
Oficina RESFRIA mobiliza estudantes da PUC-Campinas na busca por soluções para ilhas de calor em Jundiaí
Atividade integra dados de pesquisa climática à formação em Arquitetura e Urbanismo e propõe intervenções em três áreas da cidade
A redução das ilhas de calor e a adaptação das cidades às mudanças climáticas foram os desafios propostos pela Oficina RESFRIA — Ação Climática e Desenho Urbano, realizada com estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas. A atividade envolveu a elaboração de soluções para reduzir o superaquecimento urbano em três áreas de Jundiaí, considerando as características de cada território e as necessidades de quem utiliza esses espaços.
A oficina integra uma cooperação entre a Universidade e a Prefeitura de Jundiaí, estabelecida no âmbito do Projeto RESFRIA, pesquisa que investiga as condições climáticas do município. Durante a atividade, os estudantes tiveram acesso a dados reais de monitoramento de temperatura e analisaram os desafios de três regiões com diferentes configurações urbanas: a área central, uma região com alta vulnerabilidade social e uma zona industrial.
Coordenado pela Profa. Dra. Cláudia Cotrim Pezzuto, o projeto de pesquisa busca produzir diagnósticos que contribuam para o planejamento urbano e a formulação de políticas públicas voltadas à adaptação climática.
“A ideia da oficina é trazer esse olhar do contexto urbano como um todo e compreender a importância da perspectiva climática para um planejamento resiliente ao clima”, explica a professora.
Aprendizado aplicado
A atividade foi desenvolvida no contexto da disciplina de Infraestrutura das Cidades, ministrada pelo Prof. Dr. José Luiz Rogé Ferreira Grieco e articulada aos conteúdos de Projeto Urbano e Paisagismo. A proposta é ampliar a compreensão dos estudantes sobre como as escolhas relacionadas ao desenho urbano, à vegetação e à infraestrutura interferem nas condições ambientais e no uso dos espaços públicos.
Além de analisar os problemas de cada região, os grupos foram convidados a representar diferentes atores envolvidos no planejamento das cidades, como moradores, associações de bairro, gestores públicos e especialistas. A dinâmica buscou estimular a discussão de interesses e prioridades para a construção de propostas que conciliem as necessidades dos territórios.
“Eles vão entender que, às vezes, questões técnicas que estamos estudando na Universidade nem sempre são aplicadas diretamente. É preciso equacionar diferentes interesses para conseguir implementar as soluções”, afirma Grieco.
O professor destaca que o desafio é especialmente complexo em áreas já consolidadas, nas quais as intervenções precisam considerar a estrutura existente, a circulação de pessoas e veículos, os custos e a manutenção dos espaços.
O projeto é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sistemas de Infraestrutura Urbana da PUC-Campinas. Segundo a coordenadora do Programa, Profa. Nádia Cazarim, a integração da pesquisa com as atividades de formação dos estudantes de graduação fortalece a produção e a aplicação do conhecimento científico.
“Essa integração permitiu que os alunos tivessem contato direto com metodologias, dados e desafios reais relacionados ao ambiente urbano, enriquecendo a formação acadêmica e profissional. Além de promover uma aprendizagem mais prática e interdisciplinar, essa interação contribui para a formação de profissionais mais preparados para lidar com problemas complexos das cidades, como as mudanças climáticas, as ilhas de calor e a necessidade de adaptação dos espaços urbanos”, afirma.
A docente ressalta ainda que a articulação entre pesquisa, ensino e atuação junto ao poder público favorece a colaboração e amplia as possibilidades de desenvolver soluções inovadoras, sustentáveis e baseadas em evidências para os desafios urbanos, com benefícios para a comunidade acadêmica e a sociedade.
Soluções para cada território
No bairro Novo Horizonte, uma das áreas estudadas, o grupo da estudante Luana Hermes concentrou as propostas na mobilidade e no conforto de crianças e idosos, considerando a presença expressiva desses públicos na região.
Entre as possibilidades levantadas estão a ampliação de calçadas onde houver espaço disponível e a implantação de canteiros com vegetação. A intenção é criar trajetos mais confortáveis até escolas e equipamentos urbanos, incentivando os deslocamentos a pé e contribuindo para a redução do desconforto térmico.
