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Capacitação de profissionais desafia o agronegócio
O engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, antes de assumir o Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Governo Lula, era referência
para agropecuária nacional, como importante consultor de empresas e de
cooperativas do setor. Ele esteve em Campinas, no dia 04/03/2005, para realizar
a conferência de abertura do evento de lançamento do Programa de
Apoio ao Desenvolvimento Agrícola e ao Agronegócio, no Auditório
D. Gilberto, Campus I da PUC-Campinas.
O
Programa é formado pela PUC-Campinas e outras 11 instituições
que integram a Fundação
Fórum Campinas (FFC), entre as quais as seis que são responsáveis
pelas principais pesquisas e serviços brasileiros de apoio ao setor agropecuário:
Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa), Instituto
Agronômico (IAC), Instituto
de Zootecnia (IZ), Instituto
de Tecnologia de Alimentos (ITAL), Instituto
Biológico (IB) e Coordenadoria
de Assistência Técnica Integral (CATI). Na entrevista,
o ministro fala dos principais desafios do agronegócio brasileiro e, com
muito otimismo, sobre suas perspectivas para o futuro:
JP - Para
o senhor, qual a definição de agricultura? Rodrigues
- É uma das atividades econômicas de maior risco perante a natureza.
De todas, é a que mais depende do "mestre São Pedro".
Mas não depende apenas dos fatores ocasionais. Depende também de
boa administração e sofre muitas influências de fatores objetivos
externos, seja nacionais ou internacionais. Um exemplo disso foi a crise avassaladora
da economia cafeeira na primeira metade do século passado, em conseqüência
da quebra da Bolsa de Nova York. No momento, vivemos uma crise de super oferta
internacional de alguns produtos agrícolas, que está causando grandes
prejuízos aos produtores nacionais. Como conjugar as várias
áreas do saber, não apenas justapostas, porque a Universidade não
é só justaposição de cursos. A Universidade é
a cultura do saber do conhecimento, do desenvolvimento a serviço do crescimento
da vida da sociedade, mas de uma maneira sistêmica. Eu diria que é
um desafio que me persegue até hoje. Porque a Universidade não é
só ensino. Ela é ensino, pesquisa e extensão. JP
- E a definição de agronegócio? Rodrigues -
É a soma de toda uma cadeia produtiva relacionada aos produtos provenientes
da agricultura. Envolve empresas rurais, produtores de insumos agrícolas,
maquinários, agroindústrias, empresas de comercialização
e o próprio consumidor. A da cevada, por exemplo, engloba desde o agricultor
que produz o grão até o marketeiro que ganha para produzir a propaganda
que irá vender mais cerveja no dia de um clássico de futebol. Ou
seja, são inúmeras profissões e atividades intermediárias,
desde a origem do produto na fazenda até o seu resultado final para o consumidor.
JP - Quais são as perspectivas de avanços para o setor
agropecuário? Rodrigues - Precisamos de políticas
públicas, melhor organização da cadeia produtiva e negociações
internacionais para expandir nossas exportações para novos mercados.
Estamos criando câmaras setoriais para cada cadeia produtiva. Já
temos 23 estruturadas. Entre nossos pontos fortes são a disponibilidade
de terras, clima favorável, tecnologia e recursos humanos qualificados
em algumas áreas. Nossos principais gargalos são: a falta de dinheiro,
tarifas injustas praticadas pelos países desenvolvidos para protecionismo
de sua agropecuária. JP - E sobre o planejamento estratégico
para a produção rural? Rodrigues - Contamos com
assessoria de alto nível trabalhando com uma perspectiva para os próximos
30 anos. Neste trabalho estamos indagando o que o mundo vai consumir nas próximas
três décadas. Qual será o perfil do consumidor mundial? Como
irá evoluir a produção agropecuária internacional?
Qual será a disponibilidade terras? Nesse cenário, que papel caberá
ao Brasil com seus recursos disponíveis? E, por conseqüência,
quais políticas públicas o País deverá adotar. Um
dos fatores determinantes que sabemos que irá se destacar nos próximos
anos é o fim das reservas petrolíferas, que podem causar grandes
aumentos dos preços dos insumos e substanciais reflexos sobre toda a cadeia
produtiva. Quais alternativas tecnológicas existem no mundo para substituí-lo?
Sabemos que o álcool e os biocombustíveis estão entre as
melhores e o potencial do País para produzi-los é superior a todos
os outros. JP- Qual a importância da decisão da OMC? Rodrigues
- A decisão da OMC (Organização Mundial do Comércio)
de barrar o protecionismo norte-americano para o algodão foi uma grande
vitória para os produtores brasileiros. Trata-se de um reconhecimento de
que os subsídios distorcem o mercado agrícola internacional. A decisão
tem grande impacto político. Significa que daqui para frente haverá
esse componente novo em todas as negociações internacionais. JP
- Qual a opinião do senhor sobre a recente aprovação da Lei
de Biossegurança no Congresso Nacional? Rodrigues - Antes
não existia um instrumento legal que estabelecesse as regras. Não
havia definição quanto às pesquisas e nem quanto ao plantio.
