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Íntegra da entrevista com o Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues
14.03.2005
Entrevista concedida pelo Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, na edição Ano I/03 do Jornal da PUC-Campinas.


Capacitação de profissionais desafia o agronegócio
 
O engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, antes de assumir o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Governo Lula, era referência para agropecuária nacional, como importante consultor de empresas e de cooperativas do setor. Ele esteve em Campinas, no dia 04/03/2005, para realizar a conferência de abertura do evento de lançamento do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Agrícola e ao Agronegócio, no Auditório D. Gilberto, Campus I da PUC-Campinas.

O Programa é formado pela PUC-Campinas e outras 11 instituições que integram a Fundação Fórum Campinas (FFC), entre as quais as seis que são responsáveis pelas principais pesquisas e serviços brasileiros de apoio ao setor agropecuário: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Instituto Agronômico (IAC), Instituto de Zootecnia (IZ), Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), Instituto Biológico (IB) e Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI).

Na entrevista, o ministro fala dos principais desafios do agronegócio brasileiro e, com muito otimismo, sobre suas perspectivas para o futuro:

JP - Para o senhor, qual a definição de agricultura?

Rodrigues - É uma das atividades econômicas de maior risco perante a natureza. De todas, é a que mais depende do "mestre São Pedro". Mas não depende apenas dos fatores ocasionais. Depende também de boa administração e sofre muitas influências de fatores objetivos externos, seja nacionais ou internacionais. Um exemplo disso foi a crise avassaladora da economia cafeeira na primeira metade do século passado, em conseqüência da quebra da Bolsa de Nova York. No momento, vivemos uma crise de super oferta internacional de alguns produtos agrícolas, que está causando grandes prejuízos aos produtores nacionais.

Como conjugar as várias áreas do saber, não apenas justapostas, porque a Universidade não é só justaposição de cursos. A Universidade é a cultura do saber do conhecimento, do desenvolvimento a serviço do crescimento da vida da sociedade, mas de uma maneira sistêmica. Eu diria que é um desafio que me persegue até hoje. Porque a Universidade não é só ensino. Ela é ensino, pesquisa e extensão.

JP - E a definição de agronegócio?

Rodrigues - É a soma de toda uma cadeia produtiva relacionada aos produtos provenientes da agricultura. Envolve empresas rurais, produtores de insumos agrícolas, maquinários, agroindústrias, empresas de comercialização e o próprio consumidor. A da cevada, por exemplo, engloba desde o agricultor que produz o grão até o marketeiro que ganha para produzir a propaganda que irá vender mais cerveja no dia de um clássico de futebol. Ou seja, são inúmeras profissões e atividades intermediárias, desde a origem do produto na fazenda até o seu resultado final para o consumidor.

JP - Quais são as perspectivas de avanços para o setor agropecuário?

Rodrigues - Precisamos de políticas públicas, melhor organização da cadeia produtiva e negociações internacionais para expandir nossas exportações para novos mercados. Estamos criando câmaras setoriais para cada cadeia produtiva. Já temos 23 estruturadas. Entre nossos pontos fortes são a disponibilidade de terras, clima favorável, tecnologia e recursos humanos qualificados em algumas áreas. Nossos principais gargalos são: a falta de dinheiro, tarifas injustas praticadas pelos países desenvolvidos para protecionismo de sua agropecuária.

JP - E sobre o planejamento estratégico para a produção rural?

Rodrigues - Contamos com assessoria de alto nível trabalhando com uma perspectiva para os próximos 30 anos. Neste trabalho estamos indagando o que o mundo vai consumir nas próximas três décadas. Qual será o perfil do consumidor mundial? Como irá evoluir a produção agropecuária internacional? Qual será a disponibilidade terras? Nesse cenário, que papel caberá ao Brasil com seus recursos disponíveis? E, por conseqüência, quais políticas públicas o País deverá adotar. Um dos fatores determinantes que sabemos que irá se destacar nos próximos anos é o fim das reservas petrolíferas, que podem causar grandes aumentos dos preços dos insumos e substanciais reflexos sobre toda a cadeia produtiva. Quais alternativas tecnológicas existem no mundo para substituí-lo? Sabemos que o álcool e os biocombustíveis estão entre as melhores e o potencial do País para produzi-los é superior a todos os outros.

