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DISCURSO DE POSSE DA REITORIA DA PUC-CAMPINAS – GESTÃO 2006-2010
PROFERIDO PELO REITOR PROF. PE. WILSON DENADAI – 1° DE FEVEREIRO DE 2006.

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor DOM BRUNO GAMBERINI, Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de Campinas; Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor DOM GILBERTO PEREIRA LOPES, Arcebispo Emérito de Campinas e Presidente da Sociedade Campineira de Educação e Instrução;
Reverendíssimo Senhor Professor Padre José Benedito de Almeida David, Magnífico Reitor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas; Sr. Guilherme Campos Júnior, Vice-Prefeito Municipal de Campinas, em cuja pessoa saúdo a todas as autoridades civis aqui presentes; Sr. Dário Saadi, Presidente da Câmara Municipal de Campinas; Excelentíssima Sra Profa Dra Ângela de Mendonça Engelbrecht, Vice-Reitora da nova gestão da PUC-Campinas; Senhores Pró-Reitores, Diretores de Centros e de Faculdades, Coordenadores; Senhores Professores, Funcionários e Alunos;

Senhores, Senhoras!

O meu primeiro ato como 7° Reitor desta nossa querida PUC-Campinas é declarar, neste momento, oficialmente abertas as comemorações de seu sexagésimo quinto aniversário de fundação. É visível, pela logotipia orientativa do convite para a posse que, em 2006, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas completa seus 65 anos de existência.
Desejo inicialmente reafirmar aqui o que já é conhecido pela nossa comunidade interna, por mim já expresso na alocução feita perante o Egrégio Conselho Universitário, por ocasião da comunicação de minha escolha pelo nosso Grão-Chanceler, Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Bruno Gamberini. Disse-lhe meu SIM, e O reafirmo agora, neste dia solene, numa convicta Profissão de Fé. E, somente pela fé, caminharei firme e feliz, com toda a Equipe de Gestão que comigo é empossada e que aqui represento.

Todos os que me conhecem desde o berço e ao longo de toda a minha vida sabem bem como é imensa a minha fragilidade humana. Testemunham bem isso meus familiares, amigos, colegas de escola, de infância, de juventude, de trabalho, de vida religiosa, de Presbitério, de Vida Acadêmica e outros tantos. Contudo, testemunham também que minha profunda e arraigada convicção é esta: é da minha fraqueza que advém a força necessária para a Missão para a qual Deus me escolhe, do mesmo modo que experimentamos, em cada belo amanhecer, que é da escuridão das trevas que nasce a pujante luz. Dizer um SIM na fé é realmente entregar a Vida sem ter medo da morte.

A figura que neste momento orienta minha imaginação era aparentemente também uma frágil figura humana: a grande Reitora Nadir Kfouri, de nossa querida co-irmã e, para mim, particularmente querida PUC-SP, nos terríveis anos da repressão militar. Diante daquela bruta guarnição, liderada por seu Coronel Comandante, essa Reitora, prestes a ter sua Universidade invadida covardemente, sobe apenas num pequeno ressalto do solo, coloca-se perante a tropa e, com toda a intensidade de sua voz, cansada mas firme, faz eco à voz do Grande Cardeal Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, seu Grão-Chanceler: "Na Universidade só se entra por uma via, a do Vestibular". Faz a corajosa defesa da Autonomia Universitária. Sabemos todos da desastrosa e violenta invasão havida, mas sabemos também o quanto, historicamente, essa sua atitude contribuiu para o refortalecimento da constitucionalmente consagrada Autonomia Universitária em nosso País.

É fundamental que um Reitor seja o zeloso e corajoso Guardião da Autonomia Universitária. Não pelo valor da Autonomia em si mesma, pois ela não pode ser pretexto para se isolar da sociedade e instalar-se numa torre de marfim, mas por tudo quanto a Autonomia Acadêmico-Administrativa é essencial para que a Universidade seja Universidade em sua plenitude. Não apenas Autonomia em relação aos espúrios poderes externos que a tentam invadir e controlar, como o acima referido, mas também Autonomia em relação a outras forças, internas e externas a ela, que sutil e sorrateiramente tentam lançar dentro dela seus controladores tentáculos.

Ao ser empossado como Reitor desta querida Universidade Católica, deixo aqui meu público compromisso com toda a comunidade Universitária: tenham absoluta certeza, meu querido e amado Grão-Chanceler Dom Bruno Gamberini, querida comunidade Universitária, tenham a absoluta certeza de que, desse Patrimônio de 65 anos de história, de sua sagrada Autonomia e de seus valores, eu serei cioso Guardião.