Agora passa a existir clareza quanto às regras, inclusive no tocante a
eventuais impactos dessas novas tecnologias para o meio ambiente e para a saúde
humana e animal. Então o que existe a partir de agora não é
propriamente a liberação, mas regras para que essa tecnologia seja
aplicada de forma controlada e satisfatória. JP - E os motivos
da queda do PIB agropecuário? Rodrigues - Houve queda
internacional nos preços de cinco commodities (*) agrícolas: soja,
algodão, trigo, milho e arroz. Os cinco tiveram grande produção
mundial, sobretudo no Brasil, fator que derrubou os preços no mundo inteiro
e também no Brasil. Além disso, o custo de produção
de cada um deles subiu muito no Brasil. Mas há outros produtos como café
e a carne, que vivem momentos mais positivos. Também estamos vivendo um
problema localizado no Sul do país, com a pior seca na região nos
últimos 40 anos, especialmente no Rio Grande do Sul, um estado de grande
importância para a agricultura nacional. No Rio Grande do Sul, a produção
chegou a cair 70% em algumas regiões. Isto causa um prejuízo brutal
para a renda agrícola. JP - Quais os principais desafios para
o agronegócio no Brasil? Rodrigues - Um dos desafios
principais é a brusca queda de renda, como acabei de citar, porque inibe
o processo produtivo. Mas existem também desafios permanentes, como a necessidade
de melhor logística e infra-estrutura, como portos, estradas, armazenagem,
novas pesquisas. Uma outra grande questão é a conquista de novos
mercados. Há um grande esforço do Itamarati nesse sentido, junto
ao Mercado Comum Europeu, à Alca, aos países asiáticos, China,
Rússia, para abrir novos mercados e continuar crescendo nossa economia
agropecuária. JP - Há algum conflito entre a agricultura
familiar e o agronegócio? Rodrigues - Esse conflito não
existe. A agricultura familiar é uma atividade fundamental para o país.
Pesquisas da Embrapa e outras instituições são centradas
na agricultura familiar. No governo Lula, temos reforçado os créditos
e os mecanismos de assistência a esse importante setor produtivo, para possibilitar
avanço dos produtores familiares rumo à agricultura empresarial.
JP - Quais as mudanças recentes determinantes para o mercado
agropecuário? Rodrigues - A primeira é a quebra
do protecionismo do governo americano aos seus produtores de algodão. A
segunda é a reabertura do mercado russo para a carne brasileira. É
extremamente injusto que um caso de febre aftosa em bovinos do Amazonas prejudique
a exportação de carne produzida no Estado do Paraná. A terceira
foi a alocação de recursos do governo federal para a comercialização
da safra agrícola do Brasil neste ano, cujos produtores estão com
grandes dificuldades. JP - Há o risco de as mudanças climáticas
inviabilizarem certos cultivos? Rodrigues - O Ministério
criou uma área de planejamento estratégico para avaliar não
só fatores climáticos, como as tendências de consumo agrícola
em todo o mundo, as disponibilidade de água, terra, recursos de energia,
insumos, questões relativas ao meio ambiente. O objetivo é avaliar
políticas permanentes para o setor agropecuário. JP - E
as perspectivas para o biocombustível? Rodrigues - Os
biocombustíveis apontam como uma grande solução para o fim
das reservas petrolíferas. Estamos trabalhando com a perspectiva de que
os biocombustíveis sejam o grande commodity (*) do século XXI. Acreditamos
que a produção de biodiesel a partir da mamona gere muitos empregos
no Nordeste e a de dendê gere muitos empregos na Amazônia. É
possível produzir biocombustível de óleos de girassol, soja,
algodão, entre outros. JP - Qual o futuro da cultura do algodão
no Brasil? Rodrigues - O Brasil já foi um dos maiores
produtores de algodão. A cultura foi obstruída pela importação
abusiva do produto de outros países. O Brasil volta agora a ser um grande
produtor, com perspectivas de ser o maior outra vez nos próximos anos.
JP - Quando a Rússia vai liberar a carne do Mato Grosso e do
Tocantins? Rodrigues - A regra estabelece um período de
carência nesses estados, que são vizinhos do Estado do Amazonas,
onde apareceu o foco de aftosa. Como já faz quatro meses que apareceu o
foco, a expectativa é de que logo recebamos boas novas do governo russo. Por
que exportamos pouco para o Mercosul? Rodrigues - É uma
questão de mercado. Temos de vender para os mercados que se abrem e buscam
nossos produtos. Não é o caso dos países do Mercosul. Há
maiores perspectivas de vendermos para a China do que para os países vizinhos,
em decorrência da realidade mercadológica. JP - Como difundir
as pesquisas e os avanços tecnológicos? Rodrigues -
É preciso que haja instrumentos de difusão, sim, mas, ao mesmo tempo,
é preciso que haja maior organização do setor produtivo.
As cooperativas agrícolas são importantes agentes de transmissão
de tecnologias. No Brasil posso dizer que temos um excelente time. Uma excelente
defesa, que são nossos pesquisadores, um ataque muito bom que são
nossos competentes agricultores e um meio de campo formidável que são
as cooperativas e as associações, que aproximam a defesa e o ataque. JP
- Fale sobre as culturas perenes para fixação do homem no campo. Rodrigues
- Hoje quem cuida deste segmento é a Cplac, órgão do
Ministério que cuida do cacau, seringueira e produtos florestais em geral.
Estamos trabalhando com um projeto voltado para a Amazônia, chamado Agrofloresta,
que envolve seringueiras, cacau, produtos medicinais, essências para indústrias
de perfumaria, para que o produtor possa sobreviver da floresta sem ter de derrubá-la.
Esse programa, uma vez aprovado pelo governo, terá grande impacto ambiental
e social. JP - Quais os projetos especiais para Campinas? Rodrigues
- Campinas já recebeu um presente no ano passado, que foi a montagem
de uma Embrapa para verificação de safras via satélite. A
região conta com institutos e universidades de grande competência.
Precisamos, sim, de toda essa tradição, como centro de excelência,
para ajudar o Brasil. Nesse aspecto, meus parabéns à PUC-Campinas
e aos institutos que são seus parceiros nesta iniciativa. (*) Commodity
é todo produto primário ou industrializado que está em cadeia
de comercialização internacional.
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