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Depois de Angeli, que está na casa dos cinqüenta anos, para muitos seu principal sucessor em talento é o campineiro Dalcio Machado. Apesar dos 77 prêmios nacionais e internacionais, continua residindo em Campinas e diz não ter intenção
alguma de sair da cidade para um centro maior.
Até porque, com a internet, nem é preciso
sair de casa
para enviar seus
desenhos às várias
publicações das quais é colaborador e, inclusive,
remeter obras
para um novo
concurso internacional.
Em entrevista
concedida ao
Jornal
da PUC-Campinas,
Dalcio fala do
seu trabalho rotineiro, define
a linha tênue
que separa a
charge do cartum
e dá algumas
dicas aos novos
desenhistas:
Publicações
para as quais
trabalha
Dalcio Machado -
Comecei no Correio Popular com
16 anos (estou com 34). Foi meu primeiro trabalho e continuo lá até hoje.
Faço uma charge por dia, que sai na página 2 do primeiro caderno.
Também desenho caricaturas e ilustrações para as revistas Veja e Exame,
e vinhetas (os "plimplins") para a TV
Globo.
Os três prêmios mais marcantes
Machado -
Até agora recebi 77 prêmios nacionais e internacionais. Todos são muito importantes, por isso só vou citar os últimos. O 1º lugar em caricatura no Salão Carioca de Humor, em abril deste ano, no qual tive a honra de receber o troféu das mãos da atriz Fernanda Montenegro. Ainda em abril fui para Portugal receber o 3º lugar
em caricatura no World Press Cartoon,
o evento mais importante do mundo para trabalhos publicados na imprensa. Em
julho, recebi o Prêmio Abril de Jornalismo, categoria ilustração, pelo melhor trabalho publicado nas revistas da editora Abril em 2005. Foi uma capa para a revista Exame. E, na semana passada, ganhei uma menção honrosa em Rhodes, Grécia,
num concurso de cartum.
Como e quando começou a desenhar
Machado - Desenho
desde os 10 anos. No começo,
era mais ligado
em figuras de
monstros e nos
personagens na linha dos desenhos de "Conan, o Bárbaro".
Mas meus desenhos começaram
naturalmente
a ficar engraçados, com narizes e orelhas
maiores. Então fui influenciado por umas ilustrações
humorísticas de um livro de matemática do Ensino
Fundamental.
De matemática mesmo não aprendi grande
coisa. Meu pai,
Hélio Machado, era treinador de cavalos
de corrida na
Fazenda Rio das
Pedras, onde morávamos,
no Distrito de
Barão Geraldo. Nas horas vagas, era um
bom desenhista,
embora tivesse
ainda mais habilidade com esculturas. Fazia ótimos
bois e cavalos,
com todo tipo de madeira. Também era compositor
de músicas caipiras. Essa
foi minha formação.
Desenvolvendo as habilidades
Machado -
Aos 13 anos, fiz alguns meses de curso de desenho com o artista plástico
Paulo Branco. Fora esta curta experiência, desenvolvi sozinho minhas técnicas
e estilo. Na verdade, quando digo "sozinho",
estou sendo ingrato com dezenas de cartunistas que me inspiraram e, de alguma
forma, me ajudaram a encontrar meu caminho. Nesse sentido, o Salão
de Humor de Piracicaba foi minha faculdade, pois foi o 1º concurso
de que participei, e onde aprendi muito observando cartuns e cartunistas, nacionais
e estrangeiros. Neste ano, completo 20 anos de participação.
Charges, cartuns e caricaturas
Machado -
Tirando aquela fase "Conan", me voltei totalmente para o desenho
de humor. Tenho igual interesse por charges, caricaturas e cartuns. Há alguns
anos tenho pintado telas que, no final das contas, não fogem muito do
meu estilo. A charge é totalmente relacionada ao noticiário do
dia ou da semana. Ela é contemporânea e necessita dos acontecimentos
recentes para existir. Se não houver essa relação, ela
passa a ser um cartum, que é um tipo de desenho de humor atemporal. Vou
citar o Palocci, por exemplo. Quando era ministro, muitas charges engraçadas
foram feitas sobre ele. Se forem vistas daqui alguns anos, não farão
o menor sentido. Com a caricatura o desenhista tem de traduzir características
da pessoa retratada com poucos traços e, ao mesmo tempo, tem de ter humor.
