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íntegra da entrevista com o desenhista Dalcio Machado
04.09.2006
Um dos desenhistas mais talentosos da atualidade é campineiro e, em uma entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, conta um pouco de sua trajetória, de sua formação e sua rotina de trabalho.


Depois de Angeli, que está na casa dos cinqüenta anos, para muitos seu principal sucessor em talento é o campineiro Dalcio Machado. Apesar dos 77 prêmios nacionais e internacionais, continua residindo em Campinas e diz não ter intenção alguma de sair da cidade para um centro maior.

Até porque, com a internet, nem é preciso sair de casa para enviar seus desenhos às várias publicações das quais é colaborador e, inclusive, remeter obras para um novo concurso internacional. Em entrevista concedida ao Jornal da PUC-Campinas, Dalcio fala do seu trabalho rotineiro, define a linha tênue que separa a charge do cartum e dá algumas dicas aos novos desenhistas:

Publicações para as quais trabalha

Dalcio Machado - Comecei no Correio Popular com 16 anos (estou com 34). Foi meu primeiro trabalho e continuo lá até hoje. Faço uma charge por dia, que sai na página 2 do primeiro caderno. Também desenho caricaturas e ilustrações para as revistas Veja e Exame, e vinhetas (os "plimplins") para a TV Globo.

Os três prêmios mais marcantes

Machado - Até agora recebi 77 prêmios nacionais e internacionais. Todos são muito importantes, por isso só vou citar os últimos. O 1º lugar em caricatura no Salão Carioca de Humor, em abril deste ano, no qual tive a honra de receber o troféu das mãos da atriz Fernanda Montenegro. Ainda em abril fui para Portugal receber o 3º lugar em caricatura no World Press Cartoon, o evento mais importante do mundo para trabalhos publicados na imprensa. Em julho, recebi o Prêmio Abril de Jornalismo, categoria ilustração, pelo melhor trabalho publicado nas revistas da editora Abril em 2005. Foi uma capa para a revista Exame. E, na semana passada, ganhei uma menção honrosa em Rhodes, Grécia, num concurso de cartum.

Como e quando começou a desenhar

Machado - Desenho desde os 10 anos. No começo, era mais ligado em figuras de monstros e nos personagens na linha dos desenhos de "Conan, o Bárbaro". Mas meus desenhos começaram naturalmente a ficar engraçados, com narizes e orelhas maiores. Então fui influenciado por umas ilustrações humorísticas de um livro de matemática do Ensino Fundamental. De matemática mesmo não aprendi grande coisa. Meu pai, Hélio Machado, era treinador de cavalos de corrida na Fazenda Rio das Pedras, onde morávamos, no Distrito de Barão Geraldo. Nas horas vagas, era um bom desenhista, embora tivesse ainda mais habilidade com esculturas. Fazia ótimos bois e cavalos, com todo tipo de madeira. Também era compositor de músicas caipiras. Essa foi minha formação.

Desenvolvendo as habilidades

Machado - Aos 13 anos, fiz alguns meses de curso de desenho com o artista plástico Paulo Branco. Fora esta curta experiência, desenvolvi sozinho minhas técnicas e estilo. Na verdade, quando digo "sozinho", estou sendo ingrato com dezenas de cartunistas que me inspiraram e, de alguma forma, me ajudaram a encontrar meu caminho. Nesse sentido, o Salão de Humor de Piracicaba foi minha faculdade, pois foi o 1º concurso de que participei, e onde aprendi muito observando cartuns e cartunistas, nacionais e estrangeiros. Neste ano, completo 20 anos de participação.

Charges, cartuns e caricaturas

Machado - Tirando aquela fase "Conan", me voltei totalmente para o desenho de humor. Tenho igual interesse por charges, caricaturas e cartuns. Há alguns anos tenho pintado telas que, no final das contas, não fogem muito do meu estilo. A charge é totalmente relacionada ao noticiário do dia ou da semana. Ela é contemporânea e necessita dos acontecimentos recentes para existir. Se não houver essa relação, ela passa a ser um cartum, que é um tipo de desenho de humor atemporal. Vou citar o Palocci, por exemplo. Quando era ministro, muitas charges engraçadas foram feitas sobre ele. Se forem vistas daqui alguns anos, não farão o menor sentido. Com a caricatura o desenhista tem de traduzir características da pessoa retratada com poucos traços e, ao mesmo tempo, tem de ter humor.

