
Curso de Design de Moda promove série de oficinas com o intuito de minimizar impactos ambientais e sociais
Upcycling, bordado à mão livre e o desenvolvimento de pôsteres digitais no Photoshop foram algumas das atividades desenvolvidas durante o Fashion Revolution
O Curso de Design de Moda promoveu, nos últimos dias 22 e 23 de abril, o Fashion Revolution. Realizado em diversos lugares do Campus I, os estudantes puderam participar de inúmeras oficinas oferecidas por alunos e convidados sobre os mais diferentes assuntos, dentre os quais, “Upcycling”, “Conserto e Customização de Roupas”, “Bordado à Mão Livre”, “Pôsteres Digitais no Photoshop”, “Miçangas, Acessórios e Bordados”, “Bordado Sashiko” e “Impressão 3D para Moda”. O objetivo do evento foi tratar dos impactos ambientais e sociais existentes no mundo da moda e sobre como minimizá-los.
Todas as atividades desenvolvidas estiveram em consonância com o movimento global de mesmo nome, que se encontra no Brasil desde 2014, e realiza inúmeros projetos e ações com o intuito de fomentar a união de uma rede de pessoas, iniciativas e organizações do setor da moda. Neste ano, o tema da ação foi “Fortalecer Ecossistemas da Moda”.
Atuando por meio da comunicação, educação, colaboração e mobilização, a entidade luta para acelerar a transição da moda brasileira rumo à justiça social e climática, com o objetivo de ser uma força para o bem, promovendo maior transparência, sustentabilidade e responsabilidade na cadeia produtiva do setor, incentivando reflexões sobre quem faz as nossas roupas, em quais condições e com quais impactos sociais e ambientais.

De acordo com a coordenadora do Curso de Design de Moda, Profa. Ma. Roseana Sathler Portes Pereira, “neste ano, optamos por desenvolver atividades que valorizassem a manualidade, entendida como uma habilidade frequentemente invisibilizada pela lógica industrial, mas que carrega expressões culturais importantes”.
Valorizando a manualidade
De acordo com a coordenadora do Curso de Design de Moda, Profa. Ma. Roseana Sathler Portes Pereira, “neste ano, optamos por desenvolver atividades que valorizassem a manualidade, entendida como uma habilidade frequentemente invisibilizada pela lógica industrial, mas que carrega expressões culturais importantes. Também tivemos oficinas voltadas à prototipagem digital, explorando ferramentas que contribuem para a redução de desperdícios no desenvolvimento de produtos de moda”.
Ela ressalta também que, “além disso, em ambos os dias, contamos com uma trocadoria, que nada mais é do que um espaço organizado como uma loja para a troca de roupas, no qual as peças são disponibilizadas para a circulação entre os participantes, estimulando práticas de moda circular, prolongamento do ciclo de vida dos produtos e consumo mais consciente”.
Minimizando os impactos causados pela moda
Sobre a importância de se trazer este projeto para a PUC-Campinas, Roseana comenta que esta reside, em especial, não só na formação dos designers, mas também em se aprofundar nas pautas propostas, na agenda que o movimento propõe, “em se pensar em novos jeitos de se fazer aquilo que a gente já faz, mas mais alinhados às práticas de minimização dos impactos ambientais e sociais da moda e o peso disso para o estudante é enorme, pois pensar na sustentabilidade é um dos grandes eixos do nosso curso. É uma marca formativa dele. Para nós, é muito importante garantir que esse tipo de assunto permeie a formação dos alunos”.

Para a Profa. Ma. Tauane Spanhol de Aguirre, uma das coordenadoras do evento, ver os alunos e alunas também ministrando oficinas “é muito legal, em especial, porque eles, muitas vezes, possuem um conhecimento prévio à faculdade e passar isso adiante é muito bom pra eles mesmos, fazendo com que eles prossigam no curso e sigam o caminho profissional de um designer de moda”.
“A questão da inclusão, das pautas sociais e ambientais na indústria da moda é algo que tem de estar sempre sendo discutido, pois isso faz uma diferença muito grande para o futuro profissional do ramo e a possibilidade de os estudantes poderem refletir sobre isso enquanto desenvolvem as suas habilidades é algo essencial. O mais importante é que o aluno de Design de Moda da PUC-Campinas possa passar por esse tipo de vivência e ter consciência de sua atuação no mercado, de modo responsável”, ressalta a coordenadora.
Transmitindo o conhecimento
Para a Profa. Ma. Tauane Spanhol de Aguirre, uma das coordenadoras do evento, ver os alunos e alunas também ministrando oficinas “é muito legal, em especial, porque eles, muitas vezes, possuem um conhecimento prévio à faculdade e passar isso adiante é muito bom pra eles mesmos, fazendo com que eles prossigam no curso e sigam o caminho profissional de um designer de moda. Além disso, existe a questão da integração entre os estudantes e a troca de conhecimento entre eles. Essa troca de saberes, sem dúvida nenhuma, é o mais importante”.
Sobre a questão da sustentabilidade, abordada pelo Fashion Revolution, Tauane comenta que o tema é extremamente importante na área da moda, “porque é um setor conhecido mundialmente como um dos mais poluidores do meio ambiente, então, trazer esse debate pra dentro do nosso curso faz com que formemos profissionais direcionados a trabalhar com inúmeras maneiras de mitigar possíveis impactos causados por este e é essencial eles estarem sendo formados com essa nova visão de mundo, mais sustentável, e procurando saber sobre como eles podem contribuir pra modificar a situação atual”.