JP- Qual a importância da decisão da OMC?

Rodrigues - A decisão da OMC (Organização Mundial do Comércio) de barrar o protecionismo norte-americano para o algodão foi uma grande vitória para os produtores brasileiros. Trata-se de um reconhecimento de que os subsídios distorcem o mercado agrícola internacional. A decisão tem grande impacto político. Significa que daqui para frente haverá esse componente novo em todas as negociações internacionais.

JP - Qual a opinião do senhor sobre a recente aprovação da Lei de Biossegurança no Congresso Nacional?

Rodrigues - Antes não existia um instrumento legal que estabelecesse as regras. Não havia definição quanto às pesquisas e nem quanto ao plantio. Agora passa a existir clareza quanto às regras, inclusive no tocante a eventuais impactos dessas novas tecnologias para o meio ambiente e para a saúde humana e animal. Então o que existe a partir de agora não é propriamente a liberação, mas regras para que essa tecnologia seja aplicada de forma controlada e satisfatória.

JP - E os motivos da queda do PIB agropecuário?

Rodrigues - Houve queda internacional nos preços de cinco commodities (*) agrícolas: soja, algodão, trigo, milho e arroz. Os cinco tiveram grande produção mundial, sobretudo no Brasil, fator que derrubou os preços no mundo inteiro e também no Brasil. Além disso, o custo de produção de cada um deles subiu muito no Brasil. Mas há outros produtos como café e a carne, que vivem momentos mais positivos. Também estamos vivendo um problema localizado no Sul do país, com a pior seca na região nos últimos 40 anos, especialmente no Rio Grande do Sul, um estado de grande importância para a agricultura nacional. No Rio Grande do Sul, a produção chegou a cair 70% em algumas regiões. Isto causa um prejuízo brutal para a renda agrícola.

JP - Quais os principais desafios para o agronegócio no Brasil?

Rodrigues - Um dos desafios principais é a brusca queda de renda, como acabei de citar, porque inibe o processo produtivo. Mas existem também desafios permanentes, como a necessidade de melhor logística e infra-estrutura, como portos, estradas, armazenagem, novas pesquisas. Uma outra grande questão é a conquista de novos mercados. Há um grande esforço do Itamarati nesse sentido, junto ao Mercado Comum Europeu, à Alca, aos países asiáticos, China, Rússia, para abrir novos mercados e continuar crescendo nossa economia agropecuária.

JP - Há algum conflito entre a agricultura familiar e o agronegócio?

Rodrigues - Esse conflito não existe. A agricultura familiar é uma atividade fundamental para o país. Pesquisas da Embrapa e outras instituições são centradas na agricultura familiar. No governo Lula, temos reforçado os créditos e os mecanismos de assistência a esse importante setor produtivo, para possibilitar avanço dos produtores familiares rumo à agricultura empresarial.

JP - Quais as mudanças recentes determinantes para o mercado agropecuário?

Rodrigues - A primeira é a quebra do protecionismo do governo americano aos seus produtores de algodão. A segunda é a reabertura do mercado russo para a carne brasileira. É extremamente injusto que um caso de febre aftosa em bovinos do Amazonas prejudique a exportação de carne produzida no Estado do Paraná. A terceira foi a alocação de recursos do governo federal para a comercialização da safra agrícola do Brasil neste ano, cujos produtores estão com grandes dificuldades.

JP - Há o risco de as mudanças climáticas inviabilizarem certos cultivos?

