
Pesquisa do PPG em Ciências da Religião leva ensino de história por meio da alimentação a escolas de Paraty
Projeto conduzido por mestranda transformou ingredientes do bolo de fubá em recurso pedagógico para quase 300 crianças; ação integra estudo sobre a cultura caiçara e a Festa do Divino
Entre os dias 19 e 25 de outubro, quase 300 crianças de escolas de Paraty, Rio de Janeiro, aprenderam sobre a história do Brasil por meio de uma abordagem não convencional: a análise dos ingredientes de um bolo de fubá. A ação foi desenvolvida pela mestranda Isamara Gouvêa, bolsista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-Campinas, que desenvolve, sob orientação da Profa. Dra. Ana Rosa Cloclet da Silva, a dissertação intitulada “O significado da tainha na brasa na Festa do Divino Espírito Santo, em Ubatuba”.
Os encontros nas escolas desdobraram conhecimentos acumulados pela pesquisa no âmbito de uma iniciativa denominada Brasil Fubá, mediante a qual os alimentos do cotidiano da população caiçara foram transformados em recurso pedagógico para evidenciar as contribuições indígenas, africanas e europeias na formação do país, além das relações entre alimentação, trabalho e sociedade.
O projeto foi acolhido nas instituições de ensino por intermédio do Polo Gastronômico e do Festival Gastronômico de Paraty. O município do litoral sul fluminense é marcado pela cultura caiçara e tem sua Festa do Divino Espírito Santo reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
A iniciativa educacional dialoga diretamente com a pesquisa que Isamara desenvolve, desde 2025, no mestrado da Universidade. O estudo central de sua dissertação analisa as tradições da cultura caiçara, com foco no preparo da tainha na brasa durante a Festa do Divino Espírito Santo, em Ubatuba, São Paulo. Pedagoga e especialista em Direitos Humanos e Projetos Sociais, a pesquisadora aplica uma metodologia pautada em entrevistas e análise documental, utilizando a oralidade das comunidades como fonte histórica capaz de revelar vivências ausentes nos registros oficiais — evidenciando como a prática culinária salvaguarda a fé, a memória e a identidade local.
“O mestrado tem transformado minha maneira de pesquisar e compreender a história. Aprendi a olhar para a memória e a oralidade não apenas como relatos complementares, mas como fontes fundamentais para compreender experiências que nem sempre foram registradas. Acredito que a Universidade cumpre também sua função social quando esse conhecimento ultrapassa seus muros, dialoga com as comunidades e retorna à sociedade”, afirmou a estudante, cujo trabalho atual consolida mais de uma década de investigações independentes sobre cultura popular e história da alimentação no Brasil.
Reconhecimento acadêmico e publicações
O rigor científico do estudo tem garantido a circulação dos resultados em importantes espaços acadêmicos ao longo de 2026. A mestranda expôs o trabalho no 19º Simpósio Nacional da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR), em Belo Horizonte, Minas Gerais, e no 38º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER), com a comunicação “Memória, religiosidade popular e identidade na Festa do Divino, em Ubatuba”.
Em agosto, a investigação também compôs a programação do II Congresso de Gastronomia & Sociobiodiversidade, em Porto Alegre (RS), abordando o tema “Cultura caiçara, patrimônio alimentar e religiosidade popular: saberes e memórias da Festa do Divino Espírito Santo em Ubatuba”. No âmbito das publicações científicas, a pesquisa originou o artigo “Religião como tradução: a tese de Maria Cristina Pompa, a cultura caiçara e a Festa do Divino Espírito Santo em Ubatuba”, aceito pelo periódico Cadernos Cajuína.
A produção da pesquisadora se estende, ainda, ao mercado editorial. Integrante de um Grupo de Trabalho do Fórum Nacional de Educação em Gastronomia (FNEG), Isamara lançou em 2026 o livro “Café, Amendoim e Shoyu: registros sobre a formação da identidade culinária da região de Marília/SP” (Editora Telha), em coautoria com Heyttor Barsalini. A obra teve lançamentos realizados no 8º Festival Gastronômico de Paraty e durante o congresso na capital gaúcha.
Segundo a orientadora da dissertação, Dra. Ana Rosa Cloclet da Silva, “a pesquisa de Isamara Gouvêa, desenvolvida a partir de uma abordagem interdisciplinar que articula Ciências da Religião, História Cultural e Antropologia da Alimentação, contribui para a produção de conhecimento científico sobre um tema ainda inexplorado na área, com significativo impacto social. Nesse sentido, atende a um dos principais critérios de avaliação da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que reflete uma mudança estrutural na pós-graduação brasileira: além de valorizar a produção acadêmica, passa a exigir que a pesquisa científica dialogue com os problemas e demandas concretas da sociedade”.