Lívia Giovanoni, Júlia Maciel dos Santos e Ana Clara de Pádua (da esq. para a dir.) ministraram a oficina “Miçangas, Acessórios e Bordados”. As três cursam, na atualidade, o terceiro período do curso de Design de Moda.
Miçangas, acessórios e bordados
Lívia Giovanoni, Júlia Maciel dos Santos e Ana Clara de Pádua ministraram a oficina “Miçangas, Acessórios e Bordados”. As três, que cursam, na atualidade, o terceiro período do curso de Design de Moda, pensaram, segundo Lívia, em desenvolver uma oficina que gerasse “um momento bem gostoso em que as participantes pudessem sentar em grupo com as amigas do próprio curso, conversar e bordar com miçangas e afins”.
Ela continua dizendo que “dentro do curso, nós trabalhamos com costura à mão, então, nós sabíamos que as alunas todas teriam uma noção básica daquilo que seria necessário fazer e acrescentamos as miçangas para sairmos daquilo que a grade curricular nos oferece e deixamos as alunas muito livres para que fizessem o que quisessem, como achassem melhor. Nós trouxemos algodão cru pra que elas pudessem bordar o desenho que achassem melhor também e nós ficamos à disposição para auxiliá-las no que fosse necessário”.
Muito mais do que desenhar e costurar
Júlia, por sua vez, explica que o Fashion Revolution apresenta “esse momento pra que a gente possa pensar na moda, não como um produto simplesmente, mas também nas consequências de tudo aquilo que ela causa, ou seja, a moda é muito mais do que só desenhar roupas e costura-las. É um universo muito maior e eu acho que é muito importante que os alunos tenham a dimensão disso. O Fashion Revolution é o momento pra que a gente possa entender tudo o que nós podemos fazer dentro do mundo da moda. É um universo de possibilidades”.
Sobre temas em voga na atualidade como moda circular, consumo consciente, sustentabilidade e responsabilidade na cadeia produtiva da moda, Ana Clara comenta que estes contam com muita relevância “porque todo mundo hoje em dia compra muita roupa, consome bastante e grandes marcas como Zara, Riachuelo e Shein, por exemplo, entregam o que o público quer, mas, ao mesmo tempo, gastam muito material, gerando muitas sobras de tecido, de linha e de todas essas coisas que acabam em um lixão. A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo e é preciso ter um olhar voltado para o upcycling (processo de transformar resíduos, subprodutos ou materiais descartados em novos produtos, de maior valor, qualidade ou utilidade, sem destruir a sua forma original) e a moda circular. Hoje, os brechós, por exemplo, estão mais voltados para coisas de qualidade, alimentando essa visão de moda circular”.

As alunas Ana Clara Mateoni (à esquerda) e Júlia Buelloni, do sétimo semestre, participaram da oficina “Miçangas, Acessórios e Bordados”.
Ela diz ainda que “fora do Brasil, é muito mais comum comprar em brechó e fazer trocadoria, mas, agora, essa cultura tá vindo pra cá e eu acho que isso é muito importante porque existem peças que não tem de ser jogadas fora e as pessoas podem se utilizar das roupas que eram de outras pessoas e prolongar a vida dessas peças e não necessariamente acabar com elas, gerando mais lixo, poluição e consumo”.
Conscientização sobre trabalho e produção
A aluna do sétimo semestre, Ana Clara Mateoni, que participou da oficina, diz ter achado o Fashion Revolution “muito legal e importante, em especial pela conscientização em relação aos métodos de trabalho, de produção, e sobre como minimizar o desperdício e a poluição”, enquanto que a também aluna do sétimo semestre, Júlia Buelloni, comenta que haver oficinas ao invés de palestras, como no ano anterior, foi “muito melhor, pois assim, a gente acaba interagindo mais e compartilhando conhecimentos, pois uma parte das oficinas está sendo ministrada por estudantes e eu achei isso muito interessante, porque, às vezes, os alunos têm conhecimentos também e eles podem demonstrar e compartilhar esse conhecimento com os seus pares. Além disso, como nós estamos em uma turma grande, nós pudemos compartilhar materiais, então, não precisamos, necessariamente, comprar novos apetrechos. A gente pegou emprestado, compartilhou, e a ideia do Fashion Revolution é exatamente a de compartilhar e não desperdiçar. É literalmente reaproveitar tudo o que a gente tem e não ter que ficar gastando com materiais toda hora como a gente faz no mundo da moda”.