Os desenhistas que mais o inspiraram

Machado - Pela ordem e enxugando muito: o argentino Mordillo e os brasileiros Ziraldo, Laerte, Cárcamo e Angeli.

Chargistas de primeiro time

Machado -   É praticamente impossível citar todos os craques da charge, já que são muitos. Vou desprezar grandes nomes para ficar só com cinco: os brasileiros Angeli e Jean, o mexicano Boligán, o norte-americano Luckovich e o francês Plantu.

Conselhos para se tornar desenhista

Machado - Desenhe o dia todo, se possível.  Visitas a salões de humor são imprescindíveis. Temos o de Piracicaba aqui na região, que é o mais tradicional do Brasil e um dos mais respeitados no mundo. Nele, há o encontro de grandes cartunistas e desenhos, de várias partes do mundo, que são verdadeiras aulas de humor gráfico. Invariavelmente, se volta de lá com inspiração para desenhar um ano inteiro!

Mercado de trabalho

Machado - É muito restrito. Porém, quando se é talentoso as oportunidades aparecem. Em jornais, revistas e editoras (os livros infantis são um grande filão). Mesmo a internet tem bons espaços para desenhos de qualidade. Mas concorrer em salões costuma ser o início de carreira de nove entre 10 cartunistas. Ter um trabalho selecionado neles significa milhares de pessoas conhecendo seu traço e suas idéias, entre elas gente da área, como os diretores de arte de jornais e revistas.

Processo diário de produção

Machado - Logo cedo eu leio os jornais. Depois faço os frilas: ilustrações para revistas e livros. Então dou uma geral nas inscrições para salões de eventos e concursos. Se tem algum com o prazo próximo, faço uma caminhada para desenvolver alguma idéia. A partir das 18 horas tenho de me concentrar em criar a charge para o Correio Popular. Então releio algumas partes do jornal para escolher o tema. Às vezes aparece uma idéia de primeira, sem muita briga. Porém, na maioria das vezes o papel fica em branco por longo tempo, até chegar a alguma idéia que me convença. Com a idéia domada, desenho-a a lápis, depois finalizo com nanquim. Por fim, passo para o computador e faço a pintura. Envio a charge por volta das 21 horas.

Evolução técnica e de conteúdo

Machado - Aos 13 anos desenhava para um jornalzinho da Pastoral Operária, mas levava a coisa tão a sério como se fosse uma capa para a revista Time. Com a grana que ganhei, comprei uma caneta de nanquim. O computador foi um divisor de águas nas artes gráficas em geral. Levávamos horas para pintar um desenho simples, correndo o risco de pingar aquela gota traiçoeira no final. Depois, ainda tinha de botar no Correio e rezar para chegar sem rasuras à revista ou editora. Na era digital, com o desenho pronto e alguns cliques no mouse, o trabalho pode ser enviado para qualquer parte do globo em segundos. Conheço gente que nunca mais destampou um tubo de tinta. Adoro pintar com minha caneta digital, mas ainda gosto de ter um pouco de tinta nos cantos das unhas.

Planos e mais planos

Machado - Minha cabeça não pára. Enquanto estou criando um cartum ou uma charge, sempre sobra uma brecha para arriscar uma letra ou melodia para uma música, ou o roteiro para um livro. Também alimento o sonho de poder voltar a correr os 100 metros rasos na casa dos 11 segundos, como fazia aos 16 anos, quando treinava atletismo no Círculo Militar.

Caricatura publicada na revista Veja.


 
Reportagem - Jornal da PUC-Campinas

Produção, transcrição e edição
Aderval Borges

Edição final para web
Roberta Accardo
Marcelo Sacrini

Assessoria de Imprensa da PUC-Campinas.


    
 
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