Concurso
Luiz Gonzaga Godoi Trigo
Ele era uma das estrelas do curso. Lembro sua pequena figura, olhos sagazes, a postura teatral em sala, falando pausadamente, nos encarando em busca de interlocutor. Arguto, citava de memória trechos, autores e fatos. Fios elaborados teciam a trama da aula, comprometendo nosso intelecto ao saber. Com ele aprendi que o conhecimento pressupõe a ética e o prazer. Mas não se enganassem os ingênuos ante sua voz educada, seus modos finos. Certa vez, em uma banca de defesa de tese, vi-o elevar-se com autoridade e disparar mísseis de argumentos contra a prepotência do candidato que ruiu sob sua própria temeridade. Tinha humor e agilidade intelectual. Era professor titular numa universidade pública e na PUC-Campinas, mas humilde e generoso ao compartilhar o conhecimento com seus discípulos. Também reconhecia, satisfeito, quando alguém lhe indicava bons livros ou filmes.
Uma manhã, no pátio dos Leões, encontrei-o à porta da secretaria da Filosofia. Ali conversamos sob a tempestade que se aproximava, o vento sacudindo as palmeiras e levantando papéis. Ele confidenciou-me que organizava um livro sobre escolas e educadores e precisava do ponto de vista de um aluno, assim convidou-me a escrever um capítulo. Disse que tínhamos idéias em comum. Marcamos a data para eu entregar o texto. Os trovões tornaram-se mais sonoros e a adrenalina aflorou em minhas veias congestionando o cérebro e o músculo cardíaco. Um texto encomendado, o primeiro da minha vida. Enquanto os pingos de chuva caíam corri pelas escadas até a biblioteca e do balcão envidraçado vi a chegada do inverno nas gotas de chuva que caíam nos paralelepípedos da rua lateral da universidade, sentindo o odor de terra molhada, tão cara às minhas lembranças infantis. Os telhados e prédios foram cobertos pela névoa. Um velho quadro de formandos da década de 1950, esquecido na parede, lembrou-me que as fotos de minha mãe e de uma tia estariam em algum recanto. Seus históricos escolares jaziam em documentos empoeirados. O meu, navegava nas memórias dos computadores da secretaria central. A universidade se reinventava, impulsionada pela história. Talvez, no futuro, um parente lembrasse que eu perambulei por aqueles corredores, bebi cerveja com os colegas e vi as mudanças sazonais enquanto imperceptível e inexoravelmente envelhecia cercado pelas estantes repletas de livros.
Meses depois, num sábado de início do verão, sob a canícula que tornava o ar morno e viscoso, encontrei um colega de classe num bar das proximidades. Ele perguntou se eu passara pela livraria. Disse que não e ele sorriu amarelo ao me falar para olhar a vitrine. Andei poucos metros. Apesar do sol que se refletia nos vidros vi o novo livro. Entrei, peguei-o nas mãos e olhei a contracapa. Lá estava meu nome, impresso ao lado do título do capítulo. Li, em pé, algumas páginas e saí em silêncio. O primeiro chopp, degustado logo depois, naquele mesmo bar, exalou um fugaz frescor de eternidade...
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