A artista têxtil Teka Moran ministrou a oficina de bordado sashiko (em tradução livre para o português, “pequenas facadas”), uma técnica tradicional japonesa originada no Período Edo, também conhecido como Xogunato Tokugawa (1603-1868), que é baseada no ponto alinhavo simples para reforçar, reparar ou decorar tecidos utilizando linhas grossas de algodão, geralmente brancas ou cruas, sobre tecidos escuros, como o índigo, formando padrões geométricos precisos que trazem textura e durabilidade às peças.
Trazendo à tona a ancestralidade
A artista têxtil Teka Moran ministrou a oficina de bordado sashiko (em tradução livre para o português, “pequenas facadas”), uma técnica tradicional japonesa originada no Período Edo, também conhecido como Xogunato Tokugawa (1603-1868), que é baseada no ponto alinhavo simples para reforçar, reparar ou decorar tecidos utilizando linhas grossas de algodão, geralmente brancas ou cruas, sobre tecidos escuros, como o índigo, formando padrões geométricos precisos que trazem textura e durabilidade às peças.
Segundo ela, “isso partiu da necessidade do povo camponês de aproveitar melhor os recursos disponíveis, não os desperdiçando. É como se fosse um bordado de ponto corrido, que a gente conhece muito por aqui, para reforçar tecidos, aumentando a durabilidade”.
Ela ressalta que, “nos dias de hoje, é muito importante trazer à tona a ancestralidade, técnicas que vão sendo esquecidas, dentro de um contexto de sustentabilidade na moda. Atualmente, o sashiko é muito mais usado como algo decorativo, podendo ser aplicado em vestuário, em sapatos ou em peças de decoração (como almofadas), podendo ser feito com qualquer tipo de tecido. Aqui, eu disponibilizei aos alunos o algodão cru, que era mais fácil de eles poderem encontrar”.
Aprendendo com os desastres
Sobre o Fashion Revolution, Teka lembra que este surge da “observação de desastres. De fábricas que pegam fogo, de condições de trabalho muito precárias, de roupas sendo despejadas irregularmente em lugares como o Deserto de Atacama, no Chile, ou seja, é preciso que os alunos, através de eventos como esse, possam pensar modelos de produção, durabilidade e disposição de materiais, enfim, tudo o que envolve o produto final, de uma forma que eles durem mais e façam sentido para além da própria moda. É preciso que eles tenham sentido e durabilidade e, são eles, os futuros profissionais, que irão desenvolver isso. Por isso, projetos como o Fashion Revolution são essenciais”.

A aluna Rafaella Vaz de Oliveira (a primeira da esq. para a dir.), do quinto semestre, disse que “apesar dos grandes desfiles e afins, o setor (da moda) está dando muita atenção também ao artesanal. É só repararmos nas tendências que estão surgindo, vindo com tudo, e é muito importante que a gente não deixe que isso se perca. É preciso que isso seja mantido”.
É preciso ressaltar que o Fashion Revolution foi fundado pelas designers de moda Carry Somers e Orsola de Castro após o desastre do Rana Plaza, na cidade de Savar, em Bangladesh, em abril de 2013. O prédio de oito pisos que abrigava um centro comercial e fábricas, em sua grande maioria, de roupas, desabou matando mais de 1.100 pessoas e ferindo cerca de outras 2.500.
Colocando a mão na massa
A aluna Rafaella Vaz de Oliveira, do quinto semestre, diz ter gostado “muito da oficina, da própria Teka e do evento como um todo”. Sobre o evento, ela diz achar que “foi muito inteligente da parte da Rose (coordenadora do curso) e de todas as outras organizadoras de colocarem oficinas pra gente, porque em outras oportunidades, nós assistimos a palestras, o que também era muito legal, mas colocar a mão na massa é uma experiência muito mais interessante, pois a gente consegue aprender muito mais”.
Sobre a importância de se discutir a responsabilidade e a transparência no mundo da moda, ela comenta que “cada vez mais nós estamos vendo a necessidade disso e, cada vez mais também, a moda está se voltando pra isso. Apesar dos grandes desfiles e afins, o setor está dando muita atenção também ao artesanal. É só repararmos nas tendências que estão surgindo, vindo com tudo, e é muito importante que a gente não deixe que isso se perca. É preciso que isso seja mantido”.
A moda como terapia
Lua Felix, multiartista, estilista e arte-educador, que ministrou a oficina sobre upcycling e transmutação têxtil, uma metodologia de criação artística e sustentável que transforma resíduos têxteis e roupas descartadas em novas peças, indo além do upcycling convencional, explica que esta última “foge muito dos padrões higienistas da moda, com a realização de costuras aparentes, que saem tortas, e isso não é um impedimento para o resultado final”.
Ele diz que aprendeu a costurar em meio a pandemia de covid-19 e contou um pouco dessa história durante a oficina, porque, segundo Lua, “a moda entrou na minha vida como terapia. Eu estou finalizando o curso de Enfermagem na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas faz quatro anos que eu trabalho com a moda e, quando eu comecei a trabalhar nessa área, eu pintava e costurava por horas e isso me tirava de crises referentes ao meu Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) (condição mental caracterizada por instabilidade emocional intensa, autoimagem distorcida, impulsividade e relacionamentos tumultuados). Durante a pandemia, foi muito difícil de eu lidar com essa condição e a arte me auxiliou demais a enfrentar essa situação. Por fim, acabou virando uma fonte de renda”.