Tenho clara consciência de que, com seus 65 anos de existência, se comparada com a história da Universidade no mundo, a PUC-Campinas ainda é uma criança. "Nascida do coração da Igreja", a Universidade Católica se desenvolveu à sombra das catedrais "como rio de ciência que rega e fecunda o terreno da Igreja Universal" (Inocêncio IV) ou "como lâmpada que resplandece na casa de Deus" (Alexandre IV). "Centro incomparável de criatividade e de irradiação do saber para o bem da humanidade", dirá João Paulo II na sua Constituição Apostólica – "Ex Corde Ecclesiae".

Sua aparição se deu no fim do século XII. Sem dúvida, marcou uma data histórica para a civilização ocidental e um novo avanço para o Pensamento. Era o momento em que proliferavam as comunas urbanas, quando os elementos corporativos se organizavam. Também mestres e estudantes resolveram reunir-se para formar a coletividade do Espírito, a "Universitas Magistrorum et Scholiarium".

A Bula "Parens scientium" do Papa Gregório IX fez da Universidade Católica uma Associação Internacional. Daí para sempre ELA NÃO DEPENDERÁ MAIS, SENÃO DE ROMA. Destarte, Ela lhe assegurava a liberdade: "Dali por diante terá mestres brancos e cinzentos, mas não se arrependerá, pois verá no seu corpo docente homens como o franciscano Boaventura e o dominicano Tomás de Aquino" (História da Igreja, Rops, pg. 419). Era um pequeno estado, no Estado e na Igreja.

De lá para cá passaram-se séculos. Fiel a sua vocação, a Universidade Católica exige, também hoje, não só recursos para continuar sendo "rio de ciência ou lâmpada que resplandece", mas planejamento, qualidade e competência.
Como vocação ela deve brilhar pela Fé e pela Ciência. "Fide Splendet et Scientia" não é por acaso o lema da nossa Puc-Campinas, que nossos antepassados legaram não só como honra que a dignifica, mas também como tarefa que é preciso continuar.

O mundo mudou aceleradamente. Os desafios se fazem presentes em todas as ordens, notadamente a econômica, a política e a social. As ciências e as técnicas não ficaram de fora.

Sendo breve e esquematizando: a Universidade Católica deve enfrentar hoje não apenas a questão política, que é a questão do justo e do injusto; a questão moral, que é a questão do bem e do mal, mas principalmente a questão espiritual, que é a questão do SENTIDO. É uma questão de primeiro plano que se coloca na cabeça dos homens para o humano e o inumano. SENTIDO que se entende como relação do significado do nosso conhecimento em relação ao mundo, ao outro, ao Absoluto, para o verdadeiro serviço das ciências.

Entendo, portanto, que, mais que outrora, estamos frente a problemas que tangem a vida universitária exigindo da própria Universidade respostas e atitudes para não ficar aquém do tempo, ultrapassada à história. O momento atual exige sobressair pela qualidade, pela competência, pela sede de saber, sem cair na tentação da supremacia do quantitativo. A excelência conta muito mais!

O CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), no seu documento "Os cristãos na Universidade", traça alguns marcos para uma visão de futuro da Universidade. À luz desse documento a PUC-Campinas deve:
1. antes de tudo ser verdadeira Universidade, ou seja, ter o cultivo sério e desinteressado da ciência;
2. ser o centro de elaboração e irradiação de cultura autêntica;
3. ter autonomia, sem hermetismos ou separação da sociedade, para realizar sua vocação iluminadora e criadora;
4. ser consciência viva da comunidade humana a que pertence.

Nessa perspectiva, a Puc-Campinas formulou participativamente seu Plano Estratégico e, a partir dele, o seu Plano de Desenvolvimento Institucional para o período de 2003-2010, de que nós, desta Gestão ora empossada, fazemos nosso próprio plano de gestão.

A solidariedade, o compromisso social, a responsabilidade com o meio ambiente, a participação e co-responsabilidade, o respeito ao pluralismo e à diversidade, a pró-atividade e o desenvolvimento com sustentabilidade econômico-financeira são os Valores que consideramos vigas mestras da construção de nosso Plano.

