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Vestibular 2022

Tsawídi!

“(Amigo! – Saudação Xavante, dos índios que se acham na Região do Rio Sangradouro. Pronuncia-se sauídi!)” (LAPA: 1963;05).

É com essa saudação que o Professor campineiro José Roberto do Amaral Lapa, abre seu livro: Missão do Sangradouro, publicado em 1963, e que relata em diário de campo sua expeiência e vivência junto a Missão do Sangradouro no Mato Grosso realizada durante o período de 25 de julho a 06 de agosto de 1958 a convite do Professor Dr. Alfonso Trujilo Ferrari, organizador da expedição, conjuntamente com o Professor Desidério Aytai no então Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade Católica de Campinas.

A viagem de observação e estudos, promovida pelo Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, tinha por finalidade, além das “observações geográficas, históricas, sociaológicas e etnológicas”[1], a aquisição de material etnológico, “para ser incorporado ao Museu Didático de Antropologia”[2], em fase de constituição em nossa Universidade.

Capitaneada pelo Professor Alfonso Trujilo Ferrari, a primeira missão organizada, levava conjuntamente uma série de professores convidados de várias instituições de ensino superior do Estado de São Paulo e alguns alunos. De acordo com Lapa, a caravana levava “uma barraca de campanha, para a eventualidade de pousos na mata, vestuário apropriado, armas, tecido, (…) lataria com conservas e grande quantidade de medicamentos, além de lampiões, anzóis, canecas, utensílios de cozinha, etc”. [3]

Com riqueza de detalhes, o Professor Lapa, acaba por nos trazer em seu relato-diário, como bem chama, sua obra literária, toda a vivência e experiência da expedição junto aos Xavante e Bororo, e em suas memórias no processo de escrita do livro, publicado cinco anos após a expedição, narra:

Em nenhum deles nos doeu tão forte o sentido remoto, mas ao mesmo tempo tão próximo, do reencontro de raízes comuns, como quando ao aproximarmo-nos de uma aldeia Xavante, vimos ao encontro do nosso olhar, emergindo de suas choças, os índios que nos saudavam. Só essa lembrança, esbatida em nossa memória, aqui no pesado silêncio da sala de estudos, justificaria a coragem de darmos ao público as páginas que aí ficaram. Uma solidariedade humana, como nunca até então sentimos, uma ânsia de encontrar chãos perdidos, de perguntar àqueles índios respostas que só eles talvez conservem, para as contingências históricas que podem nos explicar, tudo isso enfim, é que moveu a nossa pena. (LAPA: 1963; p. 147).

Após essa expedição, houveram muitas outras, todavia, sob a tutela do Professor Desidério Aytai, e da Professora Maria Salete Trujillo. Perspicaz a cada detalhe, Prof. Desidério produziu uma série de documentos que narram os preparativos que antecederam cada uma das expedições que ocorreram quase que anualmente, até o final dos anos 1980.

Dentre os documentos, destacam-se os ofícios internos dirigidos ao então reitor da instituição Professor Benedito José Barreto Fonseca, solicitando os materiais necessários e os valores monitários para sua plena realização. Afinal, as expedições cientificas, naqueles tempos, representavam um grande diferencial, uma vivência prática de ensino, extremamente à frente do seu tempo, para uma instituição que ainda dava os primeiros decênios de existência, mais que possuía em seu espírito desbravador, todos os conceitos de uma época, que considerava o processo educancional vivido e experimentado um diferencial inovador, para a sociedade em profundas transformações sociais e políticas.

A motivação para o experimento era tamanha, que a Universidade Católica de Campinas, comprou um carro para ser utilizado com exclusividade nas missões de estudo da Faculdade de Antropologia. Cabe ainda considerar que a formação do acervo do Museu Universitário entre os anos de 1958 a 1985, esteve alicerçada nessa proposta de trabalho cintífico.

Assim, a partir de 1958 com a coleta de objetos etnográficos pelo Prof. Alfonso Trujilo Ferrari e de 1963 a 1985 com a coleta de objetos arqueológicos e atnográficos capitaneada pelo Prof. Desidério Aytai, o acervo, principalmente advindo das expedições realizadas com os índios das aldeias Xavante e Bororo foi crescendo e sendo sistematicamente catalogado, seguindo os preceitos da documentação museológica daquele período.

No ano de 1961, inaugurou-se o Museu, dentro da nossa instituição de ensino, como um Departamento da Faculdade de Ciências Sociais, sob o nome de Museu do Índio. Já nos idos dos anos 1970, a instituição museológica passa a se chamar Museu do Departamento de Antropologia e somente a partir de 1985, Museu Universitário da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

O museu, vivenciou um período fértil de cooperação com outros museus do Brasil e do exterior, tornando-se uma referência, principalmente no que toca, seu processo de catalogação do acervo. Esse processo desenvolvido internamente com a introdução de um novo tipo de fichário para os objetos da coleção, e a utilização do sistema da IBM-3742, era considerado tão inovador, que o próprio Museu Nacional, sediado no Rio de Janeiro, chegou a solicitar uma cartilha, que os ajudassem a implementar o mesmo sistema.

À frente do Museu, o Professor Desidério, organizou muitas expedições e exposições, sempre de cunho científico e pedagógico. Sua colaboração para com outros museus nacionais e do exterior era de grande profusão. Entre os seus documentos, são inúmeras as trocas de correspondência com instituições museológicas e pesquisadores ao redor do mundo. Enquanto professor e coordenador do Museu, produziu e incentivou muitas pesquisas, assim como cartilhas e colaborações em livros. Sua maior dedicação esteve ao estudo da música dos povos indígenas, principalmente os Xavante e o Bororo.

Dentre os seus relatos de viagem, podemos destacar a expedição de 1970 à Missão do Sangradouro em Moto Grosso. Tal expedição durou 25 dias e conjuntamente com sua esposa Elisabeth Aytai, percorreram 4.346 quilômetros, partindo de Campinas, mais precisamente de Sousas. Retornando dessa viagem, escreve,

A notícia da nossa chegada se espalhou em minutos e muita gente nos procurou pessoalmente e por telefone. Fomos os heróis de Souzas. Os jornais escreveram da nossa chegada. Muitos perguntaram se estávamos satisfeitos com os resultados. Na sua inocência eles não sabiam que quem bebe da bebida das aventuras nunca mais se saciará e sofrerá sedento. (AYTAI, Desidério).

 

 

Os resultados dessas expedições contribuíram para a formação de um acervo etnológico, composto mais de 3.000 itens de acervo tridimensional e mais de 500 registros fotográficos e um sem número de textos textuais que se encontram sob a tutela do Museu Universitário da PUC Campinas. Todo o material encontra-se em fase de catalogação e acondicionamento, assim como, o início de um novo projeto do Museu, que busca colocar em evidência todo esse acervo, promovendo novos diálogos com instituições museológicas congêneres, pesquisadores e comunidades indígenas, afim de produzir novas leituras sobre o acervo.

 

[1] LAPA, J. R.. Missão do Sangradouro. São Paulo: Edição Saraiva, 1963, p. 09.

[2] Idem.

[3] LAPA, J. R.. Missão do Sangradouro. São Paulo: Edição Saraiva, 1963, p. 10.



mayla
15 de setembro de 2021