Os desenhistas que mais o inspiraram
Machado - Pela ordem e enxugando muito: o argentino Mordillo e os brasileiros Ziraldo, Laerte, Cárcamo e Angeli.
Chargistas de primeiro time
Machado - É praticamente impossível citar todos os craques da charge, já que são muitos. Vou desprezar grandes nomes para ficar só com
cinco: os brasileiros Angeli e Jean, o mexicano Boligán,
o norte-americano Luckovich e o francês Plantu.
Conselhos para se tornar desenhista
Machado - Desenhe
o dia todo, se possível. Visitas a salões de humor são imprescindíveis. Temos o de Piracicaba aqui na região, que é o mais tradicional do Brasil e um dos mais respeitados no mundo. Nele, há o encontro de grandes cartunistas e desenhos, de várias partes do mundo, que são verdadeiras aulas de humor gráfico. Invariavelmente, se volta de lá com inspiração
para desenhar
um ano inteiro!
Mercado de trabalho
Machado -
É muito restrito. Porém, quando se é talentoso as oportunidades aparecem. Em jornais, revistas e editoras (os livros infantis são um grande filão). Mesmo a internet tem bons espaços para desenhos de qualidade. Mas concorrer em salões costuma ser o início de carreira de nove entre 10 cartunistas. Ter um trabalho selecionado neles significa milhares de pessoas conhecendo seu traço e suas idéias, entre elas gente da área,
como os diretores de arte de jornais e revistas.
Processo
diário de produção
Machado -
Logo cedo eu leio os jornais. Depois faço os frilas: ilustrações para revistas e livros. Então dou uma geral nas inscrições para salões de eventos e concursos. Se tem algum com o prazo próximo, faço uma caminhada para desenvolver alguma idéia. A partir das 18 horas tenho de me concentrar em criar a charge para o Correio Popular. Então releio algumas partes do jornal para escolher o tema. Às vezes aparece uma idéia de primeira, sem muita briga. Porém, na maioria das vezes o papel fica em branco por longo tempo, até chegar a alguma idéia que me convença. Com a idéia domada, desenho-a a lápis, depois finalizo com nanquim. Por fim, passo para o computador e faço
a pintura. Envio a charge por volta das 21 horas.
Evolução técnica e de conteúdo
Machado -
Aos 13 anos desenhava para um jornalzinho da Pastoral Operária, mas levava a coisa tão a sério
como se fosse uma capa para a revista Time.
Com a grana que ganhei, comprei uma caneta de nanquim. O computador foi um divisor
de águas nas artes gráficas em geral. Levávamos horas para pintar um desenho simples, correndo o risco de pingar aquela gota traiçoeira no final. Depois, ainda tinha de botar no Correio e rezar para chegar sem rasuras à revista ou editora. Na era digital, com o desenho pronto e alguns cliques no mouse, o trabalho pode ser enviado para qualquer parte do globo em segundos. Conheço
gente que nunca mais destampou um tubo de tinta. Adoro pintar com minha caneta
digital, mas ainda gosto de ter um pouco de tinta nos cantos das unhas.
Planos e mais planos
Machado -
Minha cabeça não pára. Enquanto estou criando um cartum ou uma charge, sempre sobra uma brecha para arriscar uma letra ou melodia para uma música, ou o roteiro para um livro. Também alimento o sonho de poder voltar a correr os 100 metros rasos na casa dos 11 segundos, como fazia aos 16 anos, quando treinava atletismo no Círculo
Militar.
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Caricatura publicada na revista Veja. |
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