Lua Felix (à direita) e a sua estagiária, Larissa Bernardes, durante a oficina sobre upcycling e transmutação têxtil, ministrada por Lua.
Gentileza durante o processo criativo
Sobre o Fashion Revolution, Lua diz achar “muito importante a existência de espaços como esses, principalmente para a troca de saberes, de conhecimento, e para podermos trabalhar o social. Hoje, eu faço parte de um coletivo chamado Visceral Arte, que é focado em minorias sociais, e a ideia é tornarmos a moda um meio de renda para as pessoas em geral, assim como virou para mim. No sentido ambiental, por sua vez, eu acho muito importante discutirmos sobre os resíduos têxteis e sobre a utilização de materiais. É isso que o Fashion Revolution tem feito a cada nova edição e tem sido ótimo”.
“Aos que vêm as minhas oficinas, o que eu sempre digo é que o importante é não travar o processo criativo, porque eu já passei por muitos momentos em que eu travava uma roupa inteira porque uma costura não saiu reta, por exemplo, e todo o processo era descartado e não precisa ser assim. O que a transmutação têxtil apresenta é, exatamente, esse lugar de gentileza durante o processo criativo”, encerra Lua.
O que será feito no futuro
A estudante Larissa Bernardes, que é estagiária no ateliê de Lua, diz ter “gostado bastante” das atividades práticas oferecidas durante o Fashion Revolution e estar feliz com o seu estágio e com o oferecimento da oficina proposta pelo estilista. “Trouxemos algo novo e bem legal aqui. Espero que todos tenham se divertido e aproveitado”, disse ela sobre a oficina.

Para a aluna Julia Oliveira Godoi, do terceiro período de Design de Moda e que foi a embaixadora desta edição do Fashion Revolution na PUC-Campinas, a importância do evento reside no fato de ele ser “voltado para as questões ambientais e sociais no mundo da moda e gerar momentos de reflexão”.
Sobre o peso do oferecimento de atividades práticas aos estudantes, Larissa explica que este é grande, em especial, porque “é o que nós iremos fazer lá na frente mesmo. É aquilo com o qual iremos trabalhar. E essa pegada experimental do evento, de sentir que está se fazendo algo novo, é o que mais me chamou a atenção e me fez gostar de tudo o que foi oferecido”.
Fazendo a diferença
Para a aluna Julia Oliveira Godoi, do terceiro período de Design de Moda e que foi a embaixadora desta edição do Fashion Revolution na PUC-Campinas, a importância do evento reside no fato de ele ser “voltado para as questões ambientais e sociais no mundo da moda e gerar momentos de reflexão. Eu, como embaixadora, participei de muitas reuniões com o pessoal do Movimento sobre a conscientização no mundo da moda e, quando falamos de moda, o que pensamos, a princípio, é criar e consumir, mas essa consciência vem pra mudar isso, e o Fashion Revolution é muito importante para mostrar essa mudança acontecendo e apresentar pautas pra que possamos realmente fazer a diferença, tanto no âmbito ambiental, quanto no social, com a geração de renda a quem mais precisa. Essa mudança de paradigma no mundo da moda mostrada pelo Fashion Revolution é, sem dúvida nenhuma, o que, de fato, mais importa. E é isso mesmo o que precisa ser mostrado a todos”.










