa, imagem e audiovisual. Em sua produção recente, desenvolve desfiles autorais independentes que articulam texto, imagem, espaço e corpo.
Para a estilista, compartilhar esse processo criativo com os alunos de Moda é parte importante dessa construção. Ela defende que uma ideia nunca será reproduzida de maneira idêntica quando passa pela experiência de outra pessoa, porque cada indivíduo imprime sua própria vivência ao trabalho.
“Eu acho que processo criativo tem que ser compartilhado, porque nunca vai ficar igual. É impossível você não se colocar em um trabalho autoral”, opina.
Formação para além da sala de aula
Ao aproximar os estudantes de uma profissional com atuação nacional e reconhecimento internacional, a Aula Magna reforçou a importância do contato com diferentes trajetórias para a formação em Design de Moda. A atividade evidenciou a moda como campo de criação, pesquisa e expressão cultural, conectado a questões contemporâneas como sustentabilidade, inovação, responsabilidade na cadeia produtiva e novas formas de produção autoral.
Para a Profa. Roseana Sathler Portes Pereira, coordenadora do Curso de Design de Moda, esse contato também permite aproximar as práticas desenvolvidas na Universidade das demandas do mercado.
“A gente fica muito satisfeito de ver que os métodos que a gente usa dentro dos nossos processos criativos em sala de aula são também usados pelos estilistas. Isso endossa muito das nossas práticas e faz com que o aluno comece a valorizar ainda mais essas etapas que a gente adota”, afirma a docente.