Rodrigues - O Ministério criou uma área de planejamento estratégico para avaliar não só fatores climáticos, como as tendências de consumo agrícola em todo o mundo, as disponibilidade de água, terra, recursos de energia, insumos, questões relativas ao meio ambiente. O objetivo é avaliar políticas permanentes para o setor agropecuário.

JP - E as perspectivas para o biocombustível?

Rodrigues - Os biocombustíveis apontam como uma grande solução para o fim das reservas petrolíferas. Estamos trabalhando com a perspectiva de que os biocombustíveis sejam o grande commodity (*) do século XXI. Acreditamos que a produção de biodiesel a partir da mamona gere muitos empregos no Nordeste e a de dendê gere muitos empregos na Amazônia. É possível produzir biocombustível de óleos de girassol, soja, algodão, entre outros.

JP - Qual o futuro da cultura do algodão no Brasil?

Rodrigues - O Brasil já foi um dos maiores produtores de algodão. A cultura foi obstruída pela importação abusiva do produto de outros países. O Brasil volta agora a ser um grande produtor, com perspectivas de ser o maior outra vez nos próximos anos.

JP - Quando a Rússia vai liberar a carne do Mato Grosso e do Tocantins?

Rodrigues - A regra estabelece um período de carência nesses estados, que são vizinhos do Estado do Amazonas, onde apareceu o foco de aftosa. Como já faz quatro meses que apareceu o foco, a expectativa é de que logo recebamos boas novas do governo russo.

Por que exportamos pouco para o Mercosul?

Rodrigues - É uma questão de mercado. Temos de vender para os mercados que se abrem e buscam nossos produtos. Não é o caso dos países do Mercosul. Há maiores perspectivas de vendermos para a China do que para os países vizinhos, em decorrência da realidade mercadológica.

JP - Como difundir as pesquisas e os avanços tecnológicos?

Rodrigues - É preciso que haja instrumentos de difusão, sim, mas, ao mesmo tempo, é preciso que haja maior organização do setor produtivo. As cooperativas agrícolas são importantes agentes de transmissão de tecnologias. No Brasil posso dizer que temos um excelente time. Uma excelente defesa, que são nossos pesquisadores, um ataque muito bom que são nossos competentes agricultores e um meio de campo formidável que são as cooperativas e as associações, que aproximam a defesa e o ataque.

JP - Fale sobre as culturas perenes para fixação do homem no campo.

Rodrigues - Hoje quem cuida deste segmento é a Cplac, órgão do Ministério que cuida do cacau, seringueira e produtos florestais em geral. Estamos trabalhando com um projeto voltado para a Amazônia, chamado Agrofloresta, que envolve seringueiras, cacau, produtos medicinais, essências para indústrias de perfumaria, para que o produtor possa sobreviver da floresta sem ter de derrubá-la. Esse programa, uma vez aprovado pelo governo, terá grande impacto ambiental e social.

JP - Quais os projetos especiais para Campinas?

Rodrigues - Campinas já recebeu um presente no ano passado, que foi a montagem de uma Embrapa para verificação de safras via satélite. A região conta com institutos e universidades de grande competência. Precisamos, sim, de toda essa tradição, como centro de excelência, para ajudar o Brasil. Nesse aspecto, meus parabéns à PUC-Campinas e aos institutos que são seus parceiros nesta iniciativa.

(*) Commodity é todo produto primário ou industrializado que está em cadeia de comercialização internacional.

   
 
Produtos exportados pelo Brasil
 
Complexo de soja - 25,8%
 
Carnes - 15,7%
 
Madeiras - 7,5%
 
Café - 7,9%
 
Açúcar - 6,8%
 
Principais mercados
(Percentagem das exportações nacionais).
 
União Européia: 34%
 
EUA: 15%
 
Ásia: 12% (somente a China, 8%)
 



Editor
Eunice Gomes

Produção,
transcrição e edição de texto
Aderval Borges
    
 
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