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Um Rosto no Espelho revê ações dos pontos de cultura 01/10/2009 Um Rosto no Espelho, o novo documentário de Renato Tapajós (que o repórter do Caderno C viu em primeira mão), foi feito por encomenda, mas o resultado é extremamente pessoal e inquietante. O secretário do Audiovisual, Sílvio Da-Rin, convidou, no começo do ano, o cineasta paraense radicado em Campinas para realizar um filme sobre pontos de cultura, com data para ficar pronto. Pouco mais de nove meses depois, o filme será exibido pela primeira vez nesta quinta-feira no CineSesc, em São Paulo, na abertura do 2º Congresso Ibero-Americano de Cultura.
Realizado em suporte digital e em formato para a televisão — daí o fato de ter somente 59 minutos — o média-metragem produzido pela Tapiri Cinematográfica será apresentado, em novembro, em salas de cinema de São Paulo, Rio, Brasília e Campinas, juntamente com o lançamento de DVD cheio de extras, uma vez que foram coletadas 80 horas de gravações. Posteriormente, o filme deverá chegar às TVs públicas
O tema dado pelo Ministério da Cultura (MinC) são as relações entre os movimentos culturais e as transformações sociais. Daria uma tese. Ou um vídeo institucional do ministério. No entanto, Renato Tapajós recebeu sinal verde para fazer um filme sob ótica própria e do seu jeito. Ele até admite que Um Rosto no Espelho poderia se transformar num longa-metragem, mas temeu expandir demais o raciocínio central, correndo o risco de pecar pelo excesso de informações. Daí a necessidade de deixá-lo mais enxuto.
Na verdade, o cineasta defende mesmo uma tese: a de que os movimentos culturais recentes substituem os movimentos políticos de outras décadas — leia-se, anos 50, 60 e 70. Entretanto, para driblar o raciocínio e formato acadêmicos, ele preferiu se colocar pessoalmente no filme. Narra em primeira pessoa a experiência de encontrar tantos núcleos espalhados pelo País e por alguns vizinhos latino-americanos fazendo cultura e propiciando as tais mudanças sociais.
O primeiro passo foi um trabalho de mesa para definir quais núcleos incluir no projeto. Decidiu-se formular alguns critérios, entre eles, de que não seriam núcleos ligados a entidades, igrejas ou governos, ou atividades com fins específicos e, por fim, que não fossem grupos voltados para si mesmos, localizados e sem uma ideia ampla de expansão dos objetivos. Além disso, o cineasta fugiu do princípio de grupos culturais utilitários, ou seja, os que preveem recuperação de drogados ou possibilidade de ascensão social, entre outros objetivos similares.
O resultado são alguns pontos de cultura, que têm suporte do MinC, mas com vida própria. Entre outros, aparecem no filme a Casa de Cultura Tainã, que existe desde 1989 em Campinas; o Núcleo Filhas da Dita, de Olinda; o Instituto Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes, bairro de São Paulo; a aldeia de índios ashaninka no Acre, o núcleo Escolas das Artes que faz cinema no Ceará, e o grupo teatral Nós no Morro, do Rio.
Renato também descobriu pontos de contato de artistas atuando em atividades semelhantes em países como a Bolívia e a Colômbia. Aliás, um dos momentos mais fortes do filme é, justamente, o encontro do grupo teatral colombiano Nuestra Gente com os paulistanos do Pombas Urbanas.
Exceção
A exceção na escolha dos núcleos é o do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), grupo apoiado pelo atual governo petista. Renato justifica a inclusão dizendo que o referido movimento investe em cultura, relevância nunca dada antes pelas esquerdas, o que lhe chamou a atenção.
Apesar da justificativa, a presença do MST — mesmo com ênfase na cultura — acaba expondo o filme a um inevitável viés político. Só não se torna mais politizado do que a fala do secretário de Cidadania Cultural do MinC, Célio Turino, que apenas reitera, com retórica oficial, o que o filme mostrou. Mas, neste caso, é até compreensível, pois a produção foi patrocinada pelo Ministério da Cultura.
Apesar destes dois senões, Um Rosto no Espelho tem muitos méritos. Um deles foi a opção do cineasta de se colocar pessoalmente a partir do que presenciou durante as filmagens. O outro, o de levantar uma tese ousada que abre para a possibilidade de futuros debates. E, ao constatar algo que está ocorrendo neste momento no Brasil e em vários países latinos, o diretor faz relevante contribuição de um fazer cultural não necessariamente ligado ao mercado.
Some-se a isso, a beleza das imagens e a maneira como Tapajós conduz a câmera, sempre ágil ao buscar o ângulo menos previsível, além de uma narrativa no qual os costumeiros e, às vezes, excessivos depoimentos são substituídos por imagens que não apenas ilustram, mas demonstram a força dos grupos enfocados. Por fim, tratar o tema proposto com apoio governamental poderia facilmente cair no enfadonho (se feito apenas do ponto de vista da retórica oficial). Não é o que ocorre, muito pelo contrário.
Autor: João Nunes
Fonte: Correio Popular
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