“Pensar em um caminho confortável, direcionando essas infraestruturas, é muito importante, porque grande parte dessa parcela da população faz esse trajeto a pé”, explica Luana.
Na região central de Jundiaí, o grupo de Luísa Fernanda Moraes Pinto identificou desafios como a pouca arborização, as ruas estreitas e as temperaturas elevadas. Entre as propostas estão o uso de pavimentos permeáveis, que favorecem a infiltração da água da chuva, e a implantação de pequenos corredores verdes. Os estudantes também avaliam tornar trechos comerciais mais favoráveis aos pedestres, especialmente nos fins de semana, sem restringir totalmente o acesso de veículos.
A estudante ressalta que a implementação das medidas exige avaliar os impactos no trânsito, os custos e a manutenção das áreas verdes.
“Se você fecha as ruas no final de semana, como vai funcionar o movimento desses carros? Você tem que redirecioná-los para alguma rua, e o fluxo de uma via que era menor passa a ser maior. Todo esse estudo da área vai ser necessário. Além disso, tem a questão da verba e da manutenção, porque o plantio vai demandar cuidados permanentes, como a poda e a atenção à existência de fios de eletricidade”, explica Luísa.
Já na zona industrial, o grupo de Douglas Alberto do Nascimento Silva identificou a falta de áreas arborizadas e de espaços públicos destinados ao descanso dos trabalhadores durante os intervalos.
“É uma área muito árida, que não tem muita arborização para os pedestres e nenhum espaço público que possa ser usado pelos funcionários na hora do almoço ou no intervalo”, relata Douglas.
A proposta é ampliar a presença de árvores e estudar a implantação de uma praça, com a possibilidade de participação tanto do poder público quanto das empresas instaladas na região. O planejamento também deve considerar a circulação de caminhões e as características da atividade industrial. Entre os desafios apontados pelo grupo está o custo de implantação das intervenções.
Planejamento urbano e clima
As propostas desenvolvidas durante a oficina ainda estão em elaboração. Segundo Cláudia, as soluções apresentadas pelos estudantes poderão ser avaliadas posteriormente para verificar sua viabilidade e a possibilidade de aplicação na cidade.
“A cidade já está consolidada. Como que eles incorporam essas questões em uma cidade já consolidada? Então, esse é o desafio dos alunos”, explica a professora.
Entre os aspectos considerados estão a arborização, a infraestrutura verde, a permeabilidade do solo e a organização dos espaços públicos. Para o professor Grieco, esses elementos precisam ser analisados de forma integrada, pois diferentes questões urbanas se articulam nos mesmos espaços.
“De uma maneira ou de outra, a gente está falando em clima, mas o espaço que vai articular toda essa questão de clima, de drenagem, de mobilidade é o mesmo: o espaço público, a rua e as praças”, afirma o professor.
Sobre o Projeto RESFRIA
O Projeto RESFRIA — Estratégias de Resfriamento Urbano para o Aumento da Habitabilidade em Cidades — é uma pesquisa científica desenvolvida pela PUC-Campinas, sob coordenação da Profa. Dra. Cláudia Cotrim Pezzuto e vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Sistemas de Infraestrutura Urbana. Iniciado em 2024, o estudo tem duração prevista até 2027 e é realizado em parceria com a Prefeitura de Jundiaí, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), no âmbito do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (PPPP).
A pesquisa busca compreender as variações climáticas no município e avaliar estratégias para reduzir os efeitos do aquecimento urbano. Para isso, utiliza sensores instalados em diferentes regiões da cidade e uma estação meteorológica, que permitem monitorar dados como temperatura e umidade do ar. Essas informações subsidiam a identificação de áreas mais vulneráveis ao calor e a elaboração de estratégias de adaptação climática, contribuindo para o planejamento urbano e o desenvolvimento de políticas públicas.
A equipe reúne pesquisadores da Universidade, estudantes de mestrado e doutorado, alunos de graduação envolvidos em atividades de iniciação científica e pesquisadores em estágio de pós-doutorado, além de colaboradores internacionais vinculados a institutos de pesquisa. O projeto conta também com a participação do gestor público responsável pela iniciativa na Prefeitura de Jundiaí, Guilherme Theodoro Nascimento de Lima, e de servidores municipais, cuja atuação promove a integração entre a produção científica e a gestão pública.