A unidade indissociável de suas atividades-fim, que constituem o Ser da Universidade, queremos enriquecê-la sempre mais pela consolidação da nova estrutura de nossa Universidade implantada há apenas quatro anos, com ênfase nas realidades das Pró-Reitorias e dos Centros que deverão ser instâncias de liderança no fomento da integração do ensino-pesquisa-extensão, bem como da interdisciplinaridade no processo da produção e socialização do conhecimento.
Teremos sempre mais a presença da pesquisa também no ensino de graduação. Faremos as escolhas de quais Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu deveremos e poderemos ter a partir das linhas institucionais da Pesquisa produzida nos grupos de pesquisa certificados. Nossos projetos de Extensão, ao mesmo tempo em que serão as expressões nítidas de nosso compromisso social de Universidade, também serão terreno fértil para oportunidade de Ensino e de demandas de Pesquisa.

Não seremos tímidos na oferta de cursos de Extensão e Pós-Graduação Lato Sensu, cientes de que são a grande oportunidade de atendimento a necessidades da Comunidades Externa, garantindo para nossa Universidade a marca de uma Educação continuada de Qualidade. Temos consciência de que nossos mecanismos internos são ainda precários para atenderem a esses desafios. No entanto, nossas Pró-Reitorias responsáveis por essas áreas, antes mesmo da posse, já cuidam dos devidos encaminhamentos.

Como critérios básicos para escolha das pessoas para a equipe de gestão, em todos os seus níveis, valemo-nos dos balizamentos dados pelo nosso Grão-Chanceler, como lhe cabe fazer, e daquele lema que já há anos tem sido o mote da Igreja no Brasil, em nossa Arquidiocese e em nossa Universidade: COMUNHÃO E PARTICIPAÇÃO. De um lado sintonia entre a pessoa escolhida e a Identidade Católica e Comunitária de nossa Universidade, sua Missão, Valores; de outro, compromisso efetivo com seu Plano de Desenvolvimento Institucional e sua Visão estabelecida no referido Plano para o horizonte de 2010.

Como decorrência dessa opção por esses critérios, podem estar certos também de que a marca característica desta gestão que iniciamos hoje é primeiramente SER E TRABALHAR EFETIVAMENTE COMO EQUIPE. Além disso, fomentar, coordenar e gerir a participação dos segmentos da Comunidade Universitária e cultivar fortemente esse senso de Comunhão.

Desse estilo de gestão também decorrerá nosso empenho em conduzir a Universidade sempre num Espírito de abertura ao vital entrosamento com as demais mantidas da Sociedade Campineira de Educação e Instrução: nosso Hospital Universitário e o órgão complementar da Universidade, o Colégio de Aplicação Pio XII. Evidentemente isso deverá ocorrer sob a coordenação da Presidência da referida Sociedade. Seria absolutamente sem sentido não otimizarmos recursos e não fazermos convergir esforços para isso. Nessa mesma linha, continuaremos com nossa tradicional atitude de abertura a Parcerias co-responsáveis com nossas Instituições congêneres que atuam no Ensino Superior na Região, no Estado, no País e no Exterior. O mesmo continuaremos a fazer com os segmentos do Poder Público e os setores da Iniciativa Privada, como já vem ocorrendo há anos com a conhecida participação na Fundação Fórum Campinas, apenas para citar um exemplo dentre tantos de que já temos participado como expressão clara do compromisso social de nossa Universidade.
Queridos Colegas, Querida Vice-Reitora, Senhores Pró-Reitores, Senhora Pró-Reitora, Senhores Diretores e Diretores Adjuntos, Diretoras e Diretoras Adjuntas dos Centros e das Faculdades, Coordenadores e Coordenadoras dos diferentes níveis, programas ou núcleos, sou-lhes agradecido em nome da Universidade que os convidou pelo sim que deram ao seu chamado. Estou profundamente confiante nos senhores e senhoras e nesse compromisso ora estabelecido. Teremos problemas, talvez muitos, porém juntos seremos uma Equipe de Gestão. Disso não abriremos mão.

Para finalizar, desejo expressar alguns agradecimentos.

Primeiramente aos funcionários, alunos e professores da nossa Universidade, que perceptivelmente me acolhem com fé e esperança.

À diretoria da Sociedade Campineira de Educação e Instrução, na pessoa de seu Presidente, Dom Gilberto Pereira Lopes, nosso amado Arcebispo Emérito de Campinas (alguém também muito responsável pelos acontecimentos de hoje).

Agradecimentos à SCEI, na sua condição de mantenedora da PUC-Campinas pelos quatro anos de convivência no trabalho da gestão que ora termina, na esperança de que nossa Equipe possa continuar contando efetivamente com as necessárias condições para que a Universidade continue seu trabalho de excelência na realização de suas atividades-fim, como lhe cabe fazer como Sociedade Mantenedora que efetivamente é.

Querido Magnífico Reitor, Pe. José Benedito de Almeida David, meu amigo, meu irmão no sacerdócio de Jesus. Rendo-lhe minha homenagem dizendo-lhe com alegria: como seu Vice fui-lhe fiel durante esses quatro anos. É o melhor presente que lhe quis dar porque era isso que Vossa Magnificência realmente necessitava e merecia. Para homenageá-lo com a maior justiça de que sou capaz, faço-lhe publicamente uma confissão que precisa ser bem entendida. Ao longo desses meus 37 anos de contato com nossa Puc-Campinas, além de inúmeras alegrias tive alguns desencantos que criaram em mim umas tantas reticências em relação a ela, em alguns momentos. Como aluno, após a alegria da aprovação no Vestibular em 1968, logo tive que encarar com os colegas daquela época os desencantos que o Regime militar nos trouxe, atingindo violentamente os seus caminhos e a qualidade de nosso corpo docente; mais tarde, como candidato a um dos seus cursos, tive o dissabor de um atendimento grosseiro por parte de uma de suas direções pelo simples fato de eu me haver apresentado como Pe. Wilson, e não simplesmente como Wilson, porque fora entendido por ela como alguém que ali estava para pedir privilégios, antes mesmo de eu poder expressar o que realmente buscava, ou seja, apenas informações. Como seu professor, juntamente com muitos de meus colegas, em muitos momentos, num ambiente obscuro de desconhecimento total em relação a tantas medidas incompreensíveis e inexplicadas que vinham sendo tomadas, tive o sincero desejo, até por vezes expresso, de me retirar de seu processo. Mas eis que na Fé aceitei ser seu Vice, Pe David. Vi e experimentei no dia-a-dia seu pujante e desmesurado amor por essa Universidade. No dia-a-dia e, não minto, no decorrer dos dias e das noites também, seu amor pela PUC-Campinas. David, a partir daí pude compreender e reavaliar tudo. Mas tudo mesmo.

Eis minha confissão: APRENDI A AMAR O AMOR QUE VOCÊ DEDICA À PUC-CAMPINAS. E AMANDO ESSE SEU AMOR POR ELA, HOJE POSSO, FRANCA E ABERTAMENTE, EXPRESSAR QUE AMO A PUC-CAMPINAS. AMO-A COMO ELA FOI NO PASSADO, PODE SER AGORA E SERÁ NO FUTURO, INCLUSIVE CONTENDO OS ACERTOS E ERROS DESSA NOSSA GESTÃO.

Querido Arcebispo meu. Meu Excelentíssimo e Reverendíssimo Grão-Chanceler. Grato pela sua confiança em mim depositada. Renovo afetuosa e lealmente em sua pessoa meu compromisso e lealdade à nossa amada Igreja. Estou em suas santas e sábias mãos de Arcebispo, como sinto que estou afetuosamente em seu coração amigo.

Saúdo, neste momento, a excelsa figura do saudoso Professor Doutor Monsenhor Emílio José Salim, a quem todos muito devemos, fundador das "Faculdades Campineiras", que hoje constituem a Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Minhas saudações, também, aos demais Professores que me antecederam no exercício da Reitoria, pela dedicação e zelo com que conduziram os destinos de nossa Universidade.

Desejo ser fiel à toda legislação brasileira e canônica, às diretrizes e documentos da Igreja Católica, que resumo naquilo que define a missão da PUC-Campinas e ressalta a sua identidade: "A Pontifícia Universidade Católica de Campinas, a partir de valores ético-cristãos, considerando as características socioculturais da realidade, tem como missão produzir, sistematizar e socializar o conhecimento, por meio de suas atividades de ensino, pesquisa e extensão, visando à capacitação profissional de excelência, à formação integral da pessoa humana e à contribuição com a construção de uma sociedade justa e solidária".

Se o peso me puxar para baixo, espero na graça que me eleva. Não há como ter êxito sem amor, lucidez e coragem.

Padre Wilson Denadai, 01 de fevereiro de 2